Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 76

Salmo deprecatório. A alma se recreia santamente lembrando-se das obras maravilhosas do Senhor.

1Ao regente do côro, para Iditum, salmo de Asaf.[1]IditumIDITUM — É provàvelmente o mesmo que o Idithum do 1.° livro dos Par 16, 41. É impossível determinar em que circunstâncias foi composto êste salmo; pode porém conjecturar-se que é coevo da ruína do reino das dez tribos. Tem seis estrofes. As duas primeiras são como que o exórdio e exprimem um sentimento de tristeza e angústia causado pelos males da nação. As três seguintes pedem o socorro de Deus, o Eterno libertador de Israel. E há aqui uma bela descrição da passagem do Mar Vermelho, com o fim de mostrar como na história do povo de Deus há exemplos da proteção divina, que alentam ainda hoje as nações mais oprimidas pelas desgraças. Reus, Le Psautier, 1875.

2Com a minha voz clamei ao Senhor: Levantei a minha voz a Deus, e êle me atendeu.

3No dia da minha tribulação busquei a Deus, estendi as minhas mãos de noite para êle: E não fiquei defraudado.
Recusou consolar a minha alma.[2]Recusou consolarRECUSOU CONSOLAR — No meio do meu cativeiro, esmagado pela dor, não pude encontrar consolação alguma.

4Lembrei-me de Deus, e me deleitei, e me exercitei: E desmaiou o meu espírito.

5Adiantaram-se às vigílias os meus olhos: Fiquei perturbado, e não falei.

6Pensei nos dias antigos: E tive na mente os anos eternos.

7E meditei de noite no meu coração, e me exercitava, e purificava o meu espírito.[3]E me exercitavaE ME EXERCITAVA — No hebreu está: "Foi perscrutado o meu espírito", mas já S. Jerônimo traduziu na primeira pessoa, Scrutabar. O sentido porém é, no entender de muitos e autorizados exegetas, êste: — Inquiriu o que se passava em meu espírito; tentava conhecer os meus pensamentos íntimos. Sensu omnes conveniunt: inquirebat animus meus, excutiebam ipse me, perspicere intima mea conabar. Weitenauer, Lexicon Biblicum, 1866.

8Porventura nos desamparará Deus para sempre: E não se mostrará ainda inclinado a aplacar-se?

9Ou cortará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração?

10Ou se esquecerá Deus de usar clemência? Ou demorará com a sua ira as suas misericórdias?

11E disse: Agora começo! Esta mudança vem da destra do Altíssimo.

12Lembrei-me das obras do Senhor: Porque me lembrei das tuas maravilhas desde o princípio.

13E meditarei em tôdas as tuas obras: E considerarei em todos os teus conselhos.

14O teu caminho, ó Deus, é em santidade: Que Deus há grande como o nosso Deus?

15Tu és o Deus que obras maravilhas.
Fizeste conhecer nos povos o teu poder:

16Redimiste com teu braço ao teu povo, aos filhos de Jacó e de José.

17Viram-te as águas, ó Deus, viram-te as águas: E temeram, e foram turbados os abismos.[4]Viram-te as águasVIRAM-TE AS ÁGUAS — Alude às do Mar Vermelho.

18Com grandíssimo estrondo caíram as águas: As nuvens fizeram soar a voz.
Porque as tuas setas traspassam os ares:[5]Os aresOS ARES — É uma adição de Glaire, para esclarecer o sentido, visto que a frase "as setas de Deus" significa os raios e os relâmpagos. La Sainte Bible.

19A voz do teu trovão fuzilou sôbre as rodas.
Fulguraram os teus relâmpagos pela redondeza da terra: Estremeceu e tremeu a terra.

20No mar abriste o teu caminho, e os teus atalhos no meio das muitas águas: E não serão conhecidos os teus vestígios.

21Conduziste o teu povo como ovelhas, pela mão de Moisés e de Aarão.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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