Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 35

Salmo didático. A profunda malícia dos ímpios: os profundos juízos de Deus sôbre os maus, e a sua grande misericórdia para com os bons.

1Ao regente do côro, do mesmo Davi servo do Senhor.[1]1O objeto dêste Salmo é descrever a perversidade dos incrédulos, e mostrar a Infinita Misericórdia de Deus, que por tantos modos o chama para o caminho da verdade e salvação. Tem três estrofes. A 1.ª (2-5) é o retrato do ímpio, na 2.ª (6-9) exalta a bondade de Deus, a 3.ª (10-13) é uma súplica para obter a graça de permanecer fiel no serviço do Senhor e evitar assim a desgraça do mau.

2Disse o injusto entre si mesmo, que êle delinqüiria: Não há temor de Deus ante seus olhos.

3Porque êle obrou dolosamente na sua presença: De sorte que a sua iniqüidade o fêz objeto do ódio.[2]2DE SORTE QUE A SUA INIQÜIDADE O FÊZ OBJETO DO ÓDIO — Objeto do ódio de Deus, que especialmente aborrece aos pecados que se cometem, não por ignorância ou fragilidade, mas com um ânimo deliberado e por mera malícia, como os do ímpio, de que fala o verso antecedente. — Bossuet.

4As palavras da sua bôca são iniqüidade e engano: Não quis instruir-se para fazer o bem.

5Meditou a iniqüidade na sua cama: Deixou-se estar em todos os caminhos que não eram bons, e não aborreceu a malícia.

6Senhor, a tua misericórdia está no céu e a tua verdade até às nuvens.

7A tua justiça é como os montes de Deus: Os teus juízos são um abismo profundo. Tu, Senhor, salvarás os homens, e as bêstas:[3]3OS MONTES DE DEUS — Isto é: Os montes os mais altos. Na Escritura é freqüente êste epíteto, quando quer significar alguma coisa grande ou extraordinária, como já em outras notas advertimos. — Pereira. | TU, SENHOR, SALVARÁS OS HOMENS E AS BÊSTAS — Quer dizer: A tua providência se estende aos homens e às bêstas, e isto em utilidade dos homens, a quem elas servem. No sentido alegórico significa que Deus é o Salvador não só do homem justo, mas também do sensual, que é comparável a uma bêsta, e dos pecadores, contanto que se convertam à penitência. E também se pode isto aplicar aos filhos de Israel, que vivem como homens e como racionais, e aos gentios, que, entregues aos seus apetites, vivem sem razão e como bêstas, e de todos o Senhor é Salvador. — P. Scio.

8Segundo tens multiplicado a tua misericórdia, ó Deus. Mas os filhos dos homens esperarão à sombra das tuas asas.[4]4SEGUNDO TENS MULTIPLICADO — Neste tom de admiração e de exclamação é que o hebreu exprime o que na Vulgata se diz com menos energia: Quemadmodum multiplicasti misericordiam tuam, Deus. — Pereira.

9Embriagar-se-ão da abundância da tua casa: E os farás beber na torrente das tuas delícias.

10Porque em ti está a fonte da vida: E no teu lume veremos o lume.[5]5E NO TEU LUME VEREMOS O LUME — Os teólogos explicam assim: E pelo lume da glória que tu produzirás nos espíritos bem-aventurados, veremos nós o lume incriado, que és tu. Alguns Padres, depois de Orígenes, lêem assim: E no teu Verbo, que é um lume do lume, te veremos nós a ti, que és o pai dos lumes.

11Estende antes a tua misericórdia sôbre os que te conhecem, e a tua justiça sôbre aquêles que têm o coração reto.

12Não venha sôbre mim pé de soberba: E mão de pecador não me comova.[6]6NÃO VENHA SÔBRE MIM PÉ DE SOBERBA — Não me torne a meter debaixo dos pés o soberbo Saul. — Calmet.

13Ali caíram os que obram a iniqüidade: Foram empurrados, e não se puderam levantar.[7]7ALI CAÍRAM, ETC. — Ali, isto é, naquele miserável estado, naquela extrema infelicidade, em que êles me queriam precipitar, nessa caíram êles. É o que sucedeu ao perversissimo Saul, quando desesperado disse ao seu escudeiro: Sta super me, et interfice me. "Chega-te a mim e mata-me." — Bossuet.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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