Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 42

Continuação do antecedente. Vivendo entre infiéis, suspira Davi por ver a Jerusalém, e o Tabernáculo do Senhor. Com esta esperança se consola, e anima.

1Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa de uma gente não santa, livra-me do homem iníquo, e enganador.[1]De uma genteAlguns unem estas palavras com as seguintes: Salva-me, ou livra-me de uma gente ímpia, incrédula... e de um homem injusto. O primeiro pode entender-se dos babilónios, que eram idólatras; ou também dos cortesãos, e vassalos do rei Aquis: ou em geral dos inimigos de Davi, gente cruel e sem piedade. O segundo de Saul, ou em geral dos perseguidores de Davi, e também dos babilónios, inimigos do povo de Deus. — P. Scio.

2Porque és, ó Deus, a minha fortaleza: Por que me repeliste? E por que ando triste, quando me aflige o meu inimigo?

3Envia a tua luz e a tua verdade: Estas me conduzirão, e me levarão ao teu santo monte, e aos teus Tabernáculos.[2]Envia a tua luz / Santo monteConvencido da sua impotência, o servo de Deus invoca o Santo que pode vir em seu auxílio. Os dois verbos estão no perfeito na Vulgata, mas traduzem-se no futuro pela razão atrás exposta. Santo monte — É Sião, onde está o Tabernáculo do Senhor. Para o sacerdote, é o altar eucarístico, cujos degraus vai subir.

4E entrarei ao Altar de Deus: O Deus que alegra a minha mocidade. Ó Deus, Deus meu, eu te louvarei com a cítara:[3]Entrarei ao Altar de Deus / Que alegra a minha mocidade / Com a cítaraÉ o voto supremo do levita exilado. Queria voltar e entrar de novo neste Tabernáculo de Sião, testemunho visível da presença do Senhor, no meio do seu povo. Como não deve ser ardente êste voto no sacerdócio da lei da graça? Habemus altare, de quo edere non habent potestatem qui tabernaculo deserviunt. Heb 13, 10. — Que alegra a minha mocidade: O que está no hebreu não é precisamente isto. As versões traduziram o nome comum simchah, "alegria" pelo verbo simmoch "alegrar-se". A palavra gil, que se segue, significa primordialmente alegria, mas as versões deram-lhe uma significação secundária: idade. A letra dever-se-ia traduzir esta frase assim: "O Deus alegria da minha alegria". De resto esta tradução ajusta-se ao sentido do salmo, porque Deus é o princípio da única verdadeira alegria. E para o fiel e para o sacerdote no altar está a origem das alegrias mais puras. — Com a cítara: No original está: eu vos louvarei com o kinnor. O kinnor era um instrumento portátil, feito dum arco de madeira, com cordas sonoras. Mais tarde aperfeiçoou-se, puseram-lhe caixa de ar, e foram-no modificando de tal sorte que veio a ser a harpa. Os sons do kinnor eram alegres, e por isso os levitas os aproveitavam nas cerimónias religiosas. Êste salmo também serve para recordar ao sacerdote o seu ingresso na Eternidade, e o juízo que se lhe segue judica me; após o juízo, a expiação do purgatório. Quare me repulisti et quare tristis incedo, dirá a alma do padre momentâneamente apartada do seu Deus, suplicando ansiosamente que lhe brilhe o esplendor da luz eterna. Emitte lucem tuam.

5Por que estás tu triste, alma minha? e por que me conturbas? Espera em Deus, porque ainda tenho de o louvar: Salvação do meu rosto, e Deus meu.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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