Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 106

Salmo gratulatório. Louva-se neste salmo a Deus porque livra aos homens de todo o gênero de calamidades: entre estas se contam por principais o andar desencaminhado, o cativeiro, as enfermidades e as tempestades do mar.

Aleluia. (Jdt 13, 21.)[1]Êste salmoÊste salmo é o primeiro do livro quinto. Não tem título. O salmista depois de nos exortar a que louvemos o Senhor (1-3) descreve a maneira como Deus pune o pecador (4-9); 2.° livra os cativos (10-16); 3.° cura os doentes (17-22); 4.° salva os náufragos (23-32); 5.° sustenta todos os homens (33-38); 6.° protege todos os fracos (39-42). O versículo 43 é a conclusão. Êste salmo devia ter sido composto para a festa dos Tabernáculos depois do regresso do cativeiro. 1 Esdr 3, 4-5.

1Louvai ao Senhor porque é bom: Porque a sua misericórdia é eterna.

2Digam-no os que o Senhor tem redimido, os que tem redimido da mão do inimigo: E os que congregou dentre as nações.

3Do Oriente, e do Poente: do Aquilão, e do mar.[2]E do marE DO MAR — Tanto aqui como no Sl 88, 12 se deve entender por mar, o Meio-dia, pois que o mar Vermelho e o Oceano ficam ao Meio-dia da Palestina. — Pereira.

4Foram errando pelo deserto sem água: Não acharam caminho de cidade onde alojar-se.

5Padecendo fome, e sêde: A sua alma nêles desfaleceu.

6E clamaram ao Senhor quando se viam em angústia: E êle os livrou das suas necessidades.

7E os conduziu por caminho direito: Para que fossem à cidade de povoação.

8Glorifiquem ao Senhor as suas misericórdias: E as maravilhas que obrou a favor dos filhos dos homens.[3]Glorifiquem ao SenhorGLORIFIQUEM AO SENHOR — A palavra Confiteantur ou se deve tomar em sentido passivo, em lugar de Laudentur, ou é Apóstrofe, e Prosopopéia poética. Conheçam os homens as suas misericórdias, confessem os seus benefícios. — S. Jerônimo.

9Porque fartou a alma que estava vazia: E saciou de bens a alma faminta.

10Os que moravam em trevas, e na sombra da morte: Aprisionados em mendiguez, e em ferro.[4]Os que moravam em trevasOS QUE MORAVAM EM TREVAS E NA SOMBRA DA MORTE — Deve suprir-se aqui o verbo liberavit, livrou. — Pereira.

11Porque foram rebeldes às palavras de Deus: E desprezaram o conselho do Altíssimo.

12E foi humilhado o seu coração nos trabalhos: Ficaram sem forças, e não houve quem os socorresse.

13E clamaram ao Senhor quando se viram em angústia: E livrou-os de suas necessidades.

14E tirou-os das trevas, e da sombra da morte: Rompeu as suas cadeias.

15Glorifiquem ao Senhor as suas misericórdias: E as maravilhas que obrou a favor dos filhos dos homens.

16Porque arrombou as portas de bronze: E quebrou os ferrolhos de ferro.

17Êle os recebeu do caminho da sua maldade: Porque pelas suas injustiças foram humilhados.

18A alma dêles aborreceu tôda a comida: E chegaram até as portas da morte.

19E clamaram ao Senhor quando se viram em angústia: E livrou-os de suas necessidades.

20Enviou a sua palavra, e salvou-os: E livrou-os do que lhes era mortal.

21Glorifiquem ao Senhor as suas misericórdias: E as maravilhas que obrou a favor dos filhos dos homens:

22E lhe ofereçam sacrifício de louvor: E anunciem as suas obras com regozijo.

23Os que descem ao mar em naus para fazerem as suas manobras nas muitas águas.[5]Os que descemOS QUE DESCEM — Idiotismo hebreu, que corresponde a "os que estão sôbre o mar, pois que o navio flutua sôbre as águas."

24Êles mesmos viram as obras do Senhor, e as suas maravilhas no profundo.

25Disse, e levantou-se um vento de tempestade: E empolaram-se as suas ondas.

26Sobem até aos céus, e descem até aos abismos: A sua alma com os males se consumia.[6]SobemSOBEM, ETC. — Os que navegam, ou as ondas. — Pereira.

27Foram turbados, e titubearam como um temulento: E todo o seu saber foi apurado.[7]E todo o seu saberE TODO O SEU SABER — Êstes três versículos expressam vivamente a tempestade desta maneira: "Vê-se bem como a uma mínima insinuação do Senhor sopra impetuoso o vento, se altera e revolve o mar, se vai empolando por momentos e se acham os navegantes no meio de uma tormenta. A nau impelida pelas águas, umas vêzes se levanta até aos Céus e outras parece que se vai a precipitar nos abismos. Temem os navegantes um naufrágio inevitável, desmaiam, andam turbados de uma parte para outra, como se perdessem o tino, e sem saber que partido devem tomar naquele extremo em que se acham." — P. Scio.

28E clamaram ao Senhor quando se viram em angústia, e livrou-os das suas necessidades.

29E trocou a sua tempestade em vento suave e acalmaram as ondas do mar.

30E êles alegraram-se porque acalmou o mar: E conduziu-os ao pôrto que êles desejavam.

31Glorifiquem ao Senhor as suas misericórdias e as maravilhas que obrou a favor dos filhos dos homens.

32Exaltem-no na Congregação do Povo: E louvem-no no Consistório dos Anciãos.[8]Dos AnciãosDOS ANCIÃOS — Isto é, dos magistrados ou senadores, porque eram todos velhos.

33Mudou os rios em desertos: E os mananciais das águas em terra sedenta.

34A terra frutífera em mar salgado, pela malícia dos que habitavam nela.[9]Em mar salgadoEM MAR SALGADO — Assim sucedeu aos habitantes de Pentápolis. Gên 19. Pode também interpretar-se "em terreno estéril", como sucede em um campo que se semeia de sal. — P. Scio.

35Trocou o deserto em tanques de água: E a terra sem água em mananciais de água.

36E estabeleceu ali aos famintos: E fundaram cidade para povoá-la.[10]Para povoá-laPARA POVOÁ-LA — Povoaram a cidade de Jerusalém e também outras muitas aldeias e cidades, que edificaram para viverem ali em sociedades e formando vários corpos. — P. Scio.

37E semearam os campos e plantaram vinhas: E deram fruto nativo.

38E abençoou-os, e se multiplicaram em extremo: e não diminuiu o número dos seus animais.

39E foram depois reduzidos a poucos: E se viram quebrantados pela fôrça dos males, e com a dor.

40Caiu o desprêzo sôbre os príncipes: E os fêz andar errando fora do caminho, e por onde o não havia.

41E aliviou o pobre da sua miséria: E multiplicou as famílias como ovelhas.

42Vê-lo-ão os retos, e alegrar-se-ão: E tôda a maldade fechará a sua bôca.

43Quem é sábio e guardará estas coisas? E compreenderá as misericórdias do Senhor?

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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