Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Salmo histórico. Davi perseguido dos seus inimigos põe a sua causa nas mãos de Deus; e os exorta a que voltem sôbre si, e se reconheçam, protestando que só no Senhor tem posta tôda a sua confiança e glória.

1Ao regente do côro, com acompanhamento de instrumentos de corda, salmo de Davi.[1]Ao regente do côro / Instrumentos de cordaA Vulgata traduziu êste título in finem in carminibus, e o padre Pereira desta maneira, não menos, senão mais confusa: 'Para o fim entre os cânticos', o que não dava idéia do que era. O in finem da Vulgata, que assim traduziu dos Setenta, e o Para o fim, do padre Pereira, e a tradução errada do hebreu lamnatreakh, que significa ao regente do côro. É uma espécie de advertência, significando que o Salmo deve ser remetido ao presidente do côro dos Levitas. É provável que o autor da Vulgata traduzisse o grego dos Setenta por in finem, referindo estas palavras ao fim dos tempos, isto é, à época do Messias. — INSTRUMENTOS DE CORDA — A Vulgata traduziu carminibus e o padre Pereira 'cânticos', o têrmo hebraico Neghinot, que era um instrumento de corda. Giustiniani e Houbigaut querem que êste instrumento fôsse uma cítara de oito cordas.

2Quando eu invoco o Senhor da minha justiça, Êle me ouve, e na tribulação o seu auxílio expande a minha alma. Tem compaixão de mim, e ouve a minha oração.[2]Quando eu invocoTraduz-se pelo presente, conforme se disse na introdução. Afastamo-nos um pouco da tradução do padre Pereira, para melhor inteligência do Salmo.

3Filhos dos homens, até quando sereis de pesado coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira?[3]Filhos dos homensO hebreu diz: 'Filhos de varão até quando convertereis a minha glória em ignomínia?' 'Filhos de varão', isto é, conforme a frase hebraica: 'Filhos de homem ilustre, ou varões ilustres.' É uma apóstrofe aos oficiais e comandantes das onze tribos, os quais, depois da morte de Saul, recusaram por largo tempo reconhecer por seu rei a Davi, 2 Rs 2, 9; 3, 1. — P. Scio.

4Sabei pois que o Senhor exaltou ao seu santo, o Senhor me ouvirá quando eu clamar a Êle.[4]Ao seu santoA mim seu Ungido. O hebreu 'E sabei que o Senhor apartou para si ao pio; isto é, me apartou e me elegeu, dotando-me de verdadeira piedade, para que eu restabelecesse o seu culto'. — P. Scio.

5Irai-vos e não queirais pecar: Do que dizeis nos vossos corações compungi-vos nos vossos leitos.[5]Irai-vosÉ uma forma hipotética, expressa por êste imperativo, e que corresponde a 'se vos irardes', etc. Hypothetica Hebræorum formula per imperativum, pro Si irascimini. Cfr. Synopsis criticorum S. Scripturæ.

6Sacrificai sacrifício de justiça, e esperai no Senhor: Muitos dizem: Quem nos patenteará os bens?[6]Sacrificai sacrifício de justiçaQuer dizer, oferecei sacrifício justo, isto é, oferecido por uma forma reta, com pureza de intenção, e oferecei-o pelos vossos pecados. Como se dissesse: Rebeldes! conhecei as vossas culpas, e arrependidos oferecei sacrifícios ao Senhor. O conjurati peccatum vestrum agnoscite, et in illius expiationem offerte sacrificium Deo. — Vatablo.

7Gravado está, Senhor, sôbre nós o lume do teu rosto: Deste alegria no meu coração.[7]Deste alegria no meu coraçãoNo hebreu se lêem estas últimas palavras unidas com o verso seguinte desta maneira: 'Deste alegria no meu coração, ao tempo que o trigo dêles, e o mosto se multiplicou'. Pode também ser alusivo aos refrescos que foram levados às tropas de Davi, quando fugia de Absalão. Rs 17, 28. A Igreja em uma Antífona aplica êste verso ao sustento e multiplicação que recebem os fiéis pela Eucaristia. — P. Scio.

8Pelo produto do seu trigo, vinho e azeite se multiplicaram.

9Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei.[8]E repousareiO hebreu diz: 'Em paz a um mesmo tempo me encostarei, e dormirei'. Outros: Idipsum e simul ou juntamente. — Pereira.

10Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original