Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 115

Salmo de ação de graças em que Davi se mostra agradecido ao Senhor pelos seus benefícios e espera com inteira confiança ver cumpridas tôdas as promessas que lhe havia feito o mesmo Senhor.

Aleluia.[1]AleluiaÊste salmo é a continuação do anterior; como foi dito no original não está dividido; na Vulgata segue a numeração do salmo anterior, e assim fazem as mais autorizadas edições. Glaire, ob. cit.

10Acreditei, por isso falei:
Mas eu estive na última humilhação.

11Eu disse no meu êxtase:
Todo homem é mentiroso.[2]No meu êxtaseNO MEU ÊXTASE — O que a Vulgata diz, in excessu meo pode admitir diversos sentidos, por causa da ambiguidade da palavra excessu. Sacy e Carrières vertem na minha fugida. Eu preferi com Calmet, "no meu êxtase," porque assim verteram do hebreu os Setenta, com os quais concordaram depois Áquila, Teodoclão, e S. Jerônimo, que todos os três dizem aqui. In stupore meo: isto é, no meu pasmo, ou no meu transporte de espírito. O mesmo preferiu Bossuet. — Pereira.

12Que darei em retribuição ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?

13Tomarei o cálice da salvação:
E invocarei o Nome do Senhor.[3]Tomarei o cáliceTOMAREI O CÁLICE — Alusão ao vinho que, segundo a lei mosaica, se espalhava sôbre as vítimas gratulatórias. Êx 29, 40; Núm 15, 5, ou segundo os Padres o cálice da Paixão de Cristo. Kimchi dá-lhe o nome de Poculum gratiorum actionis pois que, na festa da Páscoa, o terceiro dos quatro copos que os hebreus bebiam era chamado o copo da bênção ou da ação de graças.

14Cumprirei os meus votos ao Senhor:
Diante de todo o povo:

15É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos.[4]É preciosa aos olhos do SenhorÉ PRECIOSA AOS OLHOS DO SENHOR — Se na presença do Senhor é preciosa a morte dos seus Santos, devem para nós ser dignas de veneração as relíquias e os monumentos dos mártires de Cristo. Dêste lugar o coligem os teólogos com os Santos Padres. — Pereira.

16Ó Senhor, porque sou teu servo:
Eu sou teu servo, e filho da tua escrava.
Rompeste os meus laços:

17E a ti oferecerei sacrifício de louvor, e invocarei o Nome do Senhor.

18Cumprirei os meus votos ao Senhor à vista de todo o povo:

19Nos átrios da casa do Senhor, no meio de ti, ó Jerusalém.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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