Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Salmo impetrativo e didático. Pede Davi a Deus que se digne de ouvir os seus contínuos rogos, e que pois aborrece a iniquidade, lhe dê asilo na sua graça, e destrua a seus inimigos e perseguidores, para que à vista disto se alegre a sua Igreja, e tome matéria para louvá-lo.

1Ao regente do côro com acompanhamento de flauta. Salmo de Davi.[1]Com acompanhamento de flautaAssim traduzimos o hebreu el-han-nekhiloth, que a Vulgata traduziu por quæ hereditatem consequitur, e o padre Pereira 'que consegue a herança'. Estas palavras do título deram ocasião a comentários variados; hoje porém é assente que nekhiloth designa a flauta, e que êste título indica que o salmo devia ser acompanhado com êste instrumento. Os Setenta e depois a Vulgata entenderam esta frase relativa ao povo de Israel, que é a herança de Deus. É evidentemente uma oração da manhã, que Davi recitaria antes de ir à casa de Deus por ocasião de algumas perseguições mencionadas no salmo antecedente. Tem quatro estrofes de seis versos. 1.ª estrofe (2 a 5). Davi invoca o Senhor desde o amanhecer, e roga a Deus ouça a sua prece. — 2.ª (5 a 7). Confia na bondade infinita de Deus. — 3.ª (8 a 11). Vai cheio de confiança ao Tabernáculo pedir socorro contra os maus. — 4.ª (11 a 13). Pede a condenação daqueles para alegria dos justos.

2Senhor, dá ouvidos às minhas palavras, escuta o meu clamor.

3Atende à voz da minha súplica, rei meu e Deus meu.

4Porque a ti orarei: De manhã, Senhor, ouvirás a minha voz.

5Ao despontar do dia me coloco na tua presença e te verei: Porque tu, Deus, não queres a iniquidade.

6Não habitará ao pé de ti o maligno: Nem os injustos permanecerão diante de teus olhos.

7Aborreces a todos os que obram a iniquidade: Perderás a todos os que preferem a mentira. O Senhor abominará o varão sanguinário e doloso:

8Eu porém, confiado na multidão da tua misericórdia, entrarei na tua casa, e cheio de temor teu te adorarei no teu santo templo.

9Senhor, guia-me na tua justiça: Dirige diante de teus olhos o meu caminho, por causa de meus inimigos.

10Porque na bôca dêles não há verdade: O seu coração é vão.

11A sua garganta é um sepulcro aberto, com as suas línguas urdiram enganos, tu, Deus, os julgas. Caiam de seus pensamentos, lança-os segundo a multidão das suas impiedades, porque te irritaram, Senhor.

12E alegrem-se todos aquêles que esperam em ti: exultarão eternamente: E tu habitarás nêles, E em ti se gloriarão todos os que amam o teu nome,

13porque tu abençoarás o justo. Senhor, de tua boa vontade nos coroaste, como com escudo.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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