Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 107

Oração de Davi para pedir ao Senhor a sua assistência contra os seus inimigos, dando graças pelos auxílios que tem recebido. Os Padres reconhecem aqui as conquistas de Jesus Cristo sôbre as nações infiéis atraídas ao seu Evangelho.

1Cântico e salmo do mesmo Davi, (Sl 55, 8.)[1]Cântico e salmoCÂNTICO E SALMO — Êste salmo é composto de duas partes: uma tirada do salmo 56, desde o v. 8 até ao fim; outra do salmo 109, desde o v. 6 até ao fim. Bossuet o atribui a Davi, seguindo a Vulgata, e advertindo que não é de admirar que o poeta sagrado o tome emprestado de si mesmo. Também julga que Davi o compusera em ação de graças pela vitória que alcançara dos assírios e idumeus. Calmet não duvida atribuí-lo aos cativos de Babilônia. — Pereira.

2Preparado está o meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração, cantarei, e direi salmos na minha glória.

3Desperta, glória minha, desperta saltério e harpa: Levantar-me-ei ao romper d'alva.

4Louvar-te-ei no meio dos povos, Senhor: E te direi salmos entre as nações.

5Pois grande é sôbre os céus a tua misericórdia e a tua verdade se eleva até às nuvens.

6Exalta-te, ó Deus, sôbre os Céus, e resplandeça sôbre tôda a terra a tua glória:

7Para que sejam livres os teus escolhidos.
Salva-me com a tua destra, e atende-me:

8Deus falou no seu santo:
Regozijar-me-ei, e repartirei Siquém, e medirei o vale das tendas.

9Meu é Galaad, e meu é Manassés: E Efraim a segurança da minha cabeça.
Judá meu rei:

10Moab vaso da minha esperança.
Até à Iduméia estenderei o meu calçado: Os estrangeiros se me têm feito amigos.

11Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me conduzirá até à Iduméia?

12Porventura não és tu, ó Deus, o que nos tens desamparado, e não sairás, ó Deus, na testa dos nossos exércitos?

13Dá-nos socorro na tribulação: Porque é vã a salvação que se espera da parte do homem.

14Em Deus faremos proezas: E êle reduzirá a um nada os nossos inimigos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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