Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 29

Salmo gratulatório. Davi convida a todos os povos a que se unam a êle para dar graças ao Senhor, pelo ter livrado de grandes tribulações, e da morte, de que estava ameaçado.

Salmo ou Cântico de Davi.

1Na dedicação da casa de Davi.[1]Na dedicação da casa de DaviTalvez depois da revolta de Absalão e a seguir a uma doença. O Cardeal Belarmino sustenta que êste cântico foi composto para celebrar a primeira dedicação da casa edificada por Davi sôbre o monte Sion, depois que conquistara Jerusalém aos jebuseus. Esta opinião é perfilhada por Aben-Esra, e Le Clerc Grocio é de parecer que foi composto para celebrar a segunda dedicação da casa de Davi, pois que êle a reedificara e a purificara das profanações e impurezas praticadas por seu filho Absalão. Calmet opina que êste cântico foi entoado quando Davi dedicou ao Senhor um altar em memória da misericórdia que usou com o seu povo, na casa de Ornan, edificada sôbre o monte Sion. Teodoreto entende que êste cântico deve ser atribuído a Ezequias depois da milagrosa derrota de Senaquerib. A primeira opinião é a mais seguida. Salmo é uma ação de graças.

2Eu te glorificarei, Senhor, porque me recebeste: E não comprazeste a meus inimigos em meu dano.

3Senhor meu Deus, eu clamei a ti, e tu me saraste.

4Senhor, tiraste do inferno a minha alma: Puseste-me a salvo dos que descem ao lago.

5Santos do Senhor, cantai-lhe hinos: E celebrai a memória da sua santidade.

6Porque êle nos fere na sua ira: E êle nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lágrimas: E de manhã em alegria.[2]Porque êle nos fere na sua ira / De tarde estaremos em lágrimasPORQUE ÊLE NOS FERE NA SUA IRA — O hebreu lê: "Porque a sua ira é momentânea". O que a Vulgata verte Quoniam ira in indignatione ejus, et vita involuntate ejus. O que Sacy verte: "Porque o castigo é a conseqüência da sua indignação, e a vida é um puro efeito de seu amor". De Carrières: "Porque a ira vem da sua indignação, e a vida é um puro efeito da sua boa vontade". Eu segui à versão de Calmet, por me parecer mais simples, e desembaraçada. — Pereira. DE TARDE ESTAREMOS EM LÁGRIMAS — Neste sentido disse Jesus Cristo aos seus apóstolos: "Mas a vossa tristeza se converterá em gôzo". E com esta comparação se confirma o que fica dito no antecedente verso. — Sacy.

7Ora eu tinha dito na minha abundância: Não terei jamais mudança.[3]Na minha abundânciaO hebreu tem: no estado da minha prosperidade; e assim o exprimiu Le Gros. — Pereira.

8Senhor, por teu querer deste firmeza à minha prosperidade. Apartaste de mim teu rosto, e eu fiquei conturbado.[4]Deste firmeza à minha prosperidadeO hebreu tem: "Senhor, por tua vontade, e favor, fizeste estar na minha mente a fortaleza; deste estado firme ao meu reino, cujo assento estava no monte de Sião. — P. Scio.

9A ti, Senhor, clamarei: E ao meu Deus rogarei.

10Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção? Porventura dirá o pó o teu louvor, ou publicará êle a tua verdade?

11O Senhor me ouviu, e se compadeceu de mim: O Senhor se fêz meu ajudador.

12Tu converteste o meu pranto em gôzo: Tu rasgaste o meu saco, e todo me cercaste de alegria:

13Para que te cante na minha glória: E eu não tenha penas: Senhor Deus meu, eu te louvarei eternamente.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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