Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Salmo didático. Davi neste Salmo, contemplando ao Senhor justo defensor da inocência, e severo juiz dos que violentamente a perseguem, põe êle toda a sua confiança contra o temor que lhe podiam causar os artifícios de seus inimigos.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de DaviO objeto dêste Salmo é — recusar-se a fugir ao perigo que ameaça a sua vida, porque tem tôda a confiança em Deus. Compreende duas estrofes de oito e nove versos. A 1.ª (2-4) mostra-nos os amigos de Davi aconselhando-o a que fuja na hora do perigo; na 2.ª (5-8) responde-lhes que a sua consciência está tranquila, que confia em Deus e na sua justiça.

2No Senhor confio: Por que dizeis à minha alma: Foge para o monte como pássaro?

3Porque eis-aí os pecadores estenderam o seu arco, prepararam as suas setas na aljava, para as dispararem na obscuridade contra os que são de coração reto.

4Por que destruíram o que tu tinhas acabado: E que fêz o justo?[2]Por que destruíramA versão de S. Jerônimo diz com mais individuação: Quia leges dissipatæ sunt: Porque as leis foram dissipadas. E pelo que a Vulgata acrescenta no pretérito, justus autem quid fecit; verte Le Gros com Bossuet no futuro: Que fará, ou que poderá fazer o justo? a saber, onde não há leis nenhumas. — Pereira.

5O Senhor habita no seu templo, o trono do Senhor é no Céu. Os seus olhos olham para o pobre: As suas pálpebras fazem perguntas aos filhos dos homens.

6O Senhor faz perguntas ao justo e ao ímpio: Aquêle porém que ama a iniqüidade, aborrece a sua alma.

7Fará chover laços sôbre os pecadores: O fogo, e o enxofre, e as tempestades são a parte que lhes toca.[3]São a parte que lhes tocaTraduzindo à letra, pars calicis eorum, diríamos: São a parte do seu cálice. E a metáfora foi tirada ou do cálice de onde se extraíam as sortes, ou do cálice que nos banquetes servia de medida do que cada um havia de beber. — Pereira.

8Porque o Senhor é justo, e êle amou a justiça: O seu rosto olha para a eqüidade.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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