Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 117

Salmo gratulatório. Êste salmo parece ser um diálogo, em que se considera a Davi da porta do Templo, convidando a todos a entrar nêle para dar a Deus solenes graças pelos seus benefícios, e para obter a sua bênção para o futuro.

Aleluia.[1]AleluiaAlguns expositores assentam que Davi compôs êste salmo para que se cantasse na festa dos Tabernáculos, e que contém um como diálogo entre Davi, o povo e os sacerdotes. Outros são de parecer que se cantou no ato de trasladar a Arca para o monte de Sião, e depois de haver conseguido Davi a reunião de tôdas as tribos debaixo do seu domínio e reino. Todos os Santos Padres aplicam êste salmo a Jesus Cristo e à Igreja, o que está fundado no testemunho dos apóstolos, At 6, 11 e 1 Pdr 4, 7, e ainda do mesmo Jesus Cristo. Mt 21, 42. — P. Seio.

1Louvai ao Senhor, porque êle é bom:
Porque a sua misericórdia se estende a todos os séculos.

2Diga agora Israel que o Senhor é bom:
Porque a sua misericórdia se estende a todos os séculos.

3Diga agora a casa de Aarão:
Que a sua misericórdia se estende a todos os séculos.

4Digam agora os que temem ao Senhor:
Que a sua misericórdia se estende a todos os séculos.[2]Os que temem ao SenhorOS QUE TEMEM AO SENHOR — A todos convidou Davi para que louvassem ao Senhor, porque é bom por essência, e porque nos faz bons pela comunicação da sua graça, e porque a sua misericórdia, pela qual se dignou visitar-nos, descendo do alto é objeto de eterno louvor. — Pereira.

5No meio da tribulação invoquei ao Senhor:
E me atendeu o mesmo Senhor desafrontando-me.[3]Desafrontando-meDESAFRONTANDO-ME — Tirando-me o Senhor da angústia, e do apêrto, para a liberdade.

6O Senhor é o meu amparo:
Não temerei o que me possa fazer o homem.

7O Senhor é o meu amparo:
E eu desprezarei aos meus inimigos.

8Bom é confiar no Senhor, antes que esperar no homem.[4]Bom é confiarBOM É CONFIAR — Isto é um idiotismo hebraico em lugar de melius est, melhor é, ou mais vale. — P. Seio.

9Bom é esperar no Senhor, antes que esperar nos príncipes.

10Tôdas as gentes me cercaram:
Mas eu tomei vingança delas em Nome do Senhor.[5]Tôdas as gentesTÔDAS AS GENTES — Os povos vizinhos da Palestina, os idumeus, os moabitas, os amonitas, os síros, e os filisteus que o atacaram por todos os lados, e com particularidade no princípio do seu reinado. — Pereira.

11Pondo-se à roda de mim me cercaram:
E eu tomei vingança dêles em Nome do Senhor.

12Cercaram-me como abelhas, e se incendiaram como fogo em espinhos:
E eu tomei vingança dêles em Nome do Senhor.[6]E se incendiaramE SE INCENDIARAM — Como em um enxame de irritadas abelhas, e ardendo em implacável ira, como o fogo quando se ceva nos espinhos, me tinham tomado todos os passos com desejo de me dar fim à minha vida: voltei-me outra vez ao meu Deus, invoquei-o de novo, e num instante me vi livre de todos os seus esforços. — Pereira.

13Tendo sido impedido fui transtornado para cair:
Mas o Senhor me susteve.

14O Senhor é a minha fortaleza, e o meu louvor:
E se tornou para mim em salvação.[7]E se tornou para mimE SE TORNOU PARA MIM — Êle foi só o que me salvou, e vingou de todos os meus inimigos, e a êle só lhe devo a honra e a glória de tôdas as minhas vitórias. Êste versículo é tomado do Cântico de Moisés. Êx 15, 2. — Pereira.

15Voz de júbilo e de salvação soam nas tendas dos justos.

16A destra do Senhor fêz proezas:
A destra do Senhor me exaltou, a destra do Senhor fêz proezas.

17Não morrerei mas viverei:
E referirei as obras do Senhor.

18O Senhor me deu castigo severo:
Mas não me entregou à morte.

19Abri-me as portas da justiça:
Depois de entrar por elas, louvarei ao Senhor:

20Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela:

21A ti te louvarei porque me ouviste:
E te tornaste para mim em salvação.

22A pedra, que desprezaram os edificadores:
Foi posta por cabeça do ângulo.[8]A pedra, que desprezaram os edificadoresA PEDRA, QUE DESPREZARAM OS EDIFICADORES — Dado que êste dito, ou provérbio se possa entender de Davi, que depois de reprovado por Saul, e por tôdas as doze tribos, à exceção da de Judá, veio por último a ser o Príncipe de tôdas: Jesus Cristo aplicando-o a si no Evangelho, Mt 21, 42, claramente nos ensina que o que se dissera de Davi fôra em figura do mesmo Jesus Cristo, que sendo desprezado dos judeus, e dos gentios, veio por fim a ser a pedra angular, que uniu num mesmo edifício, que é a Igreja, os mesmos dois povos, judaico e gentílico. Cfr. Mc 12, 10; Lc 20, 17; Ef 2, 20; 1 Pdr 2, 6-7.

23Pelo Senhor foi feito isto:
E é coisa admirável nos nossos olhos.

24Êste é o dia que fêz o Senhor:
Regozijemo-nos, e alegremo-nos nêle.

25Ó Senhor salva-me, ó Senhor, faze que tenha prosperidade:[9]Ó Senhor, faze que tenha prosperidadeÓ SENHOR, FAZE QUE TENHA PROSPERIDADE — Nem o hebreu, nem os Setenta, nem a Vulgata exprimem o sujeito para quem se pede a prosperidade. Sacy e de Carrières a referem para o Cristo do Senhor, vertendo assim: "Ó Senhor, faze próspero o Reino do teu Cristo." Calmet para os mesmos aclamadores, verte assim. "Ó Senhor, dá-nos um feliz sucesso". O certo é que dêste lugar é que o povo judaico tomou as festivas aclamações, com que ao entrar Jesus Cristo em Jerusalém, dizia a gritos: Hossanna filio David: benedictus qui venit in nomine Domini. (Mt 21, 9.) Hosana ao filho de Davi, bendito o que vem em Nome do Senhor. "Hosana" quer dizer "Salvação e glória". E com efeito o hebreu traz aqui "Hosana" onde o autor da Vulgata pôs salvum me fac, salva-me. — Pereira.

26Bendito o que vem em Nome do Senhor.
Nós vos bendizemos a vós que sois da casa do Senhor:

27O Senhor é Deus, e nos manifestou a sua luz.
Estabelecei dia solene com ramos frondosos, até ao ângulo do altar.

28Tu és o meu Deus, e a ti te louvarei:
Tu és o meu Deus, e a ti te exaltarei.
A ti te louvarei, porque me atendeste:
E te tornaste para mim em salvação.

29Louvai ao Senhor porque é bom:
Porque a sua misericórdia é para sempre.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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