Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 47

Salmo gratulatório. O profeta exalta o poder e misericórdia do Senhor, que resplandece na defensa, e conservação milagrosa da sua Igreja, à qual enchem de glória os esforços inúteis dos seus mesmos inimigos. São convidados todos os povos para que venham a contemplar a sua fortaleza, e magnificência espiritual.

1Salmo. Cântico dos filhos de Coré no segundo dia da semana.[1]No segundo dia da semanaEstas palavras foram adicionadas pela Vulgata. Foi composto na libertação de Jerusalém depois da libertação de Facéias, rei de Israel, e Razin, rei da Síria. 4 Rs 16, 5. Tem cinco estrofes irregulares. Primeira (2-3) Glorifica o Senhor pela beleza da cidade santa. Segunda (4-8) Descreve ràpidamente o exército disperso, como uma nau despedaçada pela tempestade. Terceira (9) Compara os acontecimentos de então aos antigos milagres. Quarta (10-12) É uma ação de graças. Quinta (13-15) Descreve a fôrça de Jerusalém pela bondade de Deus.

2Grande é o Senhor, e muito digno de louvor na cidade de nosso Deus, no seu monte santo.

3Fundado é com júbilo de tôda a terra o monte de Sião, os lados do Aquilão, cidade do rei grande.[2]Fundado é com júbiloTambém isto pode convir ao restabelecimento do Templo no meio dos gritos de alegria, e júbilo de todo o povo. 1 Esdr 3, 2. O hebreu tem: "de formosa situação, gôzo de tôda a terra é o monte de Sião: os lados do Aquilão, a cidade do grande rei". A situação formosa não tanto convinha a Jerusalém pelas bênçãos temporais, pelas quais foi chamada a rainha do Oriente, quanto pelas espirituais da presença de Deus, do estabelecimento do seu culto, e a promessa de que nela havia de cumprir o Messias a obra de redenção, que havia de encher de inefável gôzo a tôda a terra. "Os lados do Aquilão": assim era chamada a parte setentrional da cidade de Jerusalém, onde estava o monte Moriá, e sôbre êle fabricado o Templo em frente do monte Sião, que estava para a parte do meio-dia. "A cidade do rei grande", que Deus tem escolhido para a fazer como côrte sua; aonde acudiu todo o seu povo a receber as suas ordens, e a oferecer-lhe sacrifícios e homenagens. — Calmet.

4Conhecido será Deus nas casas dela, quando houver de as proteger.

5Porque eis-aqui os reis da terra se congregaram: Se conjuraram unânimemente contra ela.

6Êles quando a viram se admiraram, se conturbaram, foram comovidos:

7Tremor se apoderou dêles. Ali sentiram dores como mulher que está de parto,

8com vento impetuoso quebrarás as naus de Tarsis.[3]Quebrarás as nausDissiparás todos os grandes aparatos, e armamentos dos homens contra a tua cidade. Naves Tharsis, eram aquelas naus grandes com que os de Tarso, e os fenícios costumavam fazer largas viagens por mar; e os hebreus aplicaram depois êste nome a todos os navios, ainda que fôssem de outra nação, que tinham o mesmo uso. Outros o dizem das naus do Mediterrâneo: e outros em geral do mar. Veja-se 3 Rs 10, 22. — P. Scio.

9Como o ouvimos, assim o vimos na cidade do Senhor das virtudes, na cidade do nosso Deus: Deus a fundou para sempre.

10Recebemos, ó Deus, a tua misericórdia: No meio do teu templo.

11Segundo o teu nome, ó Deus, assim também o teu louvor se estende até aos fins da terra: De justiça está cheia a tua destra.

12Alegre-se o monte de Sião, e regozijem-se as filhas de Judá, pelos teus juízos, Senhor.[4]As filhas de JudáAs cidades da tribo de Judá, chamadas filhas em atenção a Jerusalém que era a metrópole.

13Dai voltas a Sião, e considerai-a ao redor: Contai as torres dela.[5]Dai voltas a SiãoO hebreu tem: "Rodeai a Sião, e cercai-a: contai as suas tôrres." É uma representação poética, na qual o mundo é convidado a considerar a fôrça inexpugnável, e a magnificência da Igreja por virtude da presença de Deus: ao modo que aos forasteiros se mostram as singularidades e fortalezas de uma cidade, para que levem ao longe a notícia das suas excelências.

14Aplicai-vos a considerar a fôrça dela: E fazei resenha das suas casas, para que o conteis em outra geração.

15Porque êste é Deus, Deus nosso para sempre, e pelo século do século: Êle nos governará pelos séculos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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