Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 108

Salmo deprecatório: Davi pede ao Senhor socorro contra as calúnias e perfídia de seus perseguidores. Vaticina a perdição dêles.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Êste salmoÊste salmo foi provàvelmente composto durante a revolta de Absalão, e aplica-se aos inimigos de Davi, especialmente a Daëgon ou Aquitofel, o mais encarniçado de todos, e figura de Judas, o traidor, a quem S. Pedro aplicou o vers. 8. At 1, 20; Jo 17, 12. Tem seis estrofes. Primeira (2-5). Mal que lhe fazem os maus, que assim pagam os benefícios recebidos. Segunda (6-8). Que Deus os castigue. Terceira (11-15). Em sua fortuna, posteridade e memória. Quarta (16-20). Por causa das suas iniqüidades. Quinta (21-25). Que o Senhor tenha piedade do salmista aflito e doente. Sexta (26-31). Que o Senhor o livre dos seus inimigos, o que saberá agradecer.

2Ó Deus, não cales o meu louvor: Porque a bôca do pecador, e a bôca do traidor se abriu contra mim.

3Falaram contra mim com línguas aleivosas, e com palavras de ódio me cercaram: E sem causa me têm feito guerra.

4Em vez de amar-me, diziam mal de mim: Mas eu orava.

5E tornaram contra mim males por bens: E ódio em câmbio do amor que lhes tinha.

6Põem sôbre êle ao pecador: E o diabo esteja à sua direita.[2]Sôbre êleSÔBRE ÊLE — Êste singular que o salmista emprega neste versículo e nos seguintes, até ao 19 inclusive, significa cada um dêles, isto é, cada um dos seus inimigos, de quem êle depois fala no plural. Entretanto, hábeis intérpretes entendem que Davi designa especialmente por êste singular Doëg, o idumeu (1 Rs 21, 7) ou Aquitofel, o gilonita, um dos conselheiros de Davi, que tomou parte na conspiração de Absalão, 2 Rs 15, 12-31.

7Quando fôr julgado, saia condenado: E a sua oração se lhe impute a pecado.

8Sejam abreviados os seus dias: E receba outro o seu bispado.[3]O seu bispadoO SEU BISPADO — No hebreu se lê um têrmo geral que significa ministério, ofício, prefeitura, dignidade que exige inspeção. S. Pedro aplicou a Judas êste versículo.

9Fiquem seus filhos órfãos: E sua mulher viúva.

10Prófugos andem de um lugar para outro seus filhos, e mendiguem: E sejam lançados fora das suas habitações.

11O usurário dê caça a todos os seus bens: E os estranhos roubem o fruto dos seus trabalhos.

12Não tenha quem o ajude: Nem haja quem se compadeça dos seus órfãos.

13Sejam seus filhos para extermínio: Em uma só geração fique apagado o seu nome.

14A inqüidade de seus pais reviva na presença do Senhor ocorrendo à sua lembrança: E o pecado de sua mãe não seja apagado.[4]A iniquidade de seus paisA INIQUIDADE DE SEUS PAIS — A memória dos delitos do pai irrite a cólera de Deus contra o filho delinquente, e venha sôbre êle a sua indignação pelos excessos da mãe. — P. Scio.

15Estejam sempre diante do Senhor, e seja riscada da terra a memória dêles.[5]Estejam sempre diante do SenhorESTEJAM SEMPRE DIANTE DO SENHOR — Fiant, deve subentender-se crimina. As maldades dêstes não se apartem jamais da presença do Senhor, que despertem a sua justiça contra os filhos de um pai que fechou as suas entranhas à misericórdia.

16Porquanto se não lembrou de usar de misericórdia.

17E perseguiu ao homem sem amparo, e ao mendigo, e ao quebrantado de coração para o entregar à morte.

18E como amou a maldição, ela lhe virá: E como não quis a bênção ela se apartará dêle.
E vestiu-se de maldição como dum vestido, e entrou como água nas suas entranhas, e como azeite nos seus ossos.

19Seja-lhe como o vestido, com que se cobre: E como a cinta, com que sempre se cinge.

20Esta é diante do Senhor a obra daqueles que dizem mal de mim: E que falam males contra a minha alma.

21E tu, Senhor, Senhor, toma à tua conta a minha defensa por amor de teu Nome: Porque suave é a tua misericórdia.
Livra-me.

22Porque eu sou necessitado, e pobre: E o meu coração está turbado dentro de mim.[6]E o meu coraçãoE O MEU CORAÇÃO — O Senhor disse por S. João, 12, 27: "E agora a minha alma está turbada". — Pereira.

23Tenho desaparecido, como a sombra que vai caindo: E tenho sido arrojado como os gafanhotos.

24Os meus joelhos se têm debilitado pelo jejum: E minha carne se tem mudado pelo azeite.

25E eu tenho chegado a ser o opróbrio dêles: Viram-me e menearam as suas cabeças.

26Assiste-me, Senhor Deus meu: Salva-me segundo a tua misericórdia.

27E saibam que isto é um golpe da tua mão: E que tu, Senhor, tens feito estas coisas.

28Êles me amaldiçoarão, e tu me abençoarás: Confundidos sejam os que se levantam contra mim: Mas o teu servo se alegrará.

29Vestidos sejam de afronta os que me caluniam: E fiquem cobertos da sua confusão como de uma capa dobrada.

30Glorificarei altamente ao Senhor com a minha bôca: E no meio de muitos o louvarei.

31Porque se pôs à direita do pobre, para salvar a minha alma dos perseguidores.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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