Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 63

Salmo deprecatório. Descreve Davi as violências dos que o perseguem: e pede ao Senhor que o livre das suas mãos, intimando-lhes o terrível juízo, que Deus fará dêles, para glória sua, e para consolação dos bons. Ao regente do côro.

1Salmo de Davi.[1]Salmo de DaviSALMO DE DAVI — Provàvelmente foi composto no tempo da perseguição de Saul, contra os cortesãos dêste, que o indispunham a cada momento, caluniando-o constantemente. Tem três estrofes. Primeira (2-6). Que Deus proteja Davi contra os caluniadores. Segunda (6-7). Descrição dos maus tratos e calúnias que o vitimavam. Terceira (8-11). Castigo que Deus lhe reservou.

2Ouve, ó Deus, a minha oração quando te rogo: Do temor do inimigo livra a minha alma.

3Defendeste-me da conspiração dos malignos: Da multidão dos que obram iniqüidade.

4Porque aguçaram como espada as suas línguas: Entesaram o arco, coisa amarga,[2]Coisa amargaCOISA AMARGA — O que está no original hebraico é palavra amarga, dabar mar, que os intérpretes entendem desta maneira: "em vez de ervadas setas despediram contra mim amargas calúnias, que matam moralmente; ou, segundo outros, "sugeriram calúnias a Saul, para que êste me matasse."

5para de emboscada assetear ao inocente.

6De súbito o assetearam: Obstinaram-se na sua depravada resolução.
Trataram de esconder laços: Disseram: Quem os verá?

7Excogitaram iniqüidades: Faltaram os perscrutadores no escrutínio.
Chegar-se-á o homem ao profundo do coração:[3]Excogitaram iniquidadesEXCOGITARAM INIQUIDADES — Crimes, que me imputam. Como vertem Sacy, de Carrières e Calmet. Outros com Bossuet expõem: êles andaram buscando com todo o cuidado as iniqüidades, isto é, os iníquos meios de me fazerem mal.

8E Deus será exaltado.
As feridas que êles fazem são como as das flechas de crianças:[4]Como as das flechas de criançasCOMO AS DAS FLECHAS DE CRIANÇAS — O hebreu diz: "Mas Deus os asseteará." Esta é uma antítese do verso 4: "As suas feridas serão como de repentina seta" quando estejam mais engolfados nos seus longos pensamentos, e projetos. Outros: "Mas Deus os asseteará com seta; de repente serão as suas feridas. E farão cair sôbre si as suas mesmas línguas; espantar-se-ão todos os que virem". Isto é: os seus mesmos malvados conselhos, que tomaram, e deliberaram com as suas línguas recairão sôbre êles. Sl 33, 22; 93, 23. Os Setenta leram sem dúvida parvulorum simplicium em vez de súbito, repente. — P. Scio.

9E as suas línguas perderam a fôrça voltando-se contra êles mesmos.
Conturbados foram todos os que viam:

10E todo o homem temeu.
E anunciaram as obras de Deus: E entenderam os seus feitos.

11Alegrar-se-á o justo no Senhor, e esperará nêle, e serão louvados todos os retos de coração.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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