Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 48

Salmo didático. Convida o salmista a todos os mortais, para que apliquem a sua atenção ao cotejo que faz da vã confiança que põem os pecadores no próprio poder, e riquezas, com a esperança que êle, e todos os verdadeiros fiéis põem em Deus. Fortifica aos justos contra a tentação que se excita ao ver em prosperidade aos pecadores.

1Ao regente do côro, aos filhos de Coré, salmo.[1]SalmoÊste salmo começa por uma espécie de preâmbulo e compreende duas estrofes (9-12) (14-20) terminadas ambas por um estribilho (13). Muitos versículos são obscuros.

2Ouvi isto, tôdas as gentes: Percebei-o nos ouvidos todos os que povoais a terra:

3Assim os nascidos de plebeus, como de homens ilustres: À uma juntamente o rico e o pobre.

4A minha bôca falará sabedoria: E a meditação do meu coração prudência.

5Inclinarei à parábola o meu ouvido: Exporei com o saltério a minha proposição.[2]A minha proposiçãoO hebreu tem: O meu enigma; isto é, um discurso cheio de graves sentenças, ou coisas que não são atingíveis.

6Por que temerei eu no dia mau? A iniquidade do meu calcanhar me terá cercado.[3]A iniquidade do meu calcanharIsto é, o fim da minha vida, a maldade em que morrerei: ou a iniquidade de meus passos e das minhas obras será a que me cercará por todos os lados, e me fará réu ante o tribunal do justo juiz. — Pereira.

7Aos que confiam nas suas forças: E se gloriam na multidão das suas riquezas.[4]Aos que confiamQuer dizer: Assim também a iniquidade rodeará aos que confiam nas suas fôrças. Outros com Calmet e Genebrardo, o explicam por apóstrofe e como aviso aos ricos e poderosos da terra.

8O irmão não resgata, não resgatará o homem: Não dará a Deus a sua propiciação.[5]O irmão não resgataSe se ler sem interrogação, a negação do primeiro membro se há de suprir no segundo: Frater non redimit, non redimet homo? mas não é necessário sempre que se vir a nota de interrogação; dêste modo frater non redimit, redimet homo? O hebreu diz: Nenhum, por mais rico que seja, resgatando resgatará, de nenhum modo poderá livrar da morte ao irmão, nem dará a Deus o seu resgate... Nenhum o poderá fazer, nem para si nem para outro. — P. Scio.

9Nem o preço do resgate da sua alma: E estará em trabalho eternamente.

10E viverá não obstante até ao fim.[6]E viverá não obstantePorque a redenção da sua alma é de grande preço, e não se fará jamais; de modo que viva por diante para sempre, e não veja a sepultura. Outros expõem isso em diversos modos: Tão longe estará de poder resgatar a sua vida à fôrça de dinheiro, que pelo contrário virá a cair no inferno, para viver ali eternamente padecendo. Quer dizer o profeta que se o homem enquanto lhe dura esta vida não procura empregá-la em aplacar a divina justiça com o exercício das boas obras, vindo a morte, nenhum poder humano, nem tôdas as riquezas do mundo bastarão para livrar a sua alma das penas em que incorreu pelas suas culpas. — P. Scio.

11Não verá a morte, quando vir morrer os sábios: Igualmente o insensato, e o néscio perecerão. E deixarão aos estranhos as suas riquezas:[7]Não verá a morteTôda a obscuridade dêste versículo cessa lendo-se com interrogação, em cujo caso é uma comparação de maior a menor: Non videbit interitum, cum viderit sapientes morientes? O hebreu segue êste sentido: Porque o verá, a sepultura: os sábios morrerão: juntamente o néscio e o ignorante perecerão. Os sábios, os pios, e os virtuosos morrerão, porque esta é uma lei comum para todos os homens: porém os sábios morrerão para tornar a viver sempre felizes; mas os néscios, ímpios, e pecadores morrerão, porém morrerão uma vez, para perecer eternamente. — P. Scio.

12E os seus sepulcros serão as suas casas para sempre. Sua morada no decurso de tôdas as gerações: Para aquêles que deram os seus nomes às suas terras.[8]Que deram os seus nomes às suas terrasIsto é: Os que pretenderam imortalizar a sua memória, denominando as suas terras com os seus nomes; ou, segundo outros, os que pretenderam com os seus sepulcros conservar no mundo ou à sua posteridade a memória dos seus nomes. — Sacy.

13E o homem, quando estava na honra, não o entendeu: Foi comparado aos brutos irracionais, e se fêz semelhante a êles.[9]E se fêz semelhante a êlesO homem criado à semelhança de Deus não entendeu esta condição da sua nobreza, e se degradou pelo amor às coisas sensíveis, até fazer-se em grande parte semelhante aos brutos. Também pode expor-se dêste modo: O homem quando se vê em elevação, e em postos altos se esquece fàcilmente da sua miséria; não considera no que o espera depois desta vida, nem quer entender o que é justo, e conforme a razão para o praticar; antes revestindo-se de costumes ferinos, não segue outra lei, que a que lhe dita o seu apetite, e a sua paixão. Ecl 3, 19. — P. Scio.

14Êste caminho dêles lhes serve de ruína: E depois na sua bôca se comprazerão.

15Como ovelhas são postos no inferno: E êles serão pasto da morte. E os justos terão domínio sôbre êles na manhã: E passada a sua glória tudo o que tiveram se envelhecerá no inferno.[10]Na manhãOs Santos Padres, Jerônimo, Agostinho, Crisóstomo, e Teodoreto, entendem aqui por manhã a ressurreição universal. — Calmet.

16Mas Deus na verdade resgatará a minha alma do poder do inferno, quando me tomar.[11]Quando me tomarOu me chamar a si por meio da morte. — Pereira.

17Não te dê cuidado quando o homem se enriquecer: E quando se acrescentar a glória da sua casa.

18Porque em morrendo nada levará êle consigo: E nem a sua glória descerá com êle.

19Porque enquanto êle vive será louvada a sua alma: Confessar-te-á quando lhe fizeres bem.[12]Será louvada a sua almaA sua alma se toma aqui pela sua pessoa. Êste se glorificará, quando lhe dês riquezas, porque são o objeto único dos seus desejos. Muitos intérpretes expõem êste lugar como uma apóstrofe que repentinamente faz a Deus o profeta. Te louvará o Senhor, pelo seu próprio interêsse, quando lhe fizeres bem; mas depois que isto cessar se esquecerá de ti eternamente. — P. Scio.

20Entrará no lugar da morada de seus pais e não verá jamais a luz.

21O homem, quando estava na honra, não o entendeu: Foi comparado aos brutos irracionais, e se fêz semelhante a êles.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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