Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 129

Salmo deprecatório. O povo submergido no abismo de seus males confessa os seus pecados. E implora a divina misericórdia.

1Cântico gradual.
Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor:[1]Cântico gradual / Desde o mais profundoEste salmo é o 6.º dos penitenciais usado na liturgia católica para sufragar os mortos. Tem quatro estrofes. Primeira (1-2). Invocação à misericórdia de Deus. Segunda (3-4). Porque diante da sua justiça ninguém poderá subsistir. Terceira (5-6). Confiança no Senhor. Quarta (7-8). Porque Deus é infinitamente misericordioso. A propósito dêste salmo escreve Olivier: Ce chant extraordinaire, que chacun de nous a répété sur sa propre douleur, fut d'abord l'explosion d'un pathétique tellement expressif que, n'ayant ni auparavant ni depuis rien entendu de comparable, l'Église en a fait la lamentation liturgique des adieux suprêmes. Emile Olivier, Discours pour sa réception à l'Académie française, 5 mars 1874. — DESDE O MAIS PROFUNDO — Dos juízos impenetráveis do Senhor, cuja consideração só me espanta. Desde o mais profundo dos males presentes, em que estou abismado. Desde o mais profundo, isto é: desde o mais íntimo e recôndito do meu coração. A vós, meu Deus, dirijo os meus clamores, e encaminho os meus mais ardentes gemidos: socorrei-me e tende piedade de um miserável.

2Senhor, ouve a minha voz: Estejam atentos os teus ouvidos à voz da minha deprecação.

3Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?

4Mas em ti se acha a propiciação: E pela tua lei pus em ti, Senhor, a minha confiança. A minha alma está confiada na sua palavra:[2]Tua leiTUA LEI — Isto é, por causa das promessas da tua lei.

5A minha alma esperou no Senhor.

6Desde a vigília da manhã até à noite: Espere Israel no Senhor.

7Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção.

8E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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