Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 86

Das excelências de Jerusalém. Figura da cidade de Deus, ou da Igreja de Cristo.

1Salmo dos filhos de Coré. Cântico.
Os fundamentos dela estão sôbre os montes Santos:

2Ama o Senhor as portas de Sião sôbre todos os Tabernáculos de Jacó.[1]As portas de SiãoAS PORTAS DE SIÃO — Por uma figura muito frequente no estilo bíblico, tomam-se por tôda a cidade de Sião. A montanha de Sião devia passar com Davi à posteridade. Por mais árido que fôsse, dali deviam brotar as torrentes de ensino, que iam saciar as almas sequiosas de verdade. Cfr. Herder, Histoire de la poésie hébraïque, trad. por Carlwitz.

3Coisas gloriosas se têm dito de ti, ó cidade de Deus.

4Lembrar-me-ei de Raab, e de Babilónia, que me conhecem.
Eis-aqui os estrangeiros, e Tiro, e o povo dos etíopes, êstes estiveram ali.

5Porventura não se dirá a Sião: Homem e homem nasceu nela: E o mesmo Altíssimo a fundou?[2]Homem e homemHOMEM E HOMEM — Uma grande multidão de homens.

6O Senhor nas descrições dos povos, e dos príncipes dirá o número daqueles que estiverem nela.

7Alegram-se todos os que habitam em ti.[3]Os que habitamOS QUE HABITAM — Êste último verso é muito difícil de traduzir: servindo-nos da analogia de Is 12, 3, traduzimos má eynim por fontes, e então segundo o original traduzir-se-ia como atrás ficou apontado "Tu és a fonte de tôdas as nossas alegrias." Na tradução seguimos Boulleret.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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