Capítulo 90
Louvor de cântico de Davi.[1]Êste título — Êste título não está no original. Deve ter sido composto por ocasião da peste, pela qual Deus puniu o recenseamento de Israel, feito por Davi. 2 Rs 24, 15-17. Cfr. Sl 3, 6-7. Há neste salmo uma particularidade notável, é a freqüente mudança de pessoas. Esta mudança explica-se com facilidade, se, com J. D. Michaelis, se supuser dois coros cantando alternadamente: o primeiro côro os vv. 1 e 2, depois o primeiro hemistíquio do v. 9 e os versículos seguintes, até ao v. 14, em que intervém o próprio Deus e fala até ao fim.
1O que habita à sombra do Altíssimo, na proteção do Deus do céu descansará.[2]Na proteção — NA PROTEÇÃO — O hebreu diz: "no esconderijo," debaixo do amparo: o mesmo hebreu, em lugar de commorabitur, diz "pernoitarás". — P. Scio.
2Dirá ao Senhor: Tu és o meu amparador, e o meu refúgio: É o meu Deus, nêle esperarei.
3Porque êle me livrou do laço dos caçadores, e da palavra áspera.[3]Palavra áspera — PALAVRA ÁSPERA — Verbum asperum é um idiotismo hebraico, e significa o mesmo que "negócio adverso" como "calúnia, morte aleivosa, peste" ou qualquer outro mal ou perigo. — Pereira.
4Com as suas espáduas te fará sombra: E debaixo das suas asas esperarás.
5Com escudo te cercará a sua verdade: Não terás temor de espanto noturno.
6De seta que voa de dia, de nenhuma coisa que ande em trevas: De assalto, nem de demónio do meio-dia.[4]Demónio do meio-dia — DEMÓNIO DO MEIO-DIA — Os orientais representam a peste sob a forma dum espírito mau, que exerce a sua maléfica ação de dia e de noite, escolhendo a hora da sesta, em que todos estão em repouso para colhêr as suas prêsas. Entre os gregos e latinos vigoraram as mesmas idéias; e alguns autores entendem que prevaleceram também entre os judeus, justificando assim esta expressão dos Setenta e a Vulgata. Na verdade, o texto hebreu só fala da peste e contágio; porém a paráfrase caldaica, Áquila, Symmaco e a versão siríaca fazem menção expressa do demónio do meio-dia.
7Cairão mil ao teu lado, e dez mil à tua destra: Mas a ti não se chegará.
8Certamente com os teus olhos contemplarás: Verás a paga dos pecadores.
9Porque tu és, Senhor, a minha esperança: Puseste por teu refúgio ao Altíssimo:[5]Puseste por teu refúgio — PUSESTE POR TEU REFÚGIO — Na versão aplicamos o refugium tuum em sentido passivo, pondo estas palavras na bôca do Profeta, que fala com o justo. Outros as expõem de modo que manifestam um sentido ativo, na bôca do justo que fala com o Senhor: "Puseste muito alto o teu refúgio." — Pereira.
10Não se chegará a ti mal: E o flagelo não se aproximará à tua tenda.
11Porquanto mandou aos Anjos acêrca de ti: Que te guardem em todos os teus caminhos.
12Êles te levarão nas suas mãos: Para que não suceda que o teu pé tropece em pedra.
13Sôbre o áspide, e basilisco andarás: E pisarás ao leão e ao dragão.[6]Basilisco — BASILISCO — Serpente muito venenosa.
14Porquanto em mim esperou, livrá-lo-ei: Protegê-lo-ei, porquanto conheceu o meu Nome.
15Clamará a mim, e eu o ouvirei, com êle estou na tribulação: Livrá-lo-ei, e glorificá-lo-ei.
16Saciá-lo-ei com diuturnidade de dias: E mostrar-lhe-ei o meu Salvador.