Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

Salmo histórico, e moral. As faustas aclamações do povo com o rei, ao trasladar-se a Arca da casa de Obededom para o Tabernáculo de Sião, em figura do triunfo da Ascensão ao Céu.

1Para o primeiro dia da semana, Salmo de Davi. Do Senhor é a terra, e tudo o que a enche: A redondeza da terra, e todos os seus habitadores.[1]Para o primeiro dia da semanaEstas palavras não estão no original hebraico, foram acrescentadas pelos Setenta. Êste Salmo, no entender de S. Agostinho e S. Atanásio, foi composto para celebrar o primeiro dia da criação do Universo. Os rabinos Kimche e Aben-Esra afirmam que foi composto em consequência da revelação que Deus se dignou fazer a Davi, pela voz do profeta Natan, do sítio em que êle queria que sôbre o monte Sion se lhe edificasse o templo em que devia ser adorado. Du Pin e Bossuet inclinam-se a que êste Salmo foi composto quando se transferia a Arca da Aliança. 2 Rs 6, 17. O contexto mostra que é um cântico de alegria, e que o seu fim é inspirar o respeito, que devemos a Deus, e a pureza do coração com que cumpre nos apresentemos em o seu templo. Êste Salmo toma-se como o cântico de entrada do Messias no templo, Mal 3, 1. Os Padres aplicaram-no à Ascensão e a Igreja à entrada de Jesus em Jerusalém. Herder supõe que era cantado parte pelo povo e parte por vozes em separado. Herder, Histoire de la poesie des Hébreux.

2Porque êle a fundou sôbre os mares: E a estabeleceu sôbre os rios.[2]Sôbre os maresAssim mais adiante, "sôbre os rios" e em ambos os lugares quer dizer o salmista que Deus fundara a terra superior aos mares, e aos rios, pelos altos montes, e despenhadas serranias, de que cercou as águas, para com estas, como fortalezas, que lhes impôs, coibir a sua fúria. — Bossuet.

3Quem subirá ao monte do Senhor? Ou quem estará no seu santo lugar?

4O inocente de mãos e limpo de coração, o que não recebeu em vão a sua alma, nem fêz juramentos dolosos ao seu próximo.[3]O que não recebeu em vão a sua almaO que não julgou falso contra a sua alma. — Bossuet.

5Êste receberá a bênção do Senhor: E a misericórdia de Deus seu salvador.

6Esta é a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó.

7Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória.

8Quem é êste rei da glória? O Senhor forte e poderoso: O Senhor poderoso na batalha.

9Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória.

10Quem é êste rei da glória? O Senhor das virtudes, êsse é o rei da glória.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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