Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 61

Salmo deprecatório. Davi se consola no Senhor anunciando o total extermínio de seus perseguidores: e exorta aos fiéis a que, apartando a sua confiança das coisas mundanas, em que sòmente se acha vaidade, a ponham e fixem só em Deus, a quem pertence o poder e a misericórdia. Ao regente do côro.

1Para Iditum, salmo de Davi.[1]IditumIDITUM — Era um dos três regentes do côro do tempo de Davi. 1 Par 16, 41. Foi composto êste salmo durante a revolta de Absalão. Contém cinco estrofes. Primeira (2-3). Ato de confiança em Deus. Segunda (4-5). Projetos dos inimigos de Davi contra a sua pessoa. Terceira (6-8). Novo ato de confiança em Deus. Quarta (9-11). Discurso ao povo para que espere em Deus o seu auxílio, para o que deve evitar o mal e praticar o bem. Quinta (12-13). Deus remunerador, recompensando cada um segundo os seus merecimentos.

2Porventura a minha alma não estará sujeita a Deus? Pois que dêle é a minha salvação.

3Porquanto êle mesmo é meu Deus, e meu Salvador: Meu amparador, não serei comovido jamais.

4Até quando arremetereis contra um homem? Ajuntai-vos todos para acabar com êle, como a parede inclinada, e muro abalado?[2]Até quando arremetereisATÉ QUANDO ARREMETEREIS — É uma apóstrofe que faz Davi aos seus inimigos e perseguidores: O hebreu: "Até quando maquinareis contra um homem", pondo-lhe ciladas? "Sereis mortos todos quantos sois semelhantes a uma parede inclinada, e a um valado desfeito," e que está para arruinar-se. — Pereira.

5Certamente meditaram tirar-me a minha dignidade, corri sedento: Com a sua bôca me bendiziam, e com o seu coração me maldiziam.[3]Corri sedentoCORRI SEDENTO — Os Setenta cucurri in siti, como na Vulgata: ou também cucurrerunt in siti aplicando-o aos perseguidores: correram após de mim sedentos de beber-me o sangue. No hebreu não há equivocação alguma porque o verbo está na terceira pessoa do plural. — P. Scio.

6Mas tu, ó alma minha, conserva-te sujeita a Deus: Porque dêle é que vém a minha paciência.

7Porque êle é meu Deus, e meu salvador: Meu favorecedor, não me comoverei.

8Em Deus está a minha salvação, e a minha glória: De Deus é que espero o meu socorro, e a minha esperança em Deus está.

9Esperai nêle tôda a congregação do povo, derramai ante êle os vossos corações: Deus é o nosso favorecedor eternamente.

10Certamente vãos são os filhos dos homens, mentirosos os filhos dos homens em balanças: Êles conspiram concordemente em vaidade para usar de enganos.[4]Certamente vãos são os filhos dos homensCERTAMENTE VÃOS SÃO OS FILHOS DOS HOMENS — Isto é: são tão vãos, e de tão pouca substância os filhos dos homens, que se todos êles juntos se pusessem em uma balança, e a mesma vaidade em outra, ainda se conheceria, que pesavam menos que a vaidade. O sentido da Vulgata se pode também reduzir a êste mesmo: são tão vãos os filhos dos homens, que postos todos juntos em balanças, se encontrará que são mais vãos do que se pode crer, ou imaginar. Outros o explicam das balanças enganadoras, ou pesos falsos nos comércios e contratos. — Pereira.

11Não queirais confiar na iniqüidade, nem queirais cobiçar rapinas: Se abundardes em riquezas, não queirais pôr nelas o coração.

12Uma vez falou Deus, estas duas coisas tenho ouvido que o poder é de Deus,[5]Uma vez falou DeusUMA VEZ — A palavra de Deus é imutável, e o que uma vez disse é irrevogável. — S. Jerônimo. ESTAS DUAS COISAS — Para que ninguém use de meios injustos para adquirir riquezas, e para que ninguém ponha o seu coração nas mesmas, quero dar-vos certeza do que revelou a nossos pais, e que tem feito uma forte impressão na minha alma, e são duas coisas: Primeira: que Deus é onipotente, para que o homem sòmente nêle confie; e ao mesmo tempo é misericordioso, para assistir com a riqueza, e abundância das suas graças aos que o amam. E a outra: que êle é justíssimo para premiar aos bons, e castigar aos ímpios. No que se alude ao que Deus disse, quando falou ao povo sôbre o Sinai, Êx 20, 5. 6. — P. Scio.

13e a ti, Senhor, a misericórdia: Porque tu retribuirás a cada um segundo as suas obras.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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