Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 50

Salmo deprecatório e penitencial. Davi cheio de confusão pelos seus pecados pede a Deus humildemente que lhos perdoe confessando-os com sinceridade: suplica-lhe que se digne de renovar nêle a paz, e a alegria de consciência: promete-lhe fazer penitência por êles: de maneira que o seu exemplo sirva a outros de instrução, e de escarmento para a glória do mesmo Deus: últimamente lhe pede, e roga por tôda a Igreja.

1Ao regente do côro, salmo de Davi.[1]Salmo de DaviTem quatro estrofes: Na primeira (3-6) confessa o crime; na segunda pede que seja lavada a alma da mancha que sôbre ela caiu; na terceira que a alma seja renovada; na quarta promete o reconhecimento e um sacrifício de louvores. Com razão escreve Vigouroux, ob. cit.: "Há poucas páginas na Bíblia que encerrem tantas verdades em tão poucas linhas".

2Quando veio buscá-lo o profeta Natan, depois de haver pecado com Betsabée. (2 Rs 12)[2]Depois de haver pecado com BetsabéeDo mesmo título dêste salmo se vê claramente qual seja o seu argumento. Davi no tempo da sua penitência, animado do espírito profético, compôs um salmo que convém a todos os tempos, e que também podia convir aos judeus cativos em Babilónia. Tem quatro estrofes.

3Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia. E segundo as muitas mostras da tua clemência, apaga a minha maldade.[3]Tem piedade de mim / Segundo a tua grande misericórdiaDavi mostra aqui no entender dos bons exegetas, que sabia que a Deus o que mais agrada, após a culpa do pecador, é a súplica de perdão e de misericórdia, na qual vai o arrependimento sincero, e com êste o propósito de emenda. — A propósito destas palavras S. Bernardo confronta com os pecados a misericórdia de Deus, dizendo que com os homens esta misericórdia é mais do que com os Anjos, aos quais logo castigou, quando caíram. S. Basílio, no comentário a êste salmo, diz que Davi, conhecendo a grandeza da sua culpa, pediu a Deus usasse com êle de tôda a sua misericórdia, até se esgotar com êle a fonte dela. Magnus David, universam, in se gratia effundi, et totum miserationem fontem in peccati in ulcere evacuarit orat.

4Lava-me mais e mais da minha iniqüidade: E purifica-me do meu pecado.[4]E purifica-me do meu pecadoTorna-me a lavar, pôsto que já esteja lavado, porque quando Davi dizia isto, já havia ouvido por bôca de Natan, que o Senhor lhe havia perdoado. Quer dizer: purifica bem as manchas do pecado que ficaram na minha alma. Aumenta na minha alma a caridade, e a graça, para estar purificado mais na tua presença. Admirável paralelismo com a frase inteira.

5Porque a minha maldade eu a conheço: E o meu pecado diante de mim está sempre.

6Contra ti só pequei, e fiz o mal diante dos teus olhos: Para que sejas justificado nas tuas palavras e venças quando fôres julgado.[5]Contra ti só pequei / Sejas justificadoDavi havia pecado também contra os homens, já pela injúria particular feita a Betsabée e a Urias, e já pelo escândalo público que havia causado; mas para agravar mais o seu delito, também para conseguir o perdão, e o remédio daquele, em quem só podia achá-lo, se apresenta como culpado, e réu diante só de Deus; dando a entender que a ofensa feita aos homens é de pouco pêso em comparação da que se faz àquela infinita Bondade, e Majestade ofendida, cuja lei é violada em todo o pecado: e também para mostrar que nenhuma escusa, perdão, acepção de pessoas, ou poder humano o podia livrar do juízo de Deus; ainda que em qualidade de rei estivesse isento do castigo dos homens. Gên 20, 6; 39, 9. Lev 5, 19; 6, 2. 3. 4. — P. Scio. — Sejas justificado: Perdoa-me, Deus meu, para que sejas reconhecido fiel nas tuas palavras, e fiquem vencidos, e confundidos os ímpios que se atrevem a duvidar de tuas promessas, em virtude das quais perdoas ao pecador que se arrepende. Vatablo. Êste sentido é o mesmo em que o cita S. Paulo. Rom 3, 4. O hebreu tem: "Para que sejas reconhecido justo no teu falar, e puro no teu julgar"; quer dizer: para que te seja dada tôda a glória nos juízos, e castigos que podes pronunciar, e executar contra mim. S. João Crisóstomo. Alguns o expõem dêste modo: Tu és justo nas sentenças, e não havendo outro juiz superior a quem recorrer, e em vão pretender apelar do que uma vez pronunciares, e assim beijarei a mão que me castigue. O texto da Vulgata pode reduzir-se sem violência a êste mesmo sentido, sempre que judicaris se tome em significação ativa, por judicaveris conforme ao texto hebreu. — P. Scio.

7Eis-aqui sabes que eu fui concebido em iniqüidades: E em pecados me concebeu minha mãe.[6]Concebido em iniquidadesNão sòmente confesso o meu pecado neste feito, senão também em geral no vício da minha natureza corrupta pela culpa original, que me infeccionou pela geração. Como quem dissera: Não sòmente tenho feito êste mal, senão que sou malvado por natureza. Jó 14, 4; Jo 3, 6; Rom 5, 12; Ef 4, 23. Todos os Padres reconhecem nestas palavras a culpa original, que contrai o homem na sua formação, conforme aquela expressão de Orígenes: Quaecumque anima in carne nascitur, iniquitatis et peccati corde polluitur, S. in Lev. Veja-se S. Agostinho neste lugar e no Livro I contra Juliano. — Pereira.

