Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 77

Salmo profético, que os Padres da Igreja tomam por uma instituição de Jesus Cristo à sua Igreja. O salmista neste salmo refere as graças com que Deus tem favorecido o seu povo, e os castigos de que usou para que se convertesse e lhe fôsse fiel.

1Salmo didático, de Asaf.
Escutai a minha lei, povo meu, inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha bôca.[1]Salmo didáticoÊste salmo é um resumo da história do povo de Deus, para servir de lição a Israel, para que mais se afervorem na fidelidade ao Senhor. Tem dezoito estrofes.

2Abrirei em parábolas a minha bôca: Falarei coisas ocultas desde o princípio.[2]Coisas ocultasCOISAS OCULTAS — É o sentido do hebreu e da versão dos Setenta, e foi êste o que lhe deu também Jesus Cristo. (Mt 13, 35). Estas coisas ocultas são os mistérios do Evangelho, o conhecimento das verdades da salvação, que só foram reveladas depois da vinda de Cristo. Rom 16, 25. 26. 1 Cor 2, 7; Col 1, 6-27.

3Quantas coisas ouvimos, e as temos entendido: E nô-las contaram nossos pais.

4Êles não as ocultaram a seus filhos, nem à seguinte geração.
Contando os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que êle obrou.

5Estabeleceu testemunho em Jacó: E pôs lei em Israel.
As quais coisas mandou êle a nossos pais que fizessem conhecer a seus filhos:

6Para que as soubesse a geração seguinte.
Os filhos que hão de nascer, e se hão de levantar, o contarão também a seus filhos,

7para que ponham em Deus a sua esperança, e não se esqueçam das obras de Deus: E busquem com cuidado os seus mandamentos.

8Não se façam como seus pais, geração má e rebelde.
Geração que não encaminhou reto o seu coração: Nem o seu espírito foi leal com Deus.

9Os filhos de Efraim, destros em entesar o arco e em despedir dêle as flechas, voltaram as costas no dia da batalha.

10Não guardaram a aliança feita com Deus: E não quiseram andar na sua lei.

11E se esqueceram dos seus benefícios, e das suas maravilhas que obrou à vista dêles.

12Diante de seus pais fêz maravilhas na terra do Egito, no campo de Tanis.[3]MaravilhasMARAVILHAS — Alusão às pragas do Egito. TANIS — Situada no Delta, era no tempo do Êxodo a residência de Faraó. Núm 13, 23.

13Dividiu o mar, e por êle os fêz passar: E recolheu as águas como em odre.

14E os conduziu de dia, por uma nuvem: E tôda a noite com resplendor de fogo.

15Fendeu a pedra no ermo: E deu-lhes a beber águas como em um grande abismo.[4]Grande abismoGRANDE ABISMO — Hipérbole que designa a abundância de água que brotou do rochedo.

16E tirou água da pedra: E fêz correr as águas como rios.

17E tornaram ainda a pecar contra êle: Moveram a ira do Altíssimo num lugar sem água.

18E tentaram a Deus nos seus corações: Pedindo iguarias que fossem do seu gôsto.

19E falaram mal de Deus. Disseram: Porventura poderá Deus preparar uma mesa no deserto?

20Porque feriu a pedra, e correram águas, e as torrentes inundaram.
Porventura poderá também dar pão, ou aparelhar mesa para o seu povo?[5]PãoPÃO — O sustento em geral.

21Portanto ouviu o Senhor, e deferiu: E um fogo se incendeu contra Jacó, e cresceu a ira contra Israel.[6]Ouviu o Senhor e deferiuOUVIU O SENHOR E DEFERIU — O cumprimento de promessa, que consistia no ingresso na terra prometida.

22Porque não creram em Deus, nem esperaram na salvação dêle.

23E mandou às nuvens de cima, e abriu as portas do céu.

24E lhes choveu o maná para comer, e lhes deu pão do céu.

25Pão dos anjos comeu o homem: E lhes enviou manjares em abundância.

26Retirou do céu o Austro: E pela sua virtude fêz mover o Áfrico.[7]Austro, e ÁfricoAUSTRO, E ÁFRICO — Vento norte e sul.

27E choveu sôbre êles carnes como pó: e as aves de asas como as areias do mar.

28E caíram no meio dos seus alojamentos: Em roda das suas tendas.

29E comeram e fartaram-se muito, e cumpriu-lhes o seu desejo.

30Não ficaram defraudados do que apeteceram.
Ainda estavam as suas iguarias na bôca dêles:

31Quando a ira de Deus se elevou sôbre êles.
E matou os poderosos dêles, e derribou os escolhidos de Israel.

32Sôbre tudo isto pecaram ainda: E não creram nas suas maravilhas.

33E passaram os seus dias em coisas vãs: E os seus anos com grande fadiga.

