Capítulo 77
1Salmo didático, de Asaf.
Escutai a minha lei, povo meu, inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha bôca.[1]Salmo didático — Êste salmo é um resumo da história do povo de Deus, para servir de lição a Israel, para que mais se afervorem na fidelidade ao Senhor. Tem dezoito estrofes.
2Abrirei em parábolas a minha bôca: Falarei coisas ocultas desde o princípio.[2]Coisas ocultas — COISAS OCULTAS — É o sentido do hebreu e da versão dos Setenta, e foi êste o que lhe deu também Jesus Cristo. (Mt 13, 35). Estas coisas ocultas são os mistérios do Evangelho, o conhecimento das verdades da salvação, que só foram reveladas depois da vinda de Cristo. Rom 16, 25. 26. 1 Cor 2, 7; Col 1, 6-27.
3Quantas coisas ouvimos, e as temos entendido: E nô-las contaram nossos pais.
4Êles não as ocultaram a seus filhos, nem à seguinte geração.
Contando os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que êle obrou.
5Estabeleceu testemunho em Jacó: E pôs lei em Israel.
As quais coisas mandou êle a nossos pais que fizessem conhecer a seus filhos:
6Para que as soubesse a geração seguinte.
Os filhos que hão de nascer, e se hão de levantar, o contarão também a seus filhos,
7para que ponham em Deus a sua esperança, e não se esqueçam das obras de Deus: E busquem com cuidado os seus mandamentos.
8Não se façam como seus pais, geração má e rebelde.
Geração que não encaminhou reto o seu coração: Nem o seu espírito foi leal com Deus.
9Os filhos de Efraim, destros em entesar o arco e em despedir dêle as flechas, voltaram as costas no dia da batalha.
10Não guardaram a aliança feita com Deus: E não quiseram andar na sua lei.
11E se esqueceram dos seus benefícios, e das suas maravilhas que obrou à vista dêles.
12Diante de seus pais fêz maravilhas na terra do Egito, no campo de Tanis.[3]Maravilhas — MARAVILHAS — Alusão às pragas do Egito. TANIS — Situada no Delta, era no tempo do Êxodo a residência de Faraó. Núm 13, 23.
13Dividiu o mar, e por êle os fêz passar: E recolheu as águas como em odre.
14E os conduziu de dia, por uma nuvem: E tôda a noite com resplendor de fogo.
15Fendeu a pedra no ermo: E deu-lhes a beber águas como em um grande abismo.[4]Grande abismo — GRANDE ABISMO — Hipérbole que designa a abundância de água que brotou do rochedo.
16E tirou água da pedra: E fêz correr as águas como rios.
17E tornaram ainda a pecar contra êle: Moveram a ira do Altíssimo num lugar sem água.
18E tentaram a Deus nos seus corações: Pedindo iguarias que fossem do seu gôsto.
19E falaram mal de Deus. Disseram: Porventura poderá Deus preparar uma mesa no deserto?
20Porque feriu a pedra, e correram águas, e as torrentes inundaram.
Porventura poderá também dar pão, ou aparelhar mesa para o seu povo?[5]Pão — PÃO — O sustento em geral.
21Portanto ouviu o Senhor, e deferiu: E um fogo se incendeu contra Jacó, e cresceu a ira contra Israel.[6]Ouviu o Senhor e deferiu — OUVIU O SENHOR E DEFERIU — O cumprimento de promessa, que consistia no ingresso na terra prometida.
22Porque não creram em Deus, nem esperaram na salvação dêle.
23E mandou às nuvens de cima, e abriu as portas do céu.
24E lhes choveu o maná para comer, e lhes deu pão do céu.
25Pão dos anjos comeu o homem: E lhes enviou manjares em abundância.
26Retirou do céu o Austro: E pela sua virtude fêz mover o Áfrico.[7]Austro, e Áfrico — AUSTRO, E ÁFRICO — Vento norte e sul.
27E choveu sôbre êles carnes como pó: e as aves de asas como as areias do mar.
28E caíram no meio dos seus alojamentos: Em roda das suas tendas.
29E comeram e fartaram-se muito, e cumpriu-lhes o seu desejo.
30Não ficaram defraudados do que apeteceram.
Ainda estavam as suas iguarias na bôca dêles:
31Quando a ira de Deus se elevou sôbre êles.
E matou os poderosos dêles, e derribou os escolhidos de Israel.
32Sôbre tudo isto pecaram ainda: E não creram nas suas maravilhas.
33E passaram os seus dias em coisas vãs: E os seus anos com grande fadiga.
34Quando os fazia morrer, o buscavam: E se convertiam, e ao amanhecer vinham a êle.
35Lembraram-se que Deus é seu ajudador: E que o Deus excelso é seu Redentor.
