Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 45

Salmo didático. O autor dêste salmo engrandecendo uma sinalada vitória da Igreja, toma daqui argumento, e assunto, para que se ponha em Deus tôda confiança: e convida a todos os homens a que contemplem as suas grandes obras, e por elas lhe dêem glória e louvor.

1Ao regente do côro, dos filhos de Coré. Para voz de soprano. Salmo.[1]Para voz de sopranoÉ o que significa, na opinião dos melhores intérpretes, a palavra hebraica Al'alamoth, que a Vulgata traduziu por pro arcanis. Êste salmo naturalmente foi composto por ocasião da guerra dos moabitas, dos amonitas e dos idumeus, no tempo de Josafá. Tem três estrofes. Primeira (2-4), Deus é o nosso socorro no meio das tempestade e perigos. Segunda (5-7), Jerusalém é inatacável, porque Deus a protege. Terceira (9-11), Deus destrói todos os seus inimigos. No original hebraico, no fim do último versículo está a palavra Selah, que se encontra 71 vêzes em 39 salmos. A significação não é perfeitamente conhecida; uns querem que seja um sinal musical correspondente ao forte da música moderna, outros que indique uma pausa.

2O nosso Deus é refúgio, e esforço: Favorecedor nas tribulações, que com excesso nos tem compreendido.

3Por isso não temeremos ainda que seja comovida a terra: E trasladados os montes ao meio do mar.

4Bramaram, e turbaram-se as suas águas: Estremeceram os montes pela sua fortaleza.

5O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus: Santificou o seu Tabernáculo o Altíssimo.

6Deus está no meio dela, ela não será comovida: Deus a ajudará desde o raiar da manhã.[2]Desde o raiarNunca será comovida a Igreja, cidade de Deus, porque Deus está no meio dela, e lhe assiste e assistirá em tôdas as ocasiões, e no tempo oportuno, como assistiu já ao seu povo outras vêzes, nas suas tribulações. — Pereira.

7As nações se conturbaram, e os reinos se humilharam: Deu a sua voz, moveu-se a terra.[3]Deu a sua voz / Moveu-se a terraDescrição figurada do milagroso socorro de Deus sem meios humanos. Sl 17, 3. — P. Scio. — Moveu-se a terra: O hebreu tem: "Tremeu a terra, e à voz dos seus trovões"; isto é, dos seus prodígios, e sinais da sua ira, ficaram hirtos de espanto os habitadores da terra. — P. Scio.

8O Senhor dos exércitos é conosco: Nosso amparador o Deus de Jacó.

9Vinde, e vêde as obras do Senhor, as maravilhas, que pôs sôbre a terra:

10Que aparta as guerras até à extremidade da terra. Quebrará o arco, e romperá as armas: E queimará ao fogo os escudos.[4]E queimará ao fogo os escudosA palavra hebraica significa pròpriamente uma coisa redonda; e daqui uns trasladam escudos, e outros rodas, e destas por Sinédoque entendem os carros. Esta profecia principiou a ter seu cumprimento quando se converteram à fé de Cristo os imperadores romanos, especialmente Constantino; quando arruinados os ídolos, e acabadas as perseguições, todo o mundo se fêz cristão. — P. Scio.

11Cessai, e vêde que eu sou o Deus: Serei exaltado entre as gentes, e serei exaltado na terra.

12O Senhor dos exércitos é conosco: Nosso amparador o Deus de Jacó.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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