Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 90

Salmo didático. Exorta o salmista a que ponhamos tôda a nossa esperança no Senhor, porque estão livres de todo o perigo aquêles que Deus toma por sua conta. Louvor de cântico de Davi.

Louvor de cântico de Davi.[1]Êste títuloÊste título não está no original. Deve ter sido composto por ocasião da peste, pela qual Deus puniu o recenseamento de Israel, feito por Davi. 2 Rs 24, 15-17. Cfr. Sl 3, 6-7. Há neste salmo uma particularidade notável, é a freqüente mudança de pessoas. Esta mudança explica-se com facilidade, se, com J. D. Michaelis, se supuser dois coros cantando alternadamente: o primeiro côro os vv. 1 e 2, depois o primeiro hemistíquio do v. 9 e os versículos seguintes, até ao v. 14, em que intervém o próprio Deus e fala até ao fim.

1O que habita à sombra do Altíssimo, na proteção do Deus do céu descansará.[2]Na proteçãoNA PROTEÇÃO — O hebreu diz: "no esconderijo," debaixo do amparo: o mesmo hebreu, em lugar de commorabitur, diz "pernoitarás". — P. Scio.

2Dirá ao Senhor: Tu és o meu amparador, e o meu refúgio: É o meu Deus, nêle esperarei.

3Porque êle me livrou do laço dos caçadores, e da palavra áspera.[3]Palavra ásperaPALAVRA ÁSPERA — Verbum asperum é um idiotismo hebraico, e significa o mesmo que "negócio adverso" como "calúnia, morte aleivosa, peste" ou qualquer outro mal ou perigo. — Pereira.

4Com as suas espáduas te fará sombra: E debaixo das suas asas esperarás.

5Com escudo te cercará a sua verdade: Não terás temor de espanto noturno.

6De seta que voa de dia, de nenhuma coisa que ande em trevas: De assalto, nem de demónio do meio-dia.[4]Demónio do meio-diaDEMÓNIO DO MEIO-DIA — Os orientais representam a peste sob a forma dum espírito mau, que exerce a sua maléfica ação de dia e de noite, escolhendo a hora da sesta, em que todos estão em repouso para colhêr as suas prêsas. Entre os gregos e latinos vigoraram as mesmas idéias; e alguns autores entendem que prevaleceram também entre os judeus, justificando assim esta expressão dos Setenta e a Vulgata. Na verdade, o texto hebreu só fala da peste e contágio; porém a paráfrase caldaica, Áquila, Symmaco e a versão siríaca fazem menção expressa do demónio do meio-dia.

7Cairão mil ao teu lado, e dez mil à tua destra: Mas a ti não se chegará.

8Certamente com os teus olhos contemplarás: Verás a paga dos pecadores.

9Porque tu és, Senhor, a minha esperança: Puseste por teu refúgio ao Altíssimo:[5]Puseste por teu refúgioPUSESTE POR TEU REFÚGIO — Na versão aplicamos o refugium tuum em sentido passivo, pondo estas palavras na bôca do Profeta, que fala com o justo. Outros as expõem de modo que manifestam um sentido ativo, na bôca do justo que fala com o Senhor: "Puseste muito alto o teu refúgio." — Pereira.

10Não se chegará a ti mal: E o flagelo não se aproximará à tua tenda.

11Porquanto mandou aos Anjos acêrca de ti: Que te guardem em todos os teus caminhos.

12Êles te levarão nas suas mãos: Para que não suceda que o teu pé tropece em pedra.

13Sôbre o áspide, e basilisco andarás: E pisarás ao leão e ao dragão.[6]BasiliscoBASILISCO — Serpente muito venenosa.

14Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei: Protegê-lo-ei, porquanto conheceu o meu Nome.

15Clamará a mim, e eu o ouvirei, com êle estou na tribulação: Livrá-lo-ei, e glorificá-lo-ei.

16Saciá-lo-ei com diuturnidade de dias: E mostrar-lhe-ei o meu Salvador.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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