34Quando os fazia morrer, o buscavam: E se convertiam, e ao amanhecer vinham a êle.

35Lembraram-se que Deus é seu ajudador: E que o Deus excelso é seu Redentor.

36Amaram-no com a sua bôca, e com a sua língua lhe mentiram:

37Mas o seu coração não era reto com êle: Nem se mantiveram leais na sua aliança.

38Mas êle é misericordioso, e perdoará os seus pecados: E não os destruirá.
E êle deteve muitas vêzes a sua ira: E não acendeu contra êles todo o seu furor.

39E lembrou-se que são carne: Sôpro que passa, e não torna.[8]SôproSÔPRO — O vento. A vida é como o vento, passa depressa.

40Quantas vêzes o irritaram no deserto, o moveram à ira no lugar sem água?

41E voltaram, e tentaram a Deus: E exacerbaram ao Santo de Israel.

42Não se lembraram do seu poder, no dia que os redimiu do jugo do opressor.

43De como fêz resplandecer no Egito os seus sinais, e os seus prodígios no campo de Tanis.

44E converteu em sangue os seus rios, e as suas águas, para que não bebessem delas.[9]Seus riosSEUS RIOS — Isto é, os rios dos egípcios.

45Enviou sôbre êles todo o gênero de moscas, que os comeram: E rãs, que os destruíram.

46E entregou os seus frutos à alfôrra: E as suas searas aos gafanhotos.

47E destruiu com saraiva as vinhas dêles: E os seus amoreirais com geada.

48E entregou à saraiva os seus animais: E as suas possessões ao fogo.

49Enviou sôbre êles a ira da sua indignação: Indignação, e ira, e tribulação: Por ministério dos anjos maus.

50Abriu caminho ao atalho da sua ira, não perdoou a vida às suas almas: E envolveu na mortandade aos seus animais.

51E feriu a todo o primogênito na terra do Egito: As primícias de todo o trabalho dêle nas tendas de Cam.[10]Nas tendas de CamNAS TENDAS DE CAM — Porque Mesraim, de quem descenderam os egípcios, e que deu nome ao Egito, foi filho de Cam. Gên 10, 6.

52E fêz sair o seu povo como ovelhas: E guiou-os como um rebanho no deserto.

53E tirou-os fora esperançados, e não temeram: E sepultou no mar a seus inimigos.

54E os introduziu depois no monte da sua santificação, monte que êle adquiriu com a sua destra.
E expulsou da face dêles as gentes: E repartiu-lhes por sorte a terra distribuída com cordas:

55E deu as tendas dêles por morada às tribos de Israel.

56E tentaram, e irritaram de novo ao Deus excelso: E não guardaram os seus preceitos.

57E lhe voltaram as costas, e não observaram a aliança: Assim como os pais dêles se voltaram em arco atravessado.

58Êles o incitaram à ira nos seus outeiros: E com os seus ídolos que esculpiram lhe inflamaram o seu zêlo.

59Ouviu-os Deus, e os desprezou: E reduziu a Israel ao extremo abatimento.

60E rejeitou o tabernáculo de Silo, seu próprio tabernáculo, onde morou entre os homens,

61e entregou a cativeiro a fôrça dêles: E a sua formosura nas mãos do inimigo.

62E encerrou com espada ao seu povo: E desprezou a sua própria herança.

63O fogo devorou aos seus mancebos: E as suas virgens não foram choradas.

64Os seus sacerdotes pereceram à espada: E as suas viúvas não eram choradas.

65E despertou-se o Senhor como quem dorme, como um valente embriagado do vinho.

66E feriu a seus inimigos abaixo das espáduas: Eterna ignomínia lhes deu.

67E rejeitou o tabernáculo de José: E não escolheu a tribo de Efraim:

68Mas escolheu a tribo de Judá, o monte de Sião a quem amou.

69E edificou como o unicórnio o seu Santuário na terra, que fundou pelos séculos.[11]Como o unicórnioCOMO O UNICÓRNIO — O que se diz, por ser só aquêle Templo na Judéia, e estar situado no cume de um monte, assim como o unicórnio só tem uma ponta, que é a sua principal fôrça na frente, e é o símbolo do valor. Tudo isto convém ao templo de Jerusalém.

70E escolheu a Davi seu servo e o tomou dos apriscos das ovelhas: E o tirou do cuidado das fecundas.

71Para que apascentasse a Jacó seu servo, e a Israel sua herança:

72E apascentou-os a inocência do seu coração: E com suas mãos hábeis os conduziu.[12]Mãos hábeisMÃOS HÁBEIS — À letra será a inteligência das suas mãos. O salmista, nestes três últimos versos, lembra a prudência e a sabedoria de Davi, falecido havia algum tempo, para convencer Efraim da sua ingratidão, tendo abandonado a casa dêste príncipe tão justo, tão prudente, tão religioso e manifestamente escolhido de Deus.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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