Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 144

Salmo gratulatório. Louva-se neste salmo a bondade, e misericórdia do Senhor, que como rei soberano governa, e conserva tôdas as coisas.

1Louvor do mesmo Davi.
Eu te exaltarei, ó Deus, rei meu: E bendirei o teu nome pelo século e pelo século do século.[1]Louvor do mesmo DaviLOUVOR DO MESMO DAVI — É alfabético, e assim cada um dos versos começa por uma letra; seguindo a ordem do alfabeto hebreu, sòmente falta o versículo Nun, que devia ser o 14; porém parece certo que o houve, pois se acha nos Setenta Intérpretes, e começa fidelis Dominus, o que no hebreu corresponde ao Jahvéh. Era tão célebre, e de tanto uso êste salmo, que nos primeiros tempos da Igreja o cantavam os neófitos em ação de graças, quando eram admitidos à participação do corpo e sangue de Jesus Cristo. S. João Crisóstomo In Sl 144. O Benedicite da refeição é extraído dêste salmo.

2Cada dia te bendirei: E louvarei o teu nome pelo século, e pelo século do século.

3Grande é o Senhor, e muito digno de louvor: E a sua grandeza não tem limites.

4A geração e geração louvarão as tuas obras: E publicarão o teu poder.[2]A geração e geraçãoA GERAÇÃO E GERAÇÃO — É hebraísmo. Tôdas as gerações: a da lei velha, a da lei nova: a da vida presente, e a da vida vindoura, que não terá fim. — Pereira.

5Falarão da magnificência da glória da tua santidade: E contarão as tuas maravilhas.

6E dirão as virtudes das tuas coisas terríveis: E contarão a tua grandeza.

7Farão larguíssima memória da abundância da tua suavidade: E exultarão com a tua justiça.

8Clemente e misericordioso é o Senhor: Sofrido, e muito misericordioso.

9Suave é o Senhor para com todos: E as suas misericórdias são sôbre tôdas as suas obras.[3]E as suas misericórdiasE AS SUAS MISERICÓRDIAS — Pode também expor-se: e as suas misericórdias excedem a tôdas as suas obras, quanto aos efeitos; porque debaixo de outro respeito todos os atributos de Deus são igualmente grandes. — S. Gregório Nazianzeno.

10Dêem-te glória a ti, Senhor, tôdas as tuas obras: E os teus santos te bendigam.

11A glória do teu reino publicarão: E o teu poder celebrarão.

12Para fazerem conhecer aos filhos dos homens o teu poder: E a glória da magnificência do teu reino.

13O teu reino que se estende a todos os séculos: E o teu império a tôda a geração e geração.
Fiel é o Senhor em tôdas as suas palavras: E santo em tôdas as suas obras.

14O Senhor sustém a todos os que estão para cair: E levanta a todos os oprimidos.

15Os olhos de todos esperam em ti, Senhor: E tu lhe dás o sustento em tempo oportuno.[4]Os olhos de todosOS OLHOS DE TODOS — A palavra omnium se estende a todos os gêneros; porque Deus não sòmente provê a seu tempo de alimento ao homem, senão também aos animais, plantas... A Igreja aplica esta palavra àquela celestial comida própria dos fiéis, porque é a divina Eucaristia. — Pereira.

16Tu abres a tua mão: E enches a todo o animal de bênção.

17Justo é o Senhor em todos os seus caminhos: E santo em tôdas as suas obras.

18Perto está o Senhor de todos os que o invocam: De todos os que o invocam em verdade.[5]O invocam em verdadeO INVOCAM EM VERDADE — Invocam-no em verdade os que o buscam a êle, e não se buscam a si mesmos. Porém se tu és ditoso porque Deus te tem dado tantas coisas, quanto mais ditoso serás, visto que a si mesmo se tem dado? — Santo Agostinho.

19Êle cumprirá a vontade dos que o temem, e atenderá a sua oração: E os salvará.

20O Senhor guarda a todos que o amam: E exterminará a todos os pecadores.

21A minha bôca publicará o louvor do Senhor: E bendiga tôda a carne o seu santo nome, pelo século, e pelo século do século.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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