Capítulo 18
1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de Davi — O objeto dêste salmo é: 1.º a manifestação da glória de Deus pelo esplendor das coisas criadas na ordem natural; 2.º pela beleza de sua lei na ordem moral. Compreende dez estrofes. — Primeira parte 1.ª Est. (2-3) Os Céus celebram a glória de Deus; 2.ª (4-6) O som da palavra, conquanto não seja articulada, repercute-se nas extremidades da terra; 3.ª (6-7) O sol dardeja os seus raios dum extremo a outro do orbe, e nada escapa ao seu calor. Segunda parte 4.ª (8) Perfeição de Deus; 5.ª (9) As suas ordens alegram o coração e brilham aos olhos dos homens; 6.ª (10) Subsiste sempre o seu temor; os seus juízos são verdadeiros e justos; 7.ª (11) Mais preciosos do que o ouro, mais doces do que o mel; 8.ª (12-13) Teu servo é esclarecido por êsses juízos; 9.ª (14) Pede que o livre das faltas que desconhece, que estas o não dominem, para que seja sem mancha; 10.ª (15) E que sejam agradáveis a Deus as suas palavras, que os seus pensamentos cheguem à presença de Deus, seu apoio e seu redentor. Juntamente com uma notável elevação de estilo, há neste salmo uma grande filosofia. O profeta rei, depois de deduzir a verdade da existência de Deus, da contemplação das obras da natureza, e de admirar o poder do Criador refletindo sôbre a ordem admirável do Universo, reconhece que ela só pode proceder de um ente infinitamente sábio. Algumas passagens dêste Salmo aplicam-se, no sentido espiritual, à pregação dos apóstolos.
2Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
3Um dia diz uma palavra a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
4Não há linguagem, nem fala, por quem não sejam entendidas as suas vozes.
5O seu som se estendeu por tôda a terra: E as suas palavras até as extremidades do mundo.[2]O seu som se espalhou — S. Paulo, ad Rom 10, 18, refere êste verso à pregação dos apóstolos, e mais ministros evangélicos, mas, como ficou dito, no sentido espiritual.
6No sol pôs o seu tabernáculo: E êle como espôso que sai do seu tálamo: Deu saltos como gigante para correr o caminho,
7a sua saída é desde uma extremidade dêle: E não há quem se esconda do seu calor.
8A lei do Senhor que é imaculada converte as almas: O testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos pequeninos.
9As justiças do Senhor são retas, que alegram os corações: O preceito do Senhor é claro, que esclarece os olhos.
10O temor do Senhor é santo, que permanece por séculos: Os juízos do Senhor são verdadeiros, cheios de justiça em si mesmos.
11Êles são mais para desejar do que o muito ouro e as muitas pedras preciosas: E são mais doces do que o mel e o favo.[3]Do que o muito ouro — O hebreu tem: "E mais que uma grande quantidade de finíssimo ouro:" a palavra hebraica, que se traslada comumente obrizum, a entende Calmet, no Gên 2, 11, de Phasis, de onde naqueles tempos, assim como da Cólquida, se tirava o ouro. O multum do texto não é advérbio, mas adjetivo, que deve unir-se com os substantivos, como claramente se vê nos Setenta, e no hebreu. — P. Scio.
12Pelo que o teu servo os guarda, e em os guardar há grande recompensa.
13Quem é que conhece os seus delitos? purifica-me dos que me são ocultos:
14E perdoa ao teu servo os alheios. Se êles se não senhorearem de mim, serei eu imaculado: E serei purificado do delito máximo.[4]E perdoa ao teu servo os alheios — Isto é, os delitos dos outros, em que eu de qualquer modo tenha parte. Ou dos delitos, que eu cometa por indução dos outros. Assim entende Santo Agostinho, e com êle Bossuet, o que a Vulgata diz, et ab alienis parce servo tuo. Contudo o hebreu, segundo o expõe Le Gros seguindo a S. Jerônimo, tem: "E preserva ao teu servo das impressões da soberba." Delito máximo — Referência ao pecado de Adão, que abrangeu o mundo inteiro, e exigiu, para ser perdoado, o sacrifício do homem Deus.
15Então as palavras de minha bôca te serão agradáveis: E a meditação do meu coração será sempre na tua presença. Senhor, favorecedor meu, e Redentor meu.