Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 85

Oração de Davi pedindo socorro contra os seus inimigos: nela se anuncia a conversão dos gentios.

Oração do mesmo Davi[1]Oração do mesmo DaviDavi na adversidade, naturalmente durante a revolta de Absalão, pede a Deus que o socorra. Alguns comentadores entendem que esta oração foi composta nos tempos de Ezequias e de Zorobabel, e que o nome de Davi, que se lê no título, significa simplesmente que o autor escreve êste salmo sôbre fragmentos de outros de Davi. O nome de Adonai, meu Deus, encontra-se sete vêzes no original. Tem cinco estrofes. Primeira (1-4). Suplica a Deus. Segunda (5-7). Porque é misericordioso. Terceira (8-10). Porque é grande e opera maravilhas. Quarta (11-13). Impetra a luz e a graça divina. Quinta (14-17). Invocação contra os inimigos de Deus.

1Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me: Porque eu sou desvalido, e pobre.

2Guarda a minha alma, porque sou santo: Salva-me, Deus meu, a mim teu servo, que espero em ti.[2]Guarda a minha alma / Sou santoGUARDA A MINHA ALMA — Hebraísmo, por guarda-me; isto é, conserva-me a vida. SOU SANTO — No hebreu está piedoso votado ao vosso serviço; segundo outros, inocente dos crimes que me imputam.

3Senhor, tem misericórdia de mim, por que a ti clamei todo o dia:

4Alegra a alma do teu servo, porque a ti, Senhor, levantei a minha alma.

5Porque tu, Senhor, és suave, e brando: E de muita misericórdia para todos os que te invocam.

6Percebe, Senhor, nos teus ouvidos a minha oração: E atende à voz do meu humilde rogo.

7No dia da minha tribulação clamei a ti: Porque me escutaste.

8Não há semelhante a ti entre os deuses, Senhor: E não há quem se te assemelhe nas tuas obras.

9Tôdas as gentes quantas fizeste, virão, e prostradas te adorarão, Senhor: E glorificarão o teu nome.

10Porquanto tu és grande, e fazedor de maravilhas: Tu só és Deus.

11Guia-me, Senhor, no teu caminho, e andarei na tua verdade: Alegre-se o meu coração para que êle tema o teu nome.

12Louvar-te-ei, Senhor Deus meu, com todo o meu coração, e glorificarei o teu nome eternamente:

13Porque a tua misericórdia é grande sôbre mim: E arrancaste a minha alma do inferno inferior:[3]ArrancasteARRANCASTE — Nos Livros Santos, e sobretudo nos Salmos e nos Profetas, estas expressões são empregadas para significar a libertação dum grande perigo. Num sentido mais elevado, aplicam-se a Jesus Cristo descido aos infernos e ressuscitado dentre os mortos.

14Levantaram-se, ó Deus, iníquos contra mim e uma tropa de poderosos buscaram a minha alma, e êles não se propuseram que tu lhe estás presente.[4]E uma tropa de poderososE UMA TROPA DE PODEROSOS — De homens cruéis e facinorosos. Não consideram que tôdas as suas iniquidades, e quanto êles maquinam, está patente aos teus olhos, para lhes dar a seu tempo o condigno castigo. — Pereira.

15Mas tu és, Senhor Deus, clemente e misericordioso, sofrido e de muita misericórdia, e verdadeiro.

16Põe os olhