Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 38

Salmo didático. Davi prefere sofrer em silêncio os males com que o Senhor o aflige, e não responder aos insultos dos seus inimigos, contentando-se com expor ao Senhor os seus tristes gemidos. Põe em Deus a sua esperança, e lhe pede o livre da tribulação que padece.

1Ao regente do côro, a Iditum, Cântico de Davi.[1]1IDITUM — Êste título indica que êste Salmo é dirigido a Iditum, nome próprio dum dos três chefes do côro do tempo de Davi. Êste Salmo foi naturalmente composto depois da revolta do Absalão. Tem quatro estrofes. A primeira descreve o abatimento em que se encontra Davi, aspirando debalde ao repouso, e prestes a cair na impaciência; na segunda expõe as suas queixas; na terceira e quarta Davi confia em Deus, e pede perdão de seus pecados. A idéia dominante em todo êste Salmo é o sentimento maior das coisas do mundo.

2Disse: Guardarei os meus caminhos: Para não delinqüir com a minha língua. Pus guarda à minha bôca, quando o pecador estava em frente contra mim.[2]2GUARDAREI OS MEUS CAMINHOS — Isto é: Velarei e terei cuidado sôbre tôdas as minhas ações, e palavras, para não cair em culpa alguma. | QUANDO O PECADOR ESTAVA — Quando Semei me saiu ao caminho para praguejar-me, e me ultrajar. 2 Rs 16, 5.6. — Pereira.

3Emudeci, e me humilhei, e nem ainda falei de coisas boas: E a minha dor se renovou.[3]3E NEM AINDA FALEI — Isto é, não proferi o que me era lícito dizer em defensa da minha inocência, queixando-me ao meu Deus, e implorando a sua justiça. Contive-me de dizer tudo o que pudera com tôda a justiça, por me não expor a dizer mais do que convinha, no movimento e calor da ira: e a violência com que me reprimi, para afogar o natural ressentimento, serviu para que se aumentasse, e fôsse mais viva a minha dor. — P. Scio.

4O meu coração se escandeceu dentro de mim: E na minha meditação se incenderá fogo.

5Falei com a minha língua: Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim. E o número dos meus dias qual é: Para que eu saiba o que me resta.

6Eis-aqui puseste os meus dias em medida: E a minha subsistência é como nada diante de ti. Todavia é pura vaidade todo o homem que vive.

7Pois certamente o homem passa como em sombra: E assim em vão se conturba. Entesoura, e não sabe para quem ajunta aquelas coisas.

8E agora qual é a minha esperança? porventura não é o Senhor? pois em ti está a minha subsistência.[4]4E AGORA QUAL É A MINHA ESPERANÇA? — O hebreu tem: "E agora que esperança, Senhor? A minha esperança em ti está." Mas ainda que sei muito bem que a morte põe fim a meus males; isto não obstante não está aqui a minha verdadeira consolação, senão na tua graça e salvação. In ipso vivimus, movemur, et sumus. At 17. — P. Scio.

9Livra-me de tôdas as minhas iniqüidades: Tu me fizeste um objeto de opróbrio para o insensato.

10Emudeci, e não abri a minha bôca, porque tu o fizeste:

11Aparta de mim os teus flagelos.

12Debaixo da fôrça da tua mão eu desfaleci quando me repreendeste: Tu por causa da iniqüidade castigaste ao homem. E fizeste que a sua alma se consumisse como aranha: Certamente em vão se conturba todo o homem.

13Ouve, Senhor, a minha oração e a minha súplica: Recebe em teus ouvidos as minhas lágrimas. Não te cales: Porque adventício sou adiante de ti, e peregrino como todos os meus pais.

14Deixa que tome algum alento, antes que me vá, e não exista mais.[5]5DEIXA QUE TOME ALGUM ALENTO — Levanta a mão, e modera já o teu rigor, e a violência da minha aflição, para que possa acabar em paz, e com uma ditosa morte a carreira da minha vida.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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