Capítulo 16
1Oração de Davi. Ouve, Senhor, a minha justiça: Atende ao meu humilde rogo. Chegue aos teus ouvidos a oração que te faço, não com lábios enganosos.[1]Oração de Davi — Assim se traduz o hebreu Th'fillah, e na verdade é uma verdadeira oração, muito fervorosa, que o profeta rei dirige ao Senhor, pedindo-lhe que o socorra e ampare contra a injusta perseguição de Saul, quando Davi se ocultava no deserto de Maon, que ficava a três horas de Hebron (1 Rs 23, 25 ss). Compreende seis estrofes. 1.ª (1-2) Suplica ao Deus da justiça para que faça triunfar a sua causa; 2.ª (3-5) Protesta a sua inocência; 3.ª (6-7) Que Deus se digne de o escutar; 4.ª (8-9) Que o guarde com a pupila dos olhos, do ataque dos inimigos; 5.ª (10-12) Imagem dos seus inimigos, semelhantes ao leão que devora a sua prêsa. 6.ª (13-15) Que Deus o salve mostrando-lhe a sua proteção.
2Do teu rosto saia o meu juízo: Vejam teus olhos a eqüidade.
3Provaste o meu coração, e o visitaste de noite: No fogo me examinaste, e não se achou em mim a iniqüidade.[2]No fogo me examinaste — Expressão metafórica, que quer dizer que o Senhor o tinha purificado com muitas tribulações.
4Para que a minha boca não fale as obras dos homens: Por amor às palavras de teus lábios tenho guardado caminhos penosos.[3]Tenho guardado caminhos penosos — Bossuet interpreta os caminhos estreitos, que são os que guiam para a vida eterna. (Mt 7, 14), para a consecução da qual é preciso o sofrimento.
5Firma os meus passos nas tuas veredas: Para que os meus pés não vacilem.[4]Para que os meus pés não vacilem — Palavras de um homem que sabe, que não pode fazer o bem, nem perseverar nêle sem o socorro da divina graça.
6Eu clamei, porque tu me tens ouvido, ó Deus: Inclina para mim a tua orelha, e ouve as minhas palavras.
7Faze que sejam maravilhosas as tuas misericórdias tu que salvas aos que esperam em ti.
8Guarda-me dos que resistem à tua direita, como à menina do ôlho. Debaixo da sombra das tuas asas defende-me
9da face dos ímpios que me afligiram. Os meus inimigos cercaram a minha alma,
10cerraram as suas entranhas: A sua bôca falou com soberba.
11Depois de me terem lançado fora me cercam agora: E resolveram abaixar os seus olhos para a terra.
12Êles me receberam como leão preparado à presa: E como um cachorro do leão, que habita nos lugares ocultos.
13Levanta-te, Senhor, vem antes dêle, e prostra-o: Livra a minha alma do ímpio, tua espada,[5]Livra a minha alma do ímpio — Do ímpio que é a tua espada, acrescenta na sua versão S. Jerônimo. Ab impio qui est gladius tuus. Porque do ímpio usa Deus como de instrumento para castigar. — Bossuet.
14dos inimigos da tua destra. Separa-os, Senhor, em vida dêles, dos que são poucos sôbre a terra: De tuas coisas escondidas se tem repleto o seu ventre. Fartaram-se de filhos: Deixaram suas sobras aos seus pequeninos.[6]Separa-os, Senhor — A Igreja quer, segundo a parábola, que ainda nesta vida se separe o joio do trigo, os maus dos bons, ou dos escolhidos, que são poucos. Mas debalde o quer: porque eis-aqui a divina resposta que lemos no mesmo c. 13, v. 30. Sinite utrosque crescere usque ad messem. Deixai que cresçam uns e outros até o tempo da messe. — S. Jerônimo.
15Mas eu com justiça comparecerei na tua presença: Saciar-me-ei quando aparecer a tua glória.