36Amaram-no com a sua bôca, e com a sua língua lhe mentiram:
37Mas o seu coração não era reto com êle: Nem se mantiveram leais na sua aliança.
38Mas êle é misericordioso, e perdoará os seus pecados: E não os destruirá.
E êle deteve muitas vêzes a sua ira: E não acendeu contra êles todo o seu furor.
39E lembrou-se que são carne: Sôpro que passa, e não torna.[8]Sôpro — SÔPRO — O vento. A vida é como o vento, passa depressa.
40Quantas vêzes o irritaram no deserto, o moveram à ira no lugar sem água?
41E voltaram, e tentaram a Deus: E exacerbaram ao Santo de Israel.
42Não se lembraram do seu poder, no dia que os redimiu do jugo do opressor.
43De como fêz resplandecer no Egito os seus sinais, e os seus prodígios no campo de Tanis.
44E converteu em sangue os seus rios, e as suas águas, para que não bebessem delas.[9]Seus rios — SEUS RIOS — Isto é, os rios dos egípcios.
45Enviou sôbre êles todo o gênero de moscas, que os comeram: E rãs, que os destruíram.
46E entregou os seus frutos à alfôrra: E as suas searas aos gafanhotos.
47E destruiu com saraiva as vinhas dêles: E os seus amoreirais com geada.
48E entregou à saraiva os seus animais: E as suas possessões ao fogo.
49Enviou sôbre êles a ira da sua indignação: Indignação, e ira, e tribulação: Por ministério dos anjos maus.
50Abriu caminho ao atalho da sua ira, não perdoou a vida às suas almas: E envolveu na mortandade aos seus animais.
51E feriu a todo o primogênito na terra do Egito: As primícias de todo o trabalho dêle nas tendas de Cam.[10]Nas tendas de Cam — NAS TENDAS DE CAM — Porque Mesraim, de quem descenderam os egípcios, e que deu nome ao Egito, foi filho de Cam. Gên 10, 6.
52E fêz sair o seu povo como ovelhas: E guiou-os como um rebanho no deserto.
53E tirou-os fora esperançados, e não temeram: E sepultou no mar a seus inimigos.
54E os introduziu depois no monte da sua santificação, monte que êle adquiriu com a sua destra.
E expulsou da face dêles as gentes: E repartiu-lhes por sorte a terra distribuída com cordas:
55E deu as tendas dêles por morada às tribos de Israel.
56E tentaram, e irritaram de novo ao Deus excelso: E não guardaram os seus preceitos.
57E lhe voltaram as costas, e não observaram a aliança: Assim como os pais dêles se voltaram em arco atravessado.
58Êles o incitaram à ira nos seus outeiros: E com os seus ídolos que esculpiram lhe inflamaram o seu zêlo.
59Ouviu-os Deus, e os desprezou: E reduziu a Israel ao extremo abatimento.
60E rejeitou o tabernáculo de Silo, seu próprio tabernáculo, onde morou entre os homens,
61e entregou a cativeiro a fôrça dêles: E a sua formosura nas mãos do inimigo.
62E encerrou com espada ao seu povo: E desprezou a sua própria herança.
63O fogo devorou aos seus mancebos: E as suas virgens não foram choradas.
64Os seus sacerdotes pereceram à espada: E as suas viúvas não eram choradas.
65E despertou-se o Senhor como quem dorme, como um valente embriagado do vinho.
66E feriu a seus inimigos abaixo das espáduas: Eterna ignomínia lhes deu.
67E rejeitou o tabernáculo de José: E não escolheu a tribo de Efraim:
68Mas escolheu a tribo de Judá, o monte de Sião a quem amou.
69E edificou como o unicórnio o seu Santuário na terra, que fundou pelos séculos.[11]Como o unicórnio — COMO O UNICÓRNIO — O que se diz, por ser só aquêle Templo na Judéia, e estar situado no cume de um monte, assim como o unicórnio só tem uma ponta, que é a sua principal fôrça na frente, e é o símbolo do valor. Tudo isto convém ao templo de Jerusalém.
70E escolheu a Davi seu servo e o tomou dos apriscos das ovelhas: E o tirou do cuidado das fecundas.
71Para que apascentasse a Jacó seu servo, e a Israel sua herança:
72E apascentou-os a inocência do seu coração: E com suas mãos hábeis os conduziu.[12]Mãos hábeis — MÃOS HÁBEIS — À letra será a inteligência das suas mãos. O salmista, nestes três últimos versos, lembra a prudência e a sabedoria de Davi, falecido havia algum tempo, para convencer Efraim da sua ingratidão, tendo abandonado a casa dêste príncipe tão justo, tão prudente, tão religioso e manifestamente escolhido de Deus.