Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 43

Salmo profético. A Igreja na extrema opressão que padece se consola com a memória dos benefícios do Senhor. E pondo-se toda nas suas mãos lhe roga humildemente que acuda logo em seu socorro.

1Ao regente do côro para instrução dos filhos de Coré.[1]Ao regente do côro, etc.Êste salmo foi composto por Davi com um espírito profético, do que haviam de padecer os macabeus, e os outros judeus na perseguição de Antíoco, ou talvez os Santos Mártires da Igreja, e os cristãos perseguidos pelo furor dos tiranos, para o que o mesmo S. Paulo se serviu do v. 14, na Ep aos Rom 8, 36. Tôdas as pessoas que se acharem em apêrto de aflição, e perseguidas, acharão neste salmo muitos motivos de confiança na consideração das misericórdias do Senhor, e de temor e humildade à vista dos rigores da sua justiça. O título fica já explicado no 41. Êste salmo foi composto durante a guerra dos sírios e amonitas. Tem seis estrofes.

2Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: Nossos pais nos anunciaram. A obra que fizeste nos dias dêles, e nos dias antigos.

3A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a êles: Afligiste os povos, e os lançaste fora:[2]E os lançaste foraDa terra da promissão. O Senhor exterminou da terra de Canaã as sete nações que a habitavam e possuíam; e passou a ela, e plantou nela, como pela sua mão aos descendentes de Israel, para que êles a gozassem, e a herdassem. — Sacy.

4Porque não foi com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou: Senão a tua destra, e o teu braço, e a luz do teu rosto: Porque te comprazeste nêles.[3]Porque não foi com a sua espada que possuíram a terra, etc.Porque ainda que a manejaram com muito valor, nunca houvera produzido aquêles efeitos maravilhosos, que excediam todo o poder humano, e eram verdadeiros milagres do poder de Deus. — P. Scio.

5Tu mesmo és o meu rei, e o meu Deus: Que dispões as salvações de Jacó.[4]Que dispões as salvações, etc.Produzidas pela tua onipotente palavra, que dá o ser, e a lei a tôdas as coisas. Sl 41, 9; 67, 29. Ou que mandas aos teus Anjos, que salvem ao povo de Jacó, ou de Israel. Mandas que sejam salvos, e os salvas; porque a ordem e mandamento de Deus sempre se cumpre. — P. Scio.

6Por ti nos esforçaremos em arruinar nossos inimigos, em teu nome desprezaremos aos que se levantam contra nós.

7Porque não esperarei no meu arco: E a minha espada não me salvará.

8Porque nos salvaste dos que nos afligiam: E confundiste aos que nos tinham aborrecimento.

9Em Deus nos gloriaremos todo o dia: E em teu nome diremos louvores eternamente.

10Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão: E tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos.

11Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos: E que fôssemos prêsa dos que nos tinham em aborrecimento.

12Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro: E nos espalhaste entre as nações.

13Vendeste o teu povo sem preço: E não houve concurso nos mercados dêles.

14Puseste-nos no opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós.

15Puseste-nos em provérbio às gentes por exemplo de irrisão nos povos.[5]Por exemplo de irrisão, etc.À letra: "por movimento de cabeça," que é gesto de escárnio, e de irrisão. 4 Rs 19, 21; Jó 16, 5; Sl 21, 8. — P. Scio.

16A minha ignomínia está todo o dia diante de mim, e a confusão do meu rosto me tem coberto.[6]E a confusão do meu rosto me tem cobertoQuer dizer: Tenho diante dos meus olhos ocasiões contínuas de confusão, que me cobrem a cara de vergonha. — Pereira.

17À voz do que me afronta, e vitupera: À vista do inimigo, e do que me persegue.

18Tôdas estas coisas vieram sôbre nós, e ainda assim nós nos não temos esquecido de ti: E não temos cometido iniquidade contra o teu pacto.

19O nosso coração não tornou atrás: Nem tu desviaste do teu caminho os nossos passos:[7]Nem tu desviaste do teu caminho, etc.A Vulgata tem et declinasti, mas está aqui, nem tu desviaste. Mas o mesmo traduziu Sacy. E a razão é: porque a negação, que precedeu no primeiro período, se deve tornar a entender no segundo; de sorte que segundo o costume da língua hebraica, o mesmo é, et declinasti, que, nec declinasti. S. Jerônimo o viu belamente, quando traduziu neste lugar: nec declinaverunt gressus nostros a semita tua: nem os nossos passos se extraviaram do teu caminho. E êste mesmo nec declinasti, nem tu desviaste, é outro hebraísmo, para se significar o mesmo que, nec declinare permisisti, nem tu permitiste que se desviassem. Ambas estas duas observações são de Bossuet. — Pereira.

20Porque tu nos humilhaste no lugar da aflição, e a sombra da morte nos cobriu.

21Se nós nos esquecemos do nome do nosso Deus, e se estendemos as nossas mãos para algum Deus estranho:

22Porventura não há de pedir Deus conta disso? porque êle conhece os segredos do coração. Pois por amor de ti somos entregues à morte cada dia: Somos reputados assim como ovelhas do matadouro.[8]Como ovelhas do matadouroIsto é, destinados ao matadouro. Êste versículo aplica S. Paulo na Ep. aos Rom 8, 36, aos Apóstolos e Mártires da primitiva Igreja. E, pode aplicar-se aos sacerdotes perseguidos a cada passo.

23Levanta-te, por que dormes, Senhor? levanta-te e não nos desampares para sempre.[9]Levanta-te por que dormes, etc.Parece que Deus em certo modo dorme, quando tarda em socorrer ao homem que padece, e se acha em miséria: mas, non dormitat, neque dormiet, qui custodit Israel. Sl 120, 4; e quando exercita com trabalhos aos seus, sabe muito bem o tempo em que os há de livrar dêles com maior glória e proveito. — P. Scio.

24Por que apartas teu rosto, te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação?

25Porquanto nossa alma está humilhada até ao pó: Pegado está com a terra o nosso ventre.[10]Pegado está com a terra o nosso ventreIsto é: Nós nos vemos reduzidos ao maior abatimento: não podemos levantar-nos por nós mesmos: venha, Senhor, o teu socorro; ajuda-nos e resgata-nos. Venha a êsse fim o único Libertador e Redentor do homem. — P. Scio.

26Levanta-te, Senhor, ajuda-nos: E resgata-nos por amor do teu nome.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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