8E bem vejo que tu amaste a verdade: E me revelaste o segrêdo, e o escondido do teu saber.

9Tu me borrifarás com o hissope, e serei purificado: Lavar-me-ás, e me tornarei mais branco que a neve.[7]E serei purificadoObrando em mim o efeito que se figurava nas purificações cerimoniais. Lev 14, 4. 49. 51. 52. Núm 19, 18, cujo efeito e causa só a verdadeira e perfeita expiação, que se consegue em virtude do sangue e morte de Jesus Cristo, por onde nos vem a mundificar-se a nossa alma de tôda a obra morta, como nos ensina o apóstolo. Hbr 9, 13. 14. — P. Scio.

10Ao meu ouvido darás gôzo e alegria: E se regozijarão os meus ossos humilhados.

11Aparta o teu rosto dos meus pecados: E apaga tôdas as minhas maldades.

12Cria em mim, ó Deus, um coração puro: E renova nas minhas entranhas um espírito reto.

13Não me arremesses da tua presença: E não tires de mim o teu espírito santo.[8]E não tires de mim o teu espírito santoIsto é, a graça santificante, ainda que alguns Padres explicam também o Spiritum Sanctum tuum do espírito de profecia, que temia haver perdido pelo pecado. — P. Scio.

14Dá-me a alegria da tua salvação: E conforta-me por meio do espírito principal.[9]Do espírito principalA palavra hebraica se interpreta voluntária, livre: quer dizer, o espírito da tua graça, que é o autor da verdadeira liberdade espiritual nos fiéis. Rom 8, 2. Os livra do pecado, e da morte, e faz que com vontade e gôsto sirvam ao Senhor. Outros trasladam como na Vulgata, principal ou real, de maneira que o Senhor seja realmente pelo seu espírito o Árbitro, e Governador da alma, e de todos os seus pensamentos e movimentos, como é a alma do corpo. Jó 30, 15. Outros, com S. Jerônimo, trasladam Spiritu potenti, e o expõem do espírito da fortaleza, para não tornar a cair na desgraça do pecado. — Calmet.

15Ensinarei aos iníquos os teus caminhos: E os ímpios se converterão a ti.

16Livra-me dos sangues, Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua exaltará a tua justiça.[10]Livra-me dos sanguesDiz dos sangues no número plural: porque não foi só um o homicídio, que Davi cometeu, mas foram tantos, quantos eram os que êle expôs com Urias a uma morte certa. Assim Bossuet. Mas Santo Agostinho considera que por êstes sangues entende Davi a corrupção, que se contrai na nossa conceição. — Pereira.

17Senhor, abrirás os meus lábios: E a minha bôca anunciará o teu louvor.

18Porque se tu quisesses sacrifício, o houvera na verdade oferecido: Tu não te deleitarás com holocaustos.

19Sacrifício para Deus é o espírito atribulado: Ao coração contrito, e humilhado não o desprezarás, ó Deus.

20Senhor, faze bem a Sião de tua vontade: Para que se edifiquem os muros de Jerusalém.

21Então aceitarás sacrifício de justiça, oferendas, e holocaustos: Então porão sôbre o teu altar bezerros.[11]Então aceitarásQuando perdoares o meu pecado, pelo qual todo o corpo do povo está contaminado por mim, que sou a sua cabeça, tornando-te benigno para conosco, para aceitares os nossos sacrifícios. Havia dito Davi que Deus não buscava, nem queria sacrifícios carnais, senão o verdadeiro do coração contrito, e humilhado, e que êste só era o que aceitava. Penetrado dêste sentimento, e temendo que o Senhor castigasse ao povo, e à cidade de Jerusalém pelos seus pecados, se volta a fazer-lhe uma nova súplica, pedindo-lhe que a gravidade dos que havia cometido não o movesse a suspender o curso dos seus favores, e piedades sôbre Sião, e sôbre Jerusalém; que se dignasse defendê-la, e conservar em pé os seus muros, não permitindo que fôssem destruídos. Com o que êle, e o seu povo lhe ofereceriam sacrifícios, que lhe fôssem agradáveis, ou de justiça, acompanhados do mais terno afeto, e do mais vivo reconhecimento a tão grandes misericórdias. Então, por esta palavra indica Davi o tempo da vinda do verdadeiro Salvador de Israel, e pede a Deus que, segundo a sua eterna eleição, e a sua infinita misericórdia, tivesse a bem fazer fabricar a verdadeira Sião, e a espiritual Jerusalém, adiantando o estabelecimento da sua Igreja; porque o seu santo espírito lhe fazia conhecer, que então o grande sacrifício de justiça, que, segundo Santo Ambrósio, é o adorável do Corpo de Jesus Cristo, sacrificado à divina justiça pela santificação dos pecadores, seria agradável ao Padre Eterno sôbre todos os outros sacrifícios, que só serviam para figurá-lo e anunciá-lo. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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