Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 101

Salmo deprecatório. O salmista em nome de todo o Israel implora a misericórdia do Senhor: anuncia o restabelecimento de Sião e pede a conservação de Israel, até ao tempo em que deve entrar em graça.

1Oração do pobre,
que estiver em tribulação, e derramar as suas preces na presença do Senhor.[1]PobrePOBRE — Êste pobre não é um indivíduo, mas o povo de Israel aflito por causa do cativeiro. Tem dez estrofes. Primeira (2-3). Invocação a Deus. Segunda à quarta (4-12). Pede para que Deus tenha piedade da aflição que descreve seguidamente. Quinta à oitava (13-23). Apresenta as razões que Deus tem para o socorrer. Nona e décima (24-29). Contraste entre a eternidade de Deus e a humildade da vida humana. Êste é o quinto dos salmos penitenciais. A propósito dêste salmo escreveu o conde de Maistre: "Êste canto, que celebra a eternidade de Deus também, será perpétuo na terra: adotou-o a Sinagoga na sua liturgia, emprega-o a Igreja nos seus cultos; e hoje, quando o sol se ergue, êstes hinos ressoam por tôda a terra, debaixo das venerandas abóbadas dos mais antigos templos. Ouvem-se desde Roma, Génova, Madri, Londres, a Quebec, a Quito, a Moscou, a Pequim, a Botany Bay, até ao Japão, por tôda a parte enfim." Soirées de Saint-Pétersbourg, VII Entretien, 1822.

2Senhor, ouve a minha oração: E chegue a ti o meu clamor.

3Não apartes o teu rosto de mim: Em qualquer dia em que me achar atribulado, inclina para mim o teu ouvido.
Em qualquer dia que te invocar, ouve-me prontamente:

4Porque foram dissipados como fumo os meus dias: E os meus ossos assim como acendalhas se secaram.[2]Como acendalhasCOMO ACENDALHAS — Cremium significa tôda a matéria combustível que está mui sêca e disposta para se poder queimar fàcilmente. — Pereira.

5Fui ferido como feno, e o meu coração se secou: Porque me esqueci de comer o meu pão.

6À voz do meu gemido se pegaram os meus ossos à minha carne.

7Tornei-me semelhante ao pelicano do deserto: Cheguei a ser como a coruja em seu albergue.[3]Semelhante ao pelicanoSEMELHANTE AO PELICANO — Por estas comparações quer o salmista descrever a tristeza. O pelicano nutre-se de peixes, pelo que vive à beira-mar ou nas margens dos rios, longe dos homens.

8Vigiei, e estou feito como pássaro solitário no telhado.

9Todo o dia me improperavam os meus inimigos: E os que me louvavam se conjuravam contra mim.

10Porque comia a cinza com pão, e misturava a minha bebida com pranto.[4]Porque comia a cinzaPORQUE COMIA A CINZA — É uma paráfrase da Escritura, que significa estar prostrado com a bôca por terra, coberto de pó, e de cinza, como costumavam andar os hebreus no tempo das calamidades e aflições. 2 Rs 13, 19; Jó 16, 16. Ora, segundo Calmet, a partícula quia não se refere ao que está dantes, e melhor se verte como se fôra quamobrem, isto é, "por cuja causa." — Pereira.

11À vista da tua ira e indignação: Porque levantando-me me arrojaste.

12Os meus dias como sombra passaram: E eu como feno me sequei.

13Mas tu, Senhor, permaneces para sempre: E a memória do teu Nome vai de geração em geração.

14Tu levantando-te terás piedade de Sião: Porque é tempo de teres piedade dela, porque o prazo está já cumprido.[5]Tu levantando-teTU LEVANTANDO-TE — Pode também expor-se: tu como de um profundo sono, em que parece te achas agora submergido, despertarás e compadecido dos trabalhos e infortúnios de Jerusalém acudirás a remediá-los. — Pereira.

15Porque as suas ruínas têm sido agradáveis aos teus servos: E êles se compadecerão da sua terra.[6]Porque as suas ruínas têm sidoPORQUE AS SUAS RUÍNAS TÊM SIDO — Assim arruinada amam teus servos a Sião, amam os entulhos do Templo, amam as cinzas dos seus maiores, e se lamentam delas. Assim o faziam aquêles que levavam as suas ofertas ao lugar onde estivera o Templo. Jer 41, 6. Assim Neemias, que suspirava por ver o lugar em que seu pai fôra sepultado. 2 Esdr 21, 5. — Bossuet.

16E temerão as nações o teu nome, Senhor, e todos os reis da terra respeitarão a tua glória.[7]E temerãoE TEMERÃO — É uma clara profecia da vocação dos gentios ao conhecimento de Deus. — Pereira.

17Porquanto o Senhor edificou Sião: E será visto na sua glória.

18Atendeu à oração dos humildes: E não desprezou o seu rogo.

19Sejam escritas estas coisas a outra geração: E o povo, que há de ser criado, louvará o Senhor:

20Porque olhou desde o alto do Santuário: O Senhor desde o céu olhou para a terra:

21Para ouvir os gemidos dos encarcerados: Para dar soltura aos filhos dos condenados à morte:

22Para que anunciem em Sião o nome do Senhor: E o seu louvor em Jerusalém.

23Quando os povos se juntarem, e os reis para servirem ao Senhor.

24Respondeu-lhe no caminho do seu vigor: Dize-me o curto número de meus dias.[8]Respondeu-lheRESPONDEU-LHE — Isto é, o pobre, que fala neste salmo, ou em figura dêste pobre povo cativo, ou qualquer dêste povo. E disse-o no seu maior vigor, isto é, na sua mais vigorosa idade. Assim expõe Calmet, o que a Vulgata diz: Respondit ei in via virtutis suae. Outros, com Tirino, explicam aquêle in via virtutis suae, não da fôrça do povo, mas da fôrça de Deus: e explicam assim: Êle disse a Deus no caminho da sua fôrça, isto é, no caminho em que Deus mostra o seu grande poder, que é o caminho da volta do cativeiro de Babilónia. — Pereira. DIZE-ME O CURTO NÚMERO DE MEUS DIAS — Segundo a primeira inteligência que acima propusemos, é esta petição, uma petição de quem, sabendo que Deus queria livrar o seu povo, estava em cuidado, se chegaria êle a ver restaurada Jerusalém. Segundo a outra inteligência é uma pergunta, em que o pobre, já livre do cativeiro, mostra o cuidado em que está, se chegará êle a tempo de poder contar às gerações futuras os grandes benefícios que Deus lhe fizera. Qualquer dêstes sentidos se acomoda bem ao que se continua no verso 25. — Pereira.

25Não me chames na metade de meus dias: Os teus anos se estendem de geração em geração.

26No princípio tu, Senhor, fundaste a terra: E os céus são obra de tuas mãos.[9]E os céusE OS CÉUS — O apóstolo ad Hebr 1, 10. 11. 12, aplica esta palavra a Cristo Salvador, e Libertador do homem, e ao mesmo feito homem sendo Deus verdadeiro; igual aplicação faz nos vers. seguintes.

27Êles perecerão, mas tu permaneces: E todos se envelhecerão como um vestido.
E como roupa de vestido os mudarás, e serão mudados:

28Mas tu és sempre o mesmo, e os teus anos não se acabarão.

29Os filhos de teus servos habitarão: E a sua posteridade será dirigida eternamente.[10]HabitarãoHABITARÃO — Em Jerusalém, ou na Judéia, estàvelmente, com segurança, e sem temor, quando livres, e soltos das cadeias de Babilónia voltarem à amada pátria. — Pereira.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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