Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

Salmo de louvor, e de exortação. A formosura, e ordem dos céus, e a imutabilidade da lei são uns pregoeiros da sabedoria de Deus.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de DaviO objeto dêste salmo é: 1.º a manifestação da glória de Deus pelo esplendor das coisas criadas na ordem natural; 2.º pela beleza de sua lei na ordem moral. Compreende dez estrofes. — Primeira parte 1.ª Est. (2-3) Os Céus celebram a glória de Deus; 2.ª (4-6) O som da palavra, conquanto não seja articulada, repercute-se nas extremidades da terra; 3.ª (6-7) O sol dardeja os seus raios dum extremo a outro do orbe, e nada escapa ao seu calor. Segunda parte 4.ª (8) Perfeição de Deus; 5.ª (9) As suas ordens alegram o coração e brilham aos olhos dos homens; 6.ª (10) Subsiste sempre o seu temor; os seus juízos são verdadeiros e justos; 7.ª (11) Mais preciosos do que o ouro, mais doces do que o mel; 8.ª (12-13) Teu servo é esclarecido por êsses juízos; 9.ª (14) Pede que o livre das faltas que desconhece, que estas o não dominem, para que seja sem mancha; 10.ª (15) E que sejam agradáveis a Deus as suas palavras, que os seus pensamentos cheguem à presença de Deus, seu apoio e seu redentor. Juntamente com uma notável elevação de estilo, há neste salmo uma grande filosofia. O profeta rei, depois de deduzir a verdade da existência de Deus, da contemplação das obras da natureza, e de admirar o poder do Criador refletindo sôbre a ordem admirável do Universo, reconhece que ela só pode proceder de um ente infinitamente sábio. Algumas passagens dêste Salmo aplicam-se, no sentido espiritual, à pregação dos apóstolos.

2Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.

3Um dia diz uma palavra a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

4Não há linguagem, nem fala, por quem não sejam entendidas as suas vozes.

5O seu som se estendeu por tôda a terra: E as suas palavras até as extremidades do mundo.[2]O seu som se espalhouS. Paulo, ad Rom 10, 18, refere êste verso à pregação dos apóstolos, e mais ministros evangélicos, mas, como ficou dito, no sentido espiritual.

6No sol pôs o seu tabernáculo: E êle como espôso que sai do seu tálamo: Deu saltos como gigante para correr o caminho,

7a sua saída é desde uma extremidade dêle: E não há quem se esconda do seu calor.

8A lei do Senhor que é imaculada converte as almas: O testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos pequeninos.

9As justiças do Senhor são retas, que alegram os corações: O preceito do Senhor é claro, que esclarece os olhos.

10O temor do Senhor é santo, que permanece por séculos: Os juízos do Senhor são verdadeiros, cheios de justiça em si mesmos.

11Êles são mais para desejar do que o muito ouro e as muitas pedras preciosas: E são mais doces do que o mel e o favo.[3]Do que o muito ouroO hebreu tem: "E mais que uma grande quantidade de finíssimo ouro:" a palavra hebraica, que se traslada comumente obrizum, a entende Calmet, no Gên 2, 11, de Phasis, de onde naqueles tempos, assim como da Cólquida, se tirava o ouro. O multum do texto não é advérbio, mas adjetivo, que deve unir-se com os substantivos, como claramente se vê nos Setenta, e no hebreu. — P. Scio.

12Pelo que o teu servo os guarda, e em os guardar há grande recompensa.

13Quem é que conhece os seus delitos? purifica-me dos que me são ocultos:

14E perdoa ao teu servo os alheios. Se êles se não senhorearem de mim, serei eu imaculado: E serei purificado do delito máximo.[4]E perdoa ao teu servo os alheiosIsto é, os delitos dos outros, em que eu de qualquer modo tenha parte. Ou dos delitos, que eu cometa por indução dos outros. Assim entende Santo Agostinho, e com êle Bossuet, o que a Vulgata diz, et ab alienis parce servo tuo. Contudo o hebreu, segundo o expõe Le Gros seguindo a S. Jerônimo, tem: "E preserva ao teu servo das impressões da soberba." Delito máximo — Referência ao pecado de Adão, que abrangeu o mundo inteiro, e exigiu, para ser perdoado, o sacrifício do homem Deus.

15Então as palavras de minha bôca te serão agradáveis: E a meditação do meu coração será sempre na tua presença. Senhor, favorecedor meu, e Redentor meu.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original