Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 98

Salmo gratulatório. O salmista celebra o reino do Senhor, e de seu Cristo, convida a todos os homens a reconhecer a êste Deus supremo, a quem serviram Moisés, Aarão e os demais profetas.

1Salmo do mesmo Davi.
O Senhor reinou, estremeceram de cólera os povos: Reinou o que está sentado sôbre querubins, abala-se a terra.[1]Êste salmo / Querubins(1) Êste salmo foi composto provàvelmente para a cerimónia da trasladação da arca para Jerusalém. No original não tem êste título. Tem quatro estrofes. A 1.ª e 2.ª terminam por Sanctum est; a 4.ª por sanctus Dominus Deus noster, o que faz dizer aos exegetas que se encontram aqui de alguma maneira as três vêzes santo de Isaías. Primeira estrofe (1-3). A realeza de Deus faz tremer os gentios e a própria terra; é preciso louvá-lo, porque é poderoso e santo; Segunda (4-5). Porque governa Israel com justiça; Terceira (6-7). Ouviu os santos; Quarta (8-9). É necessário adorar sôbre Sião a montanha santa. É o terceiro dos salmos que começam por Dominus regnavit. (2) QUERUBINS — Os querubins da arca da aliança, que é como o trono de Deus.

2O Senhor é grande em Sião: E é exaltado sôbre todos os povos.

3Deem glória ao teu grande nome: Porquanto é terrível, e santo:

4E a honra do rei está em amar a justiça.
Tu preparaste leis retíssimas: Tu fizeste juízo e justiça em Jacó.[2]Tu fizeste juízoTU FIZESTE JUÍZO — Tu estabeleceste justíssimas leis para o govêrno do povo de Jacó, sinalaste com seus filhos a tua justiça, castigando os seus pecados, e o teu juízo e misericórdia tirando-os das suas angústias e misérias. — Santo Agostinho.

5Exaltai ao Senhor nosso Deus, e adorai o escabêlo de seus pés: Porque êle é santo.[3]E adorai o escabêloE ADORAI O ESCABÊLO — Por êste escabêlo entende Bossuet, no sentido histórico, a arca do testamento.

6Moisés e Aarão entre os seus sacerdotes: E Samuel entre aquêles que invocam o seu nome:
Invocavam o Senhor, e êle os atendia:[4]E SamuelE SAMUEL — Samuel não se numera entre os sacerdotes, porque foi sòmente levita. 1 Par 6. Veja-se o 1 Rs 2. — Pereira.

7Em coluna de nuvem lhes falava.
Guardavam os seus mandamentos, e o preceito que lhes deu.[5]Em coluna de nuvem lhes falavaEM COLUNA DE NUVEM LHES FALAVA — Alude ao que se refere no Êx 13, 21. — Pereira.

8Senhor nosso Deus, tu os atendias: Ó Deus, tu lhes fôste favorável e vingador de tôdas as maquinações que lhes faziam.

9Exaltai ao Senhor nosso Deus, e adorai-o no seu santo monte: Porque santo é o Senhor nosso Deus.[6]No seu santo monteNO SEU SANTO MONTE — O monte onde estava a arca; aplicam os exegetas à Igreja católica, que só é santa. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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