Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 31

Salmo deprecatório e didático. Afetos de Davi penitente: podendo chamar-se também êste salmo, como o coração de Davi. Os Santos Padres com o Apóstolo nos fazem reconhecer nêle a graça da justificação como um efeito só da divina Providência.

De Davi, Maskil.[1]MaskilMASKIL — Têrmo hebraico que o Pe. Pereira, segundo a Vulgata, traduziu De inteligência. Esta palavra derivada do verbo Shakal significa o que entende, mas como substantivo significa carmem, cântico, Leopoldo, obr. cit. e designa o cântico destinado a instruir. É o segundo dos salmos penitenciais, e foi composto quando Davi obteve o perdão dos seus pecados. Tem sete estrofes. 1.ª (1-2) Escreve a felicidade do homem a quem foram perdoados os pecados. 2.ª (3-4) O estado moral do pecador antes de obter o perdão. 3.ª (5) Resolução de manifestar o seu pecado, confessando a sua culpa. 4.ª e 5.ª (6-7-8) A alegria que experimenta o que se concilia com Deus. 6.ª e 7.ª (9-10-11) Exortação para não resistir à graça, a fim de se participar da alegria dos justos.

1Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas: E cujos pecados são cobertos.[2]E cujos pecados são cobertosE CUJOS PECADOS SÃO COBERTOS — Assim Deus reveste ao homem da justiça, e inocência de Jesus Cristo, para não registar nêle o que moveria a sua justa ira a desampará-lo, e a apartá-lo de si inteiramente, Gal 3, 14. Apc 3, 18. Esta justiça porém de tal sorte cobre, que de todo apaga o pecado, e justifica a alma de maneira que fica feita amiga de Deus. Neste sentido cita o apóstolo êste versículo. Rom 4, 7. — P. Scio.

2Bem-aventurado o homem, a quem o Senhor não imputou pecado, e cujo espírito é isento de dolo.[3]É isento de doloÉ ISENTO DE DOLO — Isto é, de hipocrisia, ou malícia, e conversão dissimulada, que é incompatível com a verdadeira fé justificante. 1 Tim 1, 5. Assim como o sol dissipa as trevas, da mesma sorte a caridade apaga e destrói o pecado tão perfeitamente, que já não se imputa mais, como se nunca se houvesse cometido. — P. Scio.

3Porque calei, e envelheceram os meus ossos enquanto clamava todo o dia.[4]Porque caleiPORQUE CALEI — Porque não descarreguei a minha consciência com uma sincera confissão dos meus pecados a Deus, procurando por meio da oração o verdadeiro remédio da graça. Quanto a confissão dos pecados nos alivia dêles, tanto a sua reticência os agrava mais. Quantum confessio peccata levat, tantum dissimulantia exaggerat. Tertuliano no livro Da Penitência.

4Porque a tua mão se fêz pesada sôbre mim de dia e de noite: Eu me converti da minha miséria, enquanto se crava a espinha.

5Eu te manifestei o meu pecado: E não ocultei a minha injustiça. Eu disse: Confessarei ao Senhor contra mim a minha injustiça: E tu me perdoaste a impiedade do meu pecado.[5]A impiedade do meu pecadoA IMPIEDADE DO MEU PECADO — O que no pecado é mortal diante de ti, porque quanto ao resto, Deus ainda depois do perdão, reserva para si a correção paternal do pecador, e a cura da chaga, ou enfermidade da alma, com muitas calamidades e penas temporais, com as quais o mesmo Davi foi visitado. Sl 38, 2; 108, 24. — P. Scio.

6Por isso orará a ti todo o santo no tempo oportuno. Mas na inundação das muitas águas, a êle não se chegaram.[6]Por isso orará a ti todo o santoPOR ISSO ORARÁ A TI TODO O SANTO — Aqui temos as preces dos justos em comunidade pelos enfermos. — Bossuet.

7Tu és o meu refúgio na tribulação, que me cercou: Alegria minha, livra-me dos que me cercam.

8Inteligência te darei, e instruir-te-ei neste caminho, em que hás-de andar: Fixarei sôbre ti os meus olhos.

9Não queirais ser como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento. Com o bocado e com a brida aperta as queixadas daqueles que não se chegam a ti.[7]Não queirais ser como o cavalo / Com o bocado e com a bridaNÃO QUEIRAIS SER COMO O CAVALO — Alguns querem, que continuando o Senhor a sua resposta, seja êste um aviso que faz aos pecadores, para que se não endureçam, e se obstinem no pecado. Outros são de parecer que é apóstrofe que faz Davi aos mesmos, exortando-os a que se aproveitem do seu exemplo, e não se entreguem à sua sensualidade, como animais indómitos, e sem razão. — P. Scio. | COM O BOCADO E COM A BRIDA — O hebreu: "Com cabresto, e com freio se há de apertar a sua bôca, para que não se cheguem a ti, e te mordam, o façam danos". Assim como êstes instrumentos são os que domam a rebeldia dos brutos, assim as calamidades dêste mundo são os meios, de que Deus se costuma valer, para coibir a nossa. — Bossuet.

10Muitos são os açoites para o pecador, mas o que espera no Senhor misericórdia o cercará.

11Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, ó justos, e gloriai-vos no reto do coração.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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