Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Salmo moral em que Davi pede a Deus o livre das traições, crueldades de seus inimigos: recomenda a bondade, e paciência de Deus.

1Oração de Davi. Ouve, Senhor, a minha justiça: Atende ao meu humilde rogo. Chegue aos teus ouvidos a oração que te faço, não com lábios enganosos.[1]Oração de DaviAssim se traduz o hebreu Th'fillah, e na verdade é uma verdadeira oração, muito fervorosa, que o profeta rei dirige ao Senhor, pedindo-lhe que o socorra e ampare contra a injusta perseguição de Saul, quando Davi se ocultava no deserto de Maon, que ficava a três horas de Hebron (1 Rs 23, 25 ss). Compreende seis estrofes. 1.ª (1-2) Suplica ao Deus da justiça para que faça triunfar a sua causa; 2.ª (3-5) Protesta a sua inocência; 3.ª (6-7) Que Deus se digne de o escutar; 4.ª (8-9) Que o guarde com a pupila dos olhos, do ataque dos inimigos; 5.ª (10-12) Imagem dos seus inimigos, semelhantes ao leão que devora a sua prêsa. 6.ª (13-15) Que Deus o salve mostrando-lhe a sua proteção.

2Do teu rosto saia o meu juízo: Vejam teus olhos a eqüidade.

3Provaste o meu coração, e o visitaste de noite: No fogo me examinaste, e não se achou em mim a iniqüidade.[2]No fogo me examinasteExpressão metafórica, que quer dizer que o Senhor o tinha purificado com muitas tribulações.

4Para que a minha boca não fale as obras dos homens: Por amor às palavras de teus lábios tenho guardado caminhos penosos.[3]Tenho guardado caminhos penososBossuet interpreta os caminhos estreitos, que são os que guiam para a vida eterna. (Mt 7, 14), para a consecução da qual é preciso o sofrimento.

5Firma os meus passos nas tuas veredas: Para que os meus pés não vacilem.[4]Para que os meus pés não vacilemPalavras de um homem que sabe, que não pode fazer o bem, nem perseverar nêle sem o socorro da divina graça.

6Eu clamei, porque tu me tens ouvido, ó Deus: Inclina para mim a tua orelha, e ouve as minhas palavras.

7Faze que sejam maravilhosas as tuas misericórdias tu que salvas aos que esperam em ti.

8Guarda-me dos que resistem à tua direita, como à menina do ôlho. Debaixo da sombra das tuas asas defende-me

9da face dos ímpios que me afligiram. Os meus inimigos cercaram a minha alma,

10cerraram as suas entranhas: A sua bôca falou com soberba.

11Depois de me terem lançado fora me cercam agora: E resolveram abaixar os seus olhos para a terra.

12Êles me receberam como leão preparado à presa: E como um cachorro do leão, que habita nos lugares ocultos.

13Levanta-te, Senhor, vem antes dêle, e prostra-o: Livra a minha alma do ímpio, tua espada,[5]Livra a minha alma do ímpioDo ímpio que é a tua espada, acrescenta na sua versão S. Jerônimo. Ab impio qui est gladius tuus. Porque do ímpio usa Deus como de instrumento para castigar. — Bossuet.

14dos inimigos da tua destra. Separa-os, Senhor, em vida dêles, dos que são poucos sôbre a terra: De tuas coisas escondidas se tem repleto o seu ventre. Fartaram-se de filhos: Deixaram suas sobras aos seus pequeninos.[6]Separa-os, SenhorA Igreja quer, segundo a parábola, que ainda nesta vida se separe o joio do trigo, os maus dos bons, ou dos escolhidos, que são poucos. Mas debalde o quer: porque eis-aqui a divina resposta que lemos no mesmo c. 13, v. 30. Sinite utrosque crescere usque ad messem. Deixai que cresçam uns e outros até o tempo da messe. — S. Jerônimo.

15Mas eu com justiça comparecerei na tua presença: Saciar-me-ei quando aparecer a tua glória.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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