Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 57

Salmo didático. Lamenta-se Davi neste salmo pelas injustiças dos conselheiros, e cortesãos de Saul: roga ao Senhor que os confunda, para que os justos se consolem, e tenham matéria de lhe dar graças.

Ao regente do côro.

1Al'thaschekcheth de Davi Miktham.[1]AL'THASCHEKCHETHÉ esta a segunda palavra do salmo no original, que a Vulgata traduziu Ne disperdas, a que corresponde, segundo o P. Pereira, o têrmo português não destruas. Não se conhece a significação dêste têrmo; sabe-se porém, segundo as melhores opiniões, que é o nome dum cântico. A linguagem dêste salmo é viva, as imagens mais freqüentes do que nos outros. Tem quatro estrofes. Primeira (2-3) Apóstrofe aos juízes que violam o direito. Segunda (4-6) Quadro dos maus, que o são como a víbora que oculta o seu veneno; e como o áspide insensível à voz do encantador. Terceira (7-10) Oração a Deus, para que sejam aniquilados como animais perigosos. Quarta (11-12) E que o justo triunfe das perseguições.

2Se verdadeiramente falais justiça: Julgai com retidão, ó filhos dos homens.[2]JULGAI COM RETIDÃOO hebreu com maior ênfase e veemência: Porventura: ó consistório de verdade, pronunciais justiça? filhos de Adão, julgais retamente? Dirige o seu discurso aos conselheiros, e cortesãos de Saul, como se dissera: Por que blasonais, e vos prezais tanto de justiceiros, trazendo de contínuo vãmente o nome de justiça na vossa bôca, e desmentindo a cada passo as vossas palavras com a injustiça de vossas obras? Non sit justitia labiorum, sed factorum. — P. Scio.

3Porquanto obrais maldades no coração: Às vossas mãos tramam injustiças na terra.

4Os pecadores desde a sua origem se alienaram, erraram desde que saíram do ventre de sua mãe: Falaram falsidades.

5O furor dêles é semelhante ao da serpente: Como o de áspide surdo, e que fecha os seus ouvidos.[3]SURDO, E QUE FECHA OS SEUS OUVIDOSTudo o que o salmista diz neste verso, e no seguinte, sôbre o taparem as serpentes as orelhas, à primeira voz que ouvem do encantador, e sôbre os artifícios de que êste se vale para as encantar se deve entender num sentido popular, e segundo as opiniões que então corriam, e ainda hoje correm entre o comum dos homens, sem que daqui precisamente se possa tirar como indubitável, nem que a natureza desse às serpentes o instinto de taparem as orelhas, nem que caiba nas fôrças naturais do homem podê-las encantar, e muito menos que seja lícito o uso da arte mágica. Porque os escritores sagrados, ainda que cheios de luz sobrenatural, e infalível pelo que toca aos mistérios da religião, à doutrina dos costumes, e à narração dos fatos históricos por êles atestados, nas matérias contudo que concernem a natureza física das coisas, nas comparações, nos modos de falar, costumam ordinàriamente explicar-se por têrmos populares, supondo até as preocupações, e falsas crenças do vulgo, para se acomodarem à capacidade e luzes de cada um. Dêste assunto é digníssima de se ler a Dissertação de Calmet, que tem por título: Sôbre os encantamentos das serpentes, de que se fala no salmo 57. — Pereira.

6Que não ouvirá a voz de encantadores: Nem a de mago que encanta segundo a sua arte.

7Deus lhes quebrará os dentes na sua bôca: Os queixos dos leões quebrará o Senhor.

8Reduzir-se-ão ao nada como água que corre: Entesou o seu arco até que sejam abatidos.[4]ATÉ QUE SEJAM ABATIDOSO hebreu diz: "Arroje Deus as suas setas, e em um instante sejam cortadas:" ou sejam como se houvessem sido decepados: "caminhem como caracol que se desfaz:" passem dêste mundo: "como o abôrto de uma mulher, não vejam o sol." — P. Scio.

9Serão destruídos como a cera que se derrete: Caiu fogo de cima, e não viram o sol.[5]CAIU FOGO DE CIMAVenha sôbre vós o fogo da vingança divina, que vos prive do uso da luz comum a todos os viventes como priva a um abôrto. — Calmet.

10Antes que os vossos espinhos se vejam feitos arbustos: Assim êle os devorará como ainda vivos.[6]ANTES QUE OS VOSSOS ESPINHOSOs ímpios, que desde o vosso nascimento sois nocivos como os espinhos. Deus vos destrua com tempo antes que cresça, e se fortifique a vossa malícia, à maneira do verde e tenro espinho, que por último vem a crescer, e formar-se arbusto, endurecendo-se, e armando-se de duros e agudos espinhos com que se fere, e atravessa a mão que se lhe chega, ou o toca. — S. Jerônimo.

11Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança: As suas mãos lavará no sangue do pecador.

12E dirá o homem: Se de certo há fruto para o justo: De certo há Deus que os julga sôbre a terra.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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