Capítulo 103
1Do mesmo Davi.
Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: Senhor Deus meu, tu te tens engrandecido poderosamente.
De glória, e de formosura te tens vestido:[1]Êste salmo — Êste salmo é a descrição da obra do Criador; é a reprodução em verso do primeiro capítulo do Génesis, e uma exortação aos homens, para que êstes não deixem de louvar o Autor das maravilhas da criação. Êste salmo é, no entender de Gatien Arnoult, um dos mais belos modelos da poesia bíblica, dizendo que sôbre êste assunto é das mais geniais composições que têm aparecido: Qu'en le lise; qu'on lise ensuite tout ce qui a été écrit de plus estime sur cette matière si souvent traitée, en prose et en vers, depuis Hésiode jusqu'à Ovide, depuis Cicéron et Pline jusqu'à Buffon, et nous ne craignons pas qu'on puisse ensuite en citer qui soit du ton et de la hauteur de ce psaume. Le livre des psaumes, 1823, p. 45. Tem oito estrofes: Primeira (1-4). Elogio da obra do primeiro e segundo dia da criação. Segunda (5-9). Formação da terra. Terceira (10-14). Produção das fontes, animais e plantas. Quarta (14-18). As três principais produções alimentícias, (cereais, vinho e azeite); as chuvas que fecundam a terra e os animais que habitam as montanhas. Quinta (19-23). Os astros. Sexta (24-26). Os habitantes dos mares. Sétima (27-30). Deus dá o sustento e a vida. Oitava (31-35). Glória a Deus por tôdas as suas maravilhas.
2Coberto de lume como de vestidura:
Que estendes o céu como um pavilhão:[2]Como um pavilhão — COMO UM PAVILHÃO — Não faça dúvida traduzir-se, "como um pavilhão, ou como uma tenda de campanha", o que no latim da Vulgata é sicut pellem, porque de peles eram ordinàriamente as tais tendas, como notei sôbre os Atos dos Apóstolos, e assim vertem todos êste lugar. E neste mesmo sentido é que Davi disse a Natan, ser uma indecência, que quando êle habitava em casa de cedro, estivesse a Arca do Senhor debaixo de umas peles, 2 Rs 7, 2. — Pereira e Glaire.
3Que cobres com águas os seus mais altos lugares.
Que pões uma nuvem para tua subida: Que andas sôbre as asas dos ventos.
4Que fazes aos teus anjos espíritos e aos teus ministros fogo queimador.
5Que fundaste a terra sôbre a sua própria estabilidade: Não se inclinará pelos séculos dos séculos.
6O abismo a cinge a ela, como um vestido: Sôbre os montes estarão as águas.
7À tua ameaça fugiram: À voz do teu trovão temeram.
8Sobem os montes, e descem as campinas ao lugar que lhes estabeleceste.
9Têrmo lhes puseste, que não traspassaram e não voltaram a cobrir a terra.
10Que fazes sair fontes nos vales: Por meio dos montes passarão as águas.
11Beberão todos os animais do campo: Suspirarão por elas os onagros na sua sêde.[3]Os onagros — OS ONAGROS — O onagro, habitando os desertos longínquos, está por isso muito mais exposto à sêde do que os outros animais.
12Sôbre elas morarão as aves do Céu: As quais do meio dos rochedos darão vozes.[4]Sôbre elas morarão — SÔBRE ELAS MORARÃO — Sôbre as fontes, rios, ribeiros. O hebreu tem: "Sôbre elas as fontes, habitarão as aves do Céu", nas árvores: de onde de entre as fôlhas, ou ramos destas, darão vozes e cantarão. — P. Scio.
13Que regas os montes das águas mais altas: Do fruto de tuas obras se saciará a terra:
14Que produzes feno para as alimárias, e erva para o serviço dos homens.
Para fazer sair o pão do seio da terra:
15E o vinho que alegra o coração do homem.
O azeite para que o homem faça brilhar o seu rosto: E com o pão corrobore o seu coração.[5]Faça brilhar — FAÇA BRILHAR — "Para fazer brilhar", e resplandecer "a face com o azeite", diz o hebreu. Não há quem ignore o grande uso que faziam os antigos, e particularmente os orientais, do azeite e dos unguentos, para cuja composição empregavam o óleo mais puro e escolhido. Plínio, Lib. XIV. Cap. XXII. Duo sunt liquores corporibus humanis gratissimi intus vini foris olei. — P. Scio.
16Saciar-se-ão as árvores do campo, e os cedros do Líbano que plantou:[6]Que plantou — QUE PLANTOU — O hebreu diz: "Fartar-se-ão as árvores do Senhor com as chuvas que lhes enviará, tomando o humor e suco de que necessitam para o seu aumento e conservação: os cedros do Líbano que plantou o mesmo Senhor."
17Ali farão ninho as aves.
A casa da cegonha lhes serve de guia a elas:[7]Lhes serve de guia — LHES SERVE DE GUIA — Ensinando-lhes o modo de fazer o ninho, porque é a primeira que o faz. — Pereira.
18Os montes altos são refúgio aos cervos: Os penhascos para os ouriços cacheiros.
19Fêz a lua para designar os tempos: O sol conheceu o seu ocaso.
20Puseste trevas, e foi feita a noite: Nela transitarão tôdas as alimárias da selva.
21Os cachorros dos leões rugem em busca da prêsa, e para pedirem a Deus o seu sustento.[8]E para pedirem a Deus — E PARA PEDIREM A DEUS — Correm famintos a tôdas as partes, os cachorrinhos dos leões, e com os seus rugidos parece clamam, pedindo-te lhes depares alguma prêsa. — Pereira.
22Saiu o sol, e recolheram-se: E meter-se-ão nos seus covis.
23Sairá o homem à sua obra: aos seus trabalhos até à noite.
24Quão magníficas são as tuas obras, Senhor! tôdas as coisas fizeste com sabedoria! cheia está a terra da tua possessão.[9]Cheia está a terra — CHEIA ESTÁ A TERRA — Dos teus bens, e riquezas: chama-lhe possessão sua, porque tôdas as coisas lhe pertencem como a seu Senhor.
25Êste mar grande, e largo de braços: Ali existem peixes que não têm número.
Animais pequenos e grandes:
26Ali transitaram as naus.
Êste dragão, que formaste para zombar no mar:[10]Êste dragão — ÊSTE DRAGÃO — Em hebreu Leviathan, palavra que designa ordinàriamente o crocodilo, mas que significa aqui um grande cetáceo.
27Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo.
28Dando-lho tu, êles recolherão: Abrindo tu a tua mão, todos se encherão de bens.
29Mas se tu apartares o teu rosto, turbar-se-ão: Tirar-lhe-ás o espírito, e deixarão de ser, e tornar-se-ão no seu pó.
30Enviarás o teu espírito, e serão criados: E renovarás a face da terra.[11]Enviarás o teu espírito — ENVIARÁS O TEU ESPÍRITO — Aquela virtude vivificante, que conserva tôdas as coisas criadas no seu sêr, que é um efeito próprio da pessoa do Espírito Santo, Gên 1, 1-2. E assim em sentido mais sublime se aplica isto aos dons interiores do Espírito Santo, por meio dos quais, e da efusão, se criam homens novos, e novos corações; e êste é o sentido dos Santos Padres. A Igreja a cada passo emprega êste versículo. — P. Scio.
31Seja a glória do Senhor para sempre: Alegrar-se-á o Senhor nas suas obras:
32O que olha para a terra, e a faz estremecer: O que toca os montes, e fumegam.
33Cantarei ao Senhor em todo o espaço da minha vida: Cantarei salmos ao meu Deus enquanto eu subsistir.
34Sejam-lhe aceitas as minhas palavras: Eu certamente me deleitarei no Senhor.
35Feneçam da terra os pecadores, e os iníquos, de modo que não subsistam: Bendiz, ó alma minha, ao Senhor.