Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 119

Salmo deprecatório. Reconhece o socorro dispensado por Deus, a quem roga o livre das fraudes, calúnias e crueldades de seus inimigos.

1Cântico gradual.
Quando me via atribulado clamei ao Senhor:
E êle me atendeu.[1]Cântico gradualCÂNTICO GRADUAL — Êstes quinze salmos, que se seguem, costumam-se chamar Graduais, porque todos no título se chamam Cântico gradual. A dificuldade está em descobrir a razão dêste título. A opinião comum tem que êstes salmos se chamam Graduais, porque se cantavam ao subir os degraus do templo, que se crê que eram com efeito quinze, segundo se colige de José. Êste é o sentir de Bossuet e do padre Houbigant. Quanto ao autor, ou autores dêstes salmos, S. João Crisóstomo e Teodoreto não duvidam atribui-los todos, ou quase todos a Davi, que com espírito profético predissesse nêles o que dali a quatrocentos e mais anos havia de acontecer ao povo israelítico, cativo primeiro em Babilónia, e depois restituído gloriosamente à pátria. E com efeito o hebreu nomeia a Davi por autor dos salmos 121, 123, 131. A Vulgata atribui a Salomão o salmo 126, e a Davi os salmos 130, e 132. Isto não obstante, Calmet sustenta que todos êles foram compostos pelos Judeus, cativos em Babilónia, porque assim o está persuadindo o assunto, e mais circunstâncias dos mesmos salmos. Vigouroux parece inclinar-se a que o autor fôsse contemporâneo de Esdras. O estilo dêstes salmos, nota o mesmo Calmet, é vivo e elegante, cheio de belas figuras, ou imagens e duma brevidade como de epigramas sagrados. Tem três estrofes.

2Senhor, livra a minha alma de lábios iníquos, e de língua enganadora.

3Que te será dado, ou que te será acrescentado pela tua língua enganadora?[2]Pela tua línguaPELA TUA LÍNGUA — Entre muitas exposições e sentidos que se dão a êstes dois versículos, escolhemos o que nos pareceu mais conforme ao que nos diz S. Tiago 3, 6. O hebreu diz: "Que te dará a ti, ou que te acrescentará a língua enganadora?" apóstrofe ao caluniador.

4Setas de valoroso agudas como carvões devoradores.[3]SetasSETAS — É resposta à pergunta: Sabe que a tua língua é mentirosa e semelhante às flechas, etc. — Pereira. COMO CARVÕES — Em lugar do que lemos na Vulgata, cum carbonibus desolatoriis, traz o hebreu cum carbonibus juniperorum, com carvões de juníperos; os quais, como nota S. Jerônimo na carta a Fabíola, por serem de uma matéria mui resinosa, fazem um fogo ardentíssimo.

5Ai de mim, que o meu desterro se prolongou:
Habitei com os moradores de Cedar:[4]Com os moradores de CedarCOM OS MORADORES DE CEDAR — O hebreu diz aqui, "eu vivi como estrangeiro em Mesec, e habitei nas tendas de Cedar." O caldeu entende por Mesec os asiáticos, e por Cedar os árabes. Calmet julga que Mesec é o mesmo país a que Moisés chama Mosoc, Gên 10, 2, que são os montes que separam a Ibéria da Arménia e uma e outra da Cólchida; e todos convêm que por Mesec e Cedar, denota o salmista dois confins do Império babilónico de Nabucodonosor. Êste nome veio de Cedar, filho de Ismael (Gên 25, 13), mais tarde foi conhecido por países sarracenos.

6Muito tempo foi peregrina a minha alma.

7Com os que aborreciam a paz era pacífico:
Quando lhes falava êles me contradiziam sem razão.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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