Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Salmo histórico. Davi neste Salmo se volta a Deus, e nêle encontra fôrça contra todos os insultos dos seus inimigos: seguro com as experiências passadas, implora o seu auxílio, e pede-lhe que novamente o defenda.

1Salmo de Davi quando fugia à vista de Absalão seu filho (2 Rs 15, 14).[1]SalmoO título está indicado neste primeiro versículo — Salmo de Davi quando fugia à vista de seu filho Absalão. — 2 Rs 15, 14.

2Senhor por que são em tão grande número os que me perseguem? muitos se levantam contra mim.

3Muitos dizem à minha alma: Não há salvação para êle em seu Deus.

4Porém tu, Senhor, és o meu protetor, a minha glória e o que exaltas a minha cabeça.

5Com a minha voz clamei ao Senhor: E me ouviu desde o seu santo monte.[2]Santo monteQuer dizer desde o Céu, onde estás em tua santidade e glória. De Cœlo sublimi, ubi in tua santitate et gloria insides.

6Eu dormi e estive sepultado no sono: E levantei-me, porque o Senhor me amparou.[3]E levantei-meIsto é, acordei, como tem o hebreu, evigilavi. A Igreja acomoda êste versículo a Jesus Cristo ressurgindo dos mortos. — Bossuet.

7Não temerei aquêles milhares de povo que me cercam: Levanta-te, Senhor, salva-me, Deus meu.[4]Aqueles milhares de povoAlude Davi ao que lhe dissera um mensageiro: Toto corde universus Israel sequitur Absalão. 'Todo o povo de Israel segue de todo o coração o partido de Absalão contra ti'. 2 Rs 16, 13. — Bossuet.

8Porque tu tens ferido a todos os que me perseguem sem causa: Quebraste os dentes dos pecadores.

9Do Senhor é a salvação: E sôbre o teu povo a tua bênção.[5]Do Senhor é a salvaçãoA salvação nos vem de Deus, e êle abençoa o seu povo, isto é, os predestinados pelos merecimentos de Jesus Cristo. Santo Agostinho observou que a primeira parte do verso era afirmativa, e a segunda deprecativa.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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