Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 53

Salmo deprecatório. Davi vendo-se apertado de seus inimigos, pede a Deus que o livre do seu furor: E cheio de confiança na proteção do Senhor, lhe promete que os seus benefícios eternamente lhe não cairão da memória.

Ao regente do côro com acompanhamentos de instrumentos de corda.

1Para instrução de Davi,

2quando vieram os zifeus, e disseram a Saul: Pois que não está Davi escondido na nossa terra? (1 Rs 23, 19; 26, 1.)[1]ZIFEUSFoi composto por ocasião da traição dos zifeus 1 Rs 13, 19. Tem duas estrofes: a primeira é uma queixa; a segunda a confiança no Céu.

3Salva-me, ó Deus, em teu Nome: E com o teu poder julga a minha causa.

4Escuta, ó Deus, a minha oração: Percebe nos teus ouvidos as palavras da minha bôca.

5Porque os estranhos se têm levantado contra mim, e os fortes buscaram a minha alma: E não puseram a Deus diante de si.[2]PORQUE OS ESTRANHOSAssim chama Saul, aos do seu partido, e aos zifeus, ainda que êstes eram da tribo de Judá, porque se portavam com êle sem humanidade alguma, como bárbaros, e totalmente estranhos. Sl 17, 4; 142, 3. Is 1, 7. Como a palavra hostis não significa outra coisa senão estrangeiro, forasteiro, os romanos mostravam a sua moderação em dar êste nome a um inimigo. Cicer. de Offic. Lib. I. — Pereira.

6Mas eis-aqui Deus me favorece: E o Senhor é o protetor da minha alma.

7Faze voltar os males sôbre os meus inimigos: E na tua verdade destrói-os.

8Eu te oferecerei um sacrifício voluntário, e louvarei o teu nome, Senhor: Porque é bom.

9Porquanto de tôda a tribulação me tens livrado: E os meus olhos olharam com desprêzo sôbre os meus inimigos.[3]OLHARAM COM DESPRÊZOO hebreu e os Setenta têm expressões, que com tôda a propriedade significam "olhar para o que está debaixo, ou olhar para baixo, e com desprêzo;" e esta é a fôrça do verbo de que usa a Vulgata despexit: porque Davi confiado em Deus podia ver e olhar para seus inimigos sem os temer, e também se pode dizer que com desprêzo. — Pereira.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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