Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 27

Salmo deprecatório. Davi cercado de seus inimigos põe a sua confiança em Deus, para não perecer com êles; e vendo o bom efeito das suas orações, rende graças ao Senhor, e lhe roga por todo o povo.

1Salmo do mesmo Davi. A ti clamarei, Senhor Deus meu, não estejas em silêncio comigo: Não suceda que, calando tu, seja eu como aqueles que descem à sepultura.[1]Salmo do mesmo DaviProvàvelmente foi composto quando saiu de Jerusalém, pela rebelião de Absalão. Tem oito estrofes de quatro versos.

2Ouve, Senhor, a voz da minha deprecação quando a ti oro: Quando levanto as minhas mãos ao teu santo Templo.[2]Ao teu santo TemploO hebreu lê: "Ao Oráculo da Santidade, ao Sanctum Sanctorum", ou ao Santuário onde descansa a tua arca. Sempre que se fala de Templo, quando Salomão não o havia ainda edificado, se há de entender do tabernáculo, e do lugar que ocupava. — Sacy.

3Não me arrastes juntamente com os pecadores: E não me percas com os que obram a iniqüidade: Os quais falam de paz com o seu próximo. E nos seus corações só cuidam em lhe fazer mal.

4Dá-lhes a êles segundo as suas obras, e segundo a malignidade dos seus projetos. Dá-lhes a êles segundo as obras das suas mãos: Dá-lhes a recompensa que lhes é devida.

5Porquanto não compreenderam as obras do Senhor, nem o que fizeram as mãos dêle, tu os destruirás; e não os restabelecerás.

6Bendito o Senhor: Porque ouviu a voz da minha deprecação.

7O Senhor é a minha ajuda, e o meu protetor: Nêle esperou o meu coração, eu fui ajudado: E refloresceu a minha carne: E do meu coração o louvarei.[3]E refloresceu a minha carne / E do meu coração o louvareiE REFLORESCEU A MINHA CARNE — Os Padres reconhecem nestas palavras a Ressurreição gloriosa do Divino Salvador. — P. Scio. E DO MEU CORAÇÃO O LOUVAREI — O hebreu lê: "E se regozijou o meu coração e do meu cântico o louvarei". — Sacy.

8O Senhor é a fortaleza do seu povo: E o protetor que salva ao seu Ungido.[4]O Senhor é a fortaleza do seu povoÊste versículo e o seguinte são o cântico de louvores ao Senhor. Tudo o que aqui se diz se aplica literalmente a Jesus Cristo, que é a fortaleza e a glória do novo povo de Israel. Pede a seu eterno padre que, pois salvou e glorificou ao seu Ungido, salve também ao seu povo, que é uma nova herança. — P. Scio.

9Salva, Senhor, ao teu povo, e abençoa a tua herança: Conduze-o, e exalta-o até à eternidade.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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