Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 41

Desejo ansioso do real profeta de ver o Tabernáculo do Senhor, quando andava ausente por causa da perseguição ou de Saul, ou de Absalão.

Ao regente do côro.

1Instrução aos filhos de Coré.[1]Instrução aos filhos de CorêAntes que tudo, devemos notar que no original êste salmo e o seguinte formam um só, é o que afirma um antigo midrasch, ou explicação judaica, o que já reconhecia Eusébio falando do salmo seguinte. Praecedentis pars videtur esse, quod utique cum ex similibus utriusque verbis, tum ex affini sententia commonstratur. Com. in Ps. XLII. Esta unidade é hoje admitida sem contestação, e confirmada pela mesma forma de poema. Os dois salmos formam três estrofes absolutamente regulares e semelhantes, e as partes têm uma idêntica terminação, segundo Vigouroux, Manuel Biblique. Êste salmo é um maskil, uma instrução. Teve por autores os filhos de Coré. A Vulgata traduziu pelo dativo, por julgar que o lamed do original é o sinal dêste caso, porém, emprega-se também para indicar a pessoa de quem vem uma obra, e chama-se o lamed auctoris. Cfr. Strack, obr. cit. Coré é nome muito conhecido no Antigo Testamento pela sua revolta contra Moisés. (Núm 10, 1-33). Êste Coré era levita. Teve descendentes que exerceram funções importantes no Templo (1 Par 9, 17-19; 26, 1-19). No tempo de Davi era notável Heman o coraíta. Foi um ou vários descendentes de Coré os autores dêste salmo? Ignora-se. Quando foi composto? Também não é assunto esclarecido perfeitamente. Rosenmüller, Thalhofer e Patrizi sustentam que o autor dêste salmo foi contemporâneo de Davi, e que compartilhou o exílio do seu rei, durante a revolta de Absalão. O sentido do salmo é claro. O autor procura Deus; tem sêde de Deus e compara-se ao veado, que sequioso procura uma fonte para se dessedentar. Os primeiros cristãos aplicaram esta comparação à sêde de felicidade espiritual que atormentava os catecúmenos, que sedentamente pediam o batismo. Por isso êste salmo era cantado quando êles eram conduzidos à pia batismal. Martigny, Dictionnaire des antiquités chrétiennes, p. 158. Ainda hoje a Igreja o entoa no Sábado Santo, na procissão que se dirige à Fonte Batismal. Na primeira estrofe (2 e 5) o exilado suspira pela casa de Deus, como o veado sequioso pela fonte. Segunda (7 a 11) é um sentimento de tristeza, queixando-se. Terceira, é o salmo 42.

2Assim como o cervo suspira pelas fontes das águas: Assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.

3A minha alma está ardendo de sêde pelo Deus forte e vivo: Quando virei e aparecerei diante da face de Deus.[2]Diante da face de DeusChama face de Deus a arca do testamento, na qual Deus declarava a sua presença. — Bossuet.

4As minhas lágrimas foram o meu pão de dia e de noite: Enquanto se me diz cada dia: Onde está o teu Deus?

5Eu me lembrei destas coisas, e derramei a minha alma dentro de mim: Porque eu passarei ao lugar do tabernáculo admirável, até à casa de Deus: Com voz de regozijo, e louvor: Som festivo de quem se banqueteia.[3]Eu me lembrei, etc. / Som festivoAqui há um exemplo frizante de má tradução dos tempos dos verbos, de que já falamos. Deve traduzir-se pelo presente. De resto a tradução dêste versículo está errada, o que se deve atribuir à má leitura do original, ou engano de cópia, muito sensível por causa da grande semelhança de muitos caracteres do hebreu escrito. Assim a palavra sak, multidão, foi confundida com sokkah, tenda. Em lugar de edaddem, eu avançava, leram adereh, magnificência, e daí as expressões tabernaculi admirabilis, tabernáculo admirável, quando a tradução feita segundo o original é esta: Com a multidão eu avançarei até à casa de Deus. — A tradução literal de Som festivo é multidão em festa. O poeta recorda-se com saudade das grandes solenidades de Sião. Apresentamos para melhor inteligência do texto a tradução de Laclée dêste v. 5. Lembro-me na íntima efusão de minha alma. Como também ia com a multidão em cortejo até à casa de Deus; em grita de alegria e louvor duma turba em festa. Correspondance Catholique. Année biblique, 1894-1895.

6Por que estás triste, alma minha? E por que me conturbas? Espera em Deus, porque eu ainda tenho de o louvar: Salvação do meu rosto,

7e Deus meu. Dentro de mim mesmo está conturbada a minha alma: Pelo que me lembrarei de ti na terra de Jordão, e de Hermon desde o monte pequeno.[4]Me lembrarei de tiIsto é: Me consolarei lembrando-me dos grandes prodígios, que em outro tempo fizeste na terra do Jordão, e nos montes de Hermon pela salvação de Israel. Pode também significar os lugares em que Davi vivia desterrado, que eram as vizinhanças do Jordão, o monte Hermon, e outro pequeno monte Misaar, como o hebreu exprime. — Bossuet.

8Um abismo chama outro abismo, à voz das tuas cataratas. Tôdas as tuas coisas altas, e as tuas ondas sôbre mim passaram.[5]Tôdas as tuas coisas altasIsto é, as tuas tempestades, tôdas as tuas águas levantadas como umas serras, etc. Pôsto que a Vulgata não exprime águas, mas diz, omnia excelsa tua, o hebreu tem claramente, omnes gurgites tui. — Pereira.

9No dia enviou o Senhor a sua misericórdia e de noite o seu cântico. Dentro de mim orarei ao Deus de minha vida

10dizendo a Deus: Tu és meu amparador. Por que te esqueceste de mim? E por que ando triste enquanto me aflige o inimigo?[6]E por que ando tristeO hebreu tem: Enlutado, vestido de negro, ou de luto, o que se fazia em tempo de tristeza, e de calamidade pública. — P. Scio.

11Ao tempo que os meus ossos se quebram, me improperam os meus inimigos que me perseguem: Dizendo-me todos os dias: Onde está o teu Deus?

12Por que estás tu triste, alma minha? E por que me conturbas? Espera em Deus, porque ainda tenho de o louvar: Salvação do meu rosto, e Deus meu.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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