Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 34

Davi perseguido de seus inimigos, não se vinga por si, mas remete a sua causa à justiça de Deus.

1Do mesmo Davi. Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem.[1]1DE DAVI — Foi escrito no tempo da perseguição a Saul. Davi implora a assistência de Deus contra os seus inimigos. Tem doze estrofes.

2Toma as tuas armas e o teu escudo: E levanta-te em meu socorro.

3Tira da espada, e conclui contra aquêles que me perseguem: Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.

4Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha alma. Voltem atrás, e sejam confundidos os que meditam contra mim.

5Sejam feitos como o pó ante a face do vento: E o Anjo do Senhor os coarcte.

6Torne-se o seu caminho em trevas e escorregadio: E o Anjo do Senhor os persiga.[2]2TORNE-SE O SEU CAMINHO EM TREVAS — Nas suas emprêsas, e obras não tenham luz alguma, nem guia de bom conselho, nem firmeza sôbre que possam subsistir. E acrescenta Santo Agostinho: as trevas são ignorância, e o escorregadio a impureza; "vaticina que lhes aconteceriam êstes males". Tudo isto pontualmente sucede à infeliz nação, que com tanta perfídia condenou a morte Jesus Cristo. — P. Scio.

7Porquanto sem razão me esconderam o seu laço da morte: Sem causa encheram de opróbrios a minha alma.

8Venha sôbre êle um laço que ignora: E a rêde que escondeu o prenda a êle: E caia no mesmo laço que êle armou.

9Mas a minha alma regozijar-se-á no Senhor: E deleitar-se-á em seu Salvador.

10Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é semelhante a ti? Que livras ao desvalido das mãos dos mais fortes que êle: Ao necessitado e ao pobre dos que o roubam.

11Levantando-se testemunhos iníquos, coisas que não sabia me perguntavam.

12Tornavam-me a mim males por bens: Esterilidade à minha alma.

13Porém eu quando me eram molestos, me vestia de cilício. Humilhava a minha alma com o jejum: E a minha oração dava voltas no meu seio.[3]3DAVA VOLTAS NO MEU SEIO — Convertetur, por convertebatur, conforme se acha em alguns Saltérios antigos. Têrmo tomado da maneira de orar dos antigos, com a cabeça inclinada. Desta oração de Jesus Cristo fala altamente o Apóstolo. Ad Heb. 5. — P. Scio.

14Como a próximo, e como a irmão nosso assim lhe comprazia: Como um que traz luto e está em tristeza assim me humilhava.[4]4COMO A PRÓXIMO — No texto hebreu lê-se: "Como por meu companheiro, como por meu irmão andava, como o que chora a sua mãe, enlutado me encurvava." — Calmet.

15E se alegraram e contra mim se ajuntaram: amontoaram-se sôbre mim açoites, e não o sabia.[5]5AMONTOARAM-SE SÔBRE MIM AÇOITES — A palavra hebraica se pode trasladar flagela e flagelantes. Diz também o hebreu: "E no meu coxear se alegraram", isto é: quando me viram derribado e caído. — P. Scio.

16Foram dissipados, e não se arrependeram, tentaram-me, insultaram-me com escárnios: Rangeram sôbre mim os seus dentes.

17Senhor, quando tornarás a olhar-me? resgata a minha alma da malignidade dêles, dos leões a única minha.

18Glorificar-te-ei na Igreja grande, no meio do povo numeroso te louvarei.[6]6NO MEIO DO POVO NUMEROSO — O hebreu tem: "Entre um povo forte, etc." — P. Scio.

19Não se regozijem sôbre mim os que me são contrários injustamente: Os que me aborrecem sem causa e acenam com os olhos.[7]7E ACENAM COM OS OLHOS — O que pode entender-se de vários modos: ou manifestando no semblante o que não tem no coração, como explica Santo Agostinho, ou para zombarem de mim, acenando com os olhos, como maquinando-me a morte, ou outro mal, e comprazendo-se nisso mesmo com os movimentos e trejeitos dos olhos. — P. Scio.

20Porque na verdade me falavam com demonstrações de paz: Mas falando na comoção da terra, maquinavam enganos.[8]8NA COMOÇÃO DA TERRA — Esta expressão, que representa a terra como enfurecida, convém ao estado, em que se achavam os inimigos de Jesus Cristo, desde que se ajuntaram em Jerusalém para lhe dar a morte, caluniando-o como a "perturbador público". — Pereira.

21E alargaram sôbre mim a sua bôca: E disseram: Bem, bem, tem visto os nossos olhos.

22Tu o tens visto, Senhor, não cales: Senhor, não te apartes de mim.

23Levanta-te e atende ao meu juízo: Deus meu, e Senhor meu, na minha causa.

24Julga-me segundo a tua justiça, Senhor Deus meu, e não se alegrem sôbre mim.

25Não digam em seus corações: Ainda bem, ainda bem, para nossa alma: Nem digam: Nós o temos devorado.

26Fiquem envergonhados, e confundidos todos juntos, os que se congratulam dos meus males. Vestidos sejam de confusão e de vergonha os que falam com orgulho sôbre mim.

27Regozijem-se e alegrem-se os que querem a minha justiça: E digam sempre: Engrandecido seja o Senhor, os que querem a paz do seu servo.

28A minha língua publicará a tua justiça, todo o dia o teu louvor.[9]9PUBLICARÁ, ETC. — À letra: Meditará; se exercitará em louvor e exaltará a tua justiça. E se entende de Cristo quando ressuscitado falou com os seus Apóstolos "do reino de Deus". At 1, 3. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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