Capítulo 43
1Ao regente do côro para instrução dos filhos de Coré.[1]Ao regente do côro, etc. — Êste salmo foi composto por Davi com um espírito profético, do que haviam de padecer os macabeus, e os outros judeus na perseguição de Antíoco, ou talvez os Santos Mártires da Igreja, e os cristãos perseguidos pelo furor dos tiranos, para o que o mesmo S. Paulo se serviu do v. 14, na Ep aos Rom 8, 36. Tôdas as pessoas que se acharem em apêrto de aflição, e perseguidas, acharão neste salmo muitos motivos de confiança na consideração das misericórdias do Senhor, e de temor e humildade à vista dos rigores da sua justiça. O título fica já explicado no 41. Êste salmo foi composto durante a guerra dos sírios e amonitas. Tem seis estrofes.
2Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: Nossos pais nos anunciaram. A obra que fizeste nos dias dêles, e nos dias antigos.
3A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a êles: Afligiste os povos, e os lançaste fora:[2]E os lançaste fora — Da terra da promissão. O Senhor exterminou da terra de Canaã as sete nações que a habitavam e possuíam; e passou a ela, e plantou nela, como pela sua mão aos descendentes de Israel, para que êles a gozassem, e a herdassem. — Sacy.
4Porque não foi com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou: Senão a tua destra, e o teu braço, e a luz do teu rosto: Porque te comprazeste nêles.[3]Porque não foi com a sua espada que possuíram a terra, etc. — Porque ainda que a manejaram com muito valor, nunca houvera produzido aquêles efeitos maravilhosos, que excediam todo o poder humano, e eram verdadeiros milagres do poder de Deus. — P. Scio.
5Tu mesmo és o meu rei, e o meu Deus: Que dispões as salvações de Jacó.[4]Que dispões as salvações, etc. — Produzidas pela tua onipotente palavra, que dá o ser, e a lei a tôdas as coisas. Sl 41, 9; 67, 29. Ou que mandas aos teus Anjos, que salvem ao povo de Jacó, ou de Israel. Mandas que sejam salvos, e os salvas; porque a ordem e mandamento de Deus sempre se cumpre. — P. Scio.
6Por ti nos esforçaremos em arruinar nossos inimigos, em teu nome desprezaremos aos que se levantam contra nós.
7Porque não esperarei no meu arco: E a minha espada não me salvará.
8Porque nos salvaste dos que nos afligiam: E confundiste aos que nos tinham aborrecimento.
9Em Deus nos gloriaremos todo o dia: E em teu nome diremos louvores eternamente.
10Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão: E tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos.
11Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos: E que fôssemos prêsa dos que nos tinham em aborrecimento.
12Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro: E nos espalhaste entre as nações.
13Vendeste o teu povo sem preço: E não houve concurso nos mercados dêles.
14Puseste-nos no opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós.
15Puseste-nos em provérbio às gentes por exemplo de irrisão nos povos.[5]Por exemplo de irrisão, etc. — À letra: "por movimento de cabeça," que é gesto de escárnio, e de irrisão. 4 Rs 19, 21; Jó 16, 5; Sl 21, 8. — P. Scio.
16A minha ignomínia está todo o dia diante de mim, e a confusão do meu rosto me tem coberto.[6]E a confusão do meu rosto me tem coberto — Quer dizer: Tenho diante dos meus olhos ocasiões contínuas de confusão, que me cobrem a cara de vergonha. — Pereira.
17À voz do que me afronta, e vitupera: À vista do inimigo, e do que me persegue.
18Tôdas estas coisas vieram sôbre nós, e ainda assim nós nos não temos esquecido de ti: E não temos cometido iniquidade contra o teu pacto.
19O nosso coração não tornou atrás: Nem tu desviaste do teu caminho os nossos passos:[7]Nem tu desviaste do teu caminho, etc. — A Vulgata tem et declinasti, mas está aqui, nem tu desviaste. Mas o mesmo traduziu Sacy. E a razão é: porque a negação, que precedeu no primeiro período, se deve tornar a entender no segundo; de sorte que segundo o costume da língua hebraica, o mesmo é, et declinasti, que, nec declinasti. S. Jerônimo o viu belamente, quando traduziu neste lugar: nec declinaverunt gressus nostros a semita tua: nem os nossos passos se extraviaram do teu caminho. E êste mesmo nec declinasti, nem tu desviaste, é outro hebraísmo, para se significar o mesmo que, nec declinare permisisti, nem tu permitiste que se desviassem. Ambas estas duas observações são de Bossuet. — Pereira.
20Porque tu nos humilhaste no lugar da aflição, e a sombra da morte nos cobriu.
21Se nós nos esquecemos do nome do nosso Deus, e se estendemos as nossas mãos para algum Deus estranho:
22Porventura não há de pedir Deus conta disso? porque êle conhece os segredos do coração. Pois por amor de ti somos entregues à morte cada dia: Somos reputados assim como ovelhas do matadouro.[8]Como ovelhas do matadouro — Isto é, destinados ao matadouro. Êste versículo aplica S. Paulo na Ep. aos Rom 8, 36, aos Apóstolos e Mártires da primitiva Igreja. E, pode aplicar-se aos sacerdotes perseguidos a cada passo.
23Levanta-te, por que dormes, Senhor? levanta-te e não nos desampares para sempre.[9]Levanta-te por que dormes, etc. — Parece que Deus em certo modo dorme, quando tarda em socorrer ao homem que padece, e se acha em miséria: mas, non dormitat, neque dormiet, qui custodit Israel. Sl 120, 4; e quando exercita com trabalhos aos seus, sabe muito bem o tempo em que os há de livrar dêles com maior glória e proveito. — P. Scio.
24Por que apartas teu rosto, te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação?
25Porquanto nossa alma está humilhada até ao pó: Pegado está com a terra o nosso ventre.[10]Pegado está com a terra o nosso ventre — Isto é: Nós nos vemos reduzidos ao maior abatimento: não podemos levantar-nos por nós mesmos: venha, Senhor, o teu socorro; ajuda-nos e resgata-nos. Venha a êsse fim o único Libertador e Redentor do homem. — P. Scio.
26Levanta-te, Senhor, ajuda-nos: E resgata-nos por amor do teu nome.