Capítulo 48
1Ao regente do côro, aos filhos de Coré, salmo.[1]Salmo — Êste salmo começa por uma espécie de preâmbulo e compreende duas estrofes (9-12) (14-20) terminadas ambas por um estribilho (13). Muitos versículos são obscuros.
2Ouvi isto, tôdas as gentes: Percebei-o nos ouvidos todos os que povoais a terra:
3Assim os nascidos de plebeus, como de homens ilustres: À uma juntamente o rico e o pobre.
4A minha bôca falará sabedoria: E a meditação do meu coração prudência.
5Inclinarei à parábola o meu ouvido: Exporei com o saltério a minha proposição.[2]A minha proposição — O hebreu tem: O meu enigma; isto é, um discurso cheio de graves sentenças, ou coisas que não são atingíveis.
6Por que temerei eu no dia mau? A iniquidade do meu calcanhar me terá cercado.[3]A iniquidade do meu calcanhar — Isto é, o fim da minha vida, a maldade em que morrerei: ou a iniquidade de meus passos e das minhas obras será a que me cercará por todos os lados, e me fará réu ante o tribunal do justo juiz. — Pereira.
7Aos que confiam nas suas forças: E se gloriam na multidão das suas riquezas.[4]Aos que confiam — Quer dizer: Assim também a iniquidade rodeará aos que confiam nas suas fôrças. Outros com Calmet e Genebrardo, o explicam por apóstrofe e como aviso aos ricos e poderosos da terra.
8O irmão não resgata, não resgatará o homem: Não dará a Deus a sua propiciação.[5]O irmão não resgata — Se se ler sem interrogação, a negação do primeiro membro se há de suprir no segundo: Frater non redimit, non redimet homo? mas não é necessário sempre que se vir a nota de interrogação; dêste modo frater non redimit, redimet homo? O hebreu diz: Nenhum, por mais rico que seja, resgatando resgatará, de nenhum modo poderá livrar da morte ao irmão, nem dará a Deus o seu resgate... Nenhum o poderá fazer, nem para si nem para outro. — P. Scio.
9Nem o preço do resgate da sua alma: E estará em trabalho eternamente.
10E viverá não obstante até ao fim.[6]E viverá não obstante — Porque a redenção da sua alma é de grande preço, e não se fará jamais; de modo que viva por diante para sempre, e não veja a sepultura. Outros expõem isso em diversos modos: Tão longe estará de poder resgatar a sua vida à fôrça de dinheiro, que pelo contrário virá a cair no inferno, para viver ali eternamente padecendo. Quer dizer o profeta que se o homem enquanto lhe dura esta vida não procura empregá-la em aplacar a divina justiça com o exercício das boas obras, vindo a morte, nenhum poder humano, nem tôdas as riquezas do mundo bastarão para livrar a sua alma das penas em que incorreu pelas suas culpas. — P. Scio.
11Não verá a morte, quando vir morrer os sábios: Igualmente o insensato, e o néscio perecerão. E deixarão aos estranhos as suas riquezas:[7]Não verá a morte — Tôda a obscuridade dêste versículo cessa lendo-se com interrogação, em cujo caso é uma comparação de maior a menor: Non videbit interitum, cum viderit sapientes morientes? O hebreu segue êste sentido: Porque o verá, a sepultura: os sábios morrerão: juntamente o néscio e o ignorante perecerão. Os sábios, os pios, e os virtuosos morrerão, porque esta é uma lei comum para todos os homens: porém os sábios morrerão para tornar a viver sempre felizes; mas os néscios, ímpios, e pecadores morrerão, porém morrerão uma vez, para perecer eternamente. — P. Scio.
12E os seus sepulcros serão as suas casas para sempre. Sua morada no decurso de tôdas as gerações: Para aquêles que deram os seus nomes às suas terras.[8]Que deram os seus nomes às suas terras — Isto é: Os que pretenderam imortalizar a sua memória, denominando as suas terras com os seus nomes; ou, segundo outros, os que pretenderam com os seus sepulcros conservar no mundo ou à sua posteridade a memória dos seus nomes. — Sacy.
13E o homem, quando estava na honra, não o entendeu: Foi comparado aos brutos irracionais, e se fêz semelhante a êles.[9]E se fêz semelhante a êles — O homem criado à semelhança de Deus não entendeu esta condição da sua nobreza, e se degradou pelo amor às coisas sensíveis, até fazer-se em grande parte semelhante aos brutos. Também pode expor-se dêste modo: O homem quando se vê em elevação, e em postos altos se esquece fàcilmente da sua miséria; não considera no que o espera depois desta vida, nem quer entender o que é justo, e conforme a razão para o praticar; antes revestindo-se de costumes ferinos, não segue outra lei, que a que lhe dita o seu apetite, e a sua paixão. Ecl 3, 19. — P. Scio.
14Êste caminho dêles lhes serve de ruína: E depois na sua bôca se comprazerão.
15Como ovelhas são postos no inferno: E êles serão pasto da morte. E os justos terão domínio sôbre êles na manhã: E passada a sua glória tudo o que tiveram se envelhecerá no inferno.[10]Na manhã — Os Santos Padres, Jerônimo, Agostinho, Crisóstomo, e Teodoreto, entendem aqui por manhã a ressurreição universal. — Calmet.
16Mas Deus na verdade resgatará a minha alma do poder do inferno, quando me tomar.[11]Quando me tomar — Ou me chamar a si por meio da morte. — Pereira.
17Não te dê cuidado quando o homem se enriquecer: E quando se acrescentar a glória da sua casa.
18Porque em morrendo nada levará êle consigo: E nem a sua glória descerá com êle.
19Porque enquanto êle vive será louvada a sua alma: Confessar-te-á quando lhe fizeres bem.[12]Será louvada a sua alma — A sua alma se toma aqui pela sua pessoa. Êste se glorificará, quando lhe dês riquezas, porque são o objeto único dos seus desejos. Muitos intérpretes expõem êste lugar como uma apóstrofe que repentinamente faz a Deus o profeta. Te louvará o Senhor, pelo seu próprio interêsse, quando lhe fizeres bem; mas depois que isto cessar se esquecerá de ti eternamente. — P. Scio.
20Entrará no lugar da morada de seus pais e não verá jamais a luz.
21O homem, quando estava na honra, não o entendeu: Foi comparado aos brutos irracionais, e se fêz semelhante a êles.