Capítulo 55
Ao regente do côro. Yonath élem rekhoquim.[1]YONATH ÉLEM REKHOQUIM — Estas palavras não são fàcilmente traduzíveis, porque se ignora o seu verdadeiro sentido. A Vulgata traduziu Pro populo, quia a Santis longe factus est, e o P. Pereira em português, Pelo povo, que se achava longe dos santos: mas o que tem o inconveniente de não corresponder ao original. A letra estas expressões querem dizer: a pomba muda de longe, o que não se compreende; parece, porém, que era com a música dum canto que tinha esta letra, que se devia entoar êste salmo, e então traduzem êste obscuro título desta forma: "Ao regente do côro; para ser cantado com a ária da pomba muda longínqua". Tem quatro estrofes.
1Davi pôs esta inscrição por título, quando os filisteus o detiveram em Get. (1 Rs 20, 12.)[2]FILISTEUS — Na Vulgata está Allophylo o têrmo grego empregado pelos Setenta, que o P. Pereira traduziu por Estrangeiros, mas é sabido que era esta a denominação com que naquela versão eram indicados os filisteus. Cfr. 1 Rs 21, 12.
2Tem misericórdia de mim, ó Deus, porque me atropelou o homem, angustiou-me combatendo todo o dia contra mim.
3Pisaram-me os meus inimigos todo o dia: Porque são muitos os que pelejam contra mim.
4Na altura do dia temerei: Mas eu em ti esperarei.[3]NA ALTURA DO DIA — Ou no meio-dia. Parece que o sentido é que temia a luz do dia por não ser descoberto, sendo tantos os que iam em seu seguimento; mas que pondo em Deus a sua confiança, nada tinha que temer, ainda que se visse cercado de inimigos na maior claridade, ou luz do dia, que é quando o sol está mais alto. Outros o explicam de outros modos. O hebreu diz: "Porque são muitos os que pelejam contra mim, ó alto, ó Deus Altíssimo, de dia te temerei: eu em ti confiarei." — P. Scio.
5Em Deus louvarei as palavras que me tem dado, em Deus tenho esperado: Não temerei o que me possa fazer a carne.[4]EM DEUS LOUVAREI AS PALAVRAS — A letra: "as minhas palavras." O hebreu tem a palavra dêle. Estas eram as promessas que Deus lhe havia feito, de lhe dar o reino de Saul, ou de Israel para êle, e para a sua posteridade. — Pereira.
6Todo o dia abominavam as minhas palavras: Contra mim eram todos os pensamentos dêles para me fazerem mal.
7Congregar-se-ão e esconder-se-ão: Êles armaram insídias ao meu calcanhar. Como êles porfiaram em tirar-me a vida,[5]CONGREGAR-SE-ÃO — Fala dos cortesãos de Saul, emprega-se o futuro pelo pretérito: se ajuntavam em Conciliábulos, dissimulavam, e me espiavam. Porém no rigor da letra, é um sentido profético, que alude aos Conciliábulos dos judeus, depois de conspirarem contra a vida de Jesus Cristo, e por temor do povo não se atreviam a manifestar os seus perversos desígnios. O inhabitabunt denota, segundo o texto hebreu, "o Congregarem-se em conventículos." — P. Scio. EM TIRAR-ME A VIDA — No hebreu pertence isto ao versículo precedente: "observam os meus passos, como esperando ocasião para tirar-me a vida." — P. Scio.
8tu de nenhum modo os salvarás: Com ira quebrantarás êstes povos.
9Ó Deus, a ti tenho manifestado a minha vida: Tu viste as minhas lágrimas diante de ti, conforme a tua promessa:[6]CONFORME A TUA PROMESSA — Na versão seguimos a distribuição, e pontuação que têm as palavras na Vulgata. Outros o dispõem, e explicam dêste modo: Creio seguramente, que segundo as tuas promessas, serão dissipados os meus inimigos no mesmo tempo que a tua providência tem destinado; e em qualquer tempo que te invoco, imediatamente me fazes conhecer que tu és o meu Deus. O hebreu nos oferece outro sentido, e outras imagens belíssimas: "Tu terás contado as minhas fugidas", isto é: Tu, Senhor, sabes quantas vêzes tenho andado peregrino por tua causa; fugindo, e escondendo-me da violência, e tirania dos meus inimigos. "Põe as minhas lágrimas no teu odre;" não permitas que sejam perdidas tantas lágrimas, e suspiros; tem conta com elas, guarda-as na tua memória, e faze delas como um depósito, ou reservatório, para que a sua abundância te mova a socorrer-me. "Porventura não estão no teu registo? então os meus inimigos voltarão as costas no dia que eu clamar; pois sei que Deus está por mim." — Pereira.
10Então serão postos em fuga os meus inimigos. Em qualquer dia que eu te invocar: Eis-que conheço que tu és o meu Deus.
11Em Deus louvarei a palavra, no Senhor louvarei a promessa: Em Deus esperarei, não temerei o que o homem me possa fazer.
12Sôbre mim estão, ó Deus, os teus votos que cumprirei com louvores a ti.[7]SÔBRE MIM ESTÃO, Ó DEUS — Isto é: Sôbre mim estão os meus inimigos como uma carga de que me livrarei, quando cumprir os votos que fiz de te louvar, o que alude aos sacrifícios de louvor que estão prevenidos pela lei, para dar graças pelos benefícios recebidos. Outros, com Calmet, traduzem: Eu conservo, ó Deus, a lembrança dos votos que te tenho feito, e dos louvores de que te sou devedor. — Pereira.
13Porquanto livraste a minha alma da morte, e os meus pés da queda: Para que eu seja aceito diante de Deus no lume dos viventes.[8]NO LUME — Alguns aplicam isto aos desejos de ir a Jerusalém: "Entre a luz, e alegria do povo de Jerusalém; considerando a Davi como entre as trevas, por se achar metido no meio de uns povos idólatras." — P. Scio.