Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 113

Salmo histórico. Grandeza de Deus na liberdade que deu ao seu povo. Vaidade dos ídolos. O Senhor é protetor dos que o temem.

Aleluia.[1]AleluiaÊste salmo resume os milagres que o Senhor operou para libertar o seu povo do jugo de Faraó. Os egípcios são designados por povo bárbaro, no sentido primitivo da palavra, antigo têrmo barbaras, análogo a balbus, o que fala uma língua estrangeira. Tem quatro estrofes, e é, no original, um modêlo de paralelismo sinonímico.

1Quando Israel saiu do Egito, a casa de Jacó do meio de um povo bárbaro:[2]Quando IsraelQUANDO ISRAEL — É muito provável que fôsse Davi o autor dêste salmo, e que o compôs com o destino de pôr à vista do povo a grandeza com que o Senhor o tirou do Egito, e introduziu na terra prometida para conhecer por êste meio a eficácia da sua proteção. Os hebreus dividem êste salmo em dois, começando o segundo pelo vers. 9 da Vulgata.

2Consagrou Deus a Judéia ao seu serviço, e estabeleceu em Israel o seu império.[3]Consagrou Deus a Judéia ao seu serviçoCONSAGROU DEUS A JUDÉIA AO SEU SERVIÇO — Em conformidade do que êle tinha prometido ao mesmo povo, estando ainda no deserto, quando lhe disse por Moisés, Êx 19, 5-6: Eritis mihi peculium de cunctis populis . . . et in regnum sacerdotale, et gens sancta. Vós sereis a minha própria e particular herança, e em vós estabelecerei eu o meu reino e o meu sacerdócio. É de advertir que no presente lugar do salmo, onde a Vulgata diz Facta est Judæa sanctificatio ejus, tem S. Jerônimo com o hebreu: Factus est Iudas in sanctificatione ejus. De onde se vê que já no tempo da saída do povo do cativeiro do Egito, era Judas, ou a sua tribo, a que denominava tôda a nação. — Pereira.

3O mar o viu, e fugiu:
E o Jordão recuou para trás.[4]O mar o viuO MAR O VIU — Quando apareceu por meio do anjo na coluna de nuvem. Tudo isto são têrmos e imagens poéticas. — Pereira. RECUOU PARA TRÁS — Quando passaram os israelitas. Jos 3, 16. — Pereira.

4Os montes saltaram de alegria como carneiros:
E as colinas como cordeiros do rebanho.

5Que tiveste tu, ó mar, que fugiste:
E tu, Jordão, para retrocederes?

6Ó montes, que saltais de prazer como carneiros, e vós colinas como cordeiros de rebanho.

7Comoveu-se a terra na presença do Senhor:
Perante o Deus de Jacó.

8Que converteu as pedras em tanques de águas, e o rochedo em fontes de águas.[5]E o rochedoE O ROCHEDO — O que aconteceu no deserto para dar água ao povo sedento, Êx 15, 25. Núm 20, 8. — Pereira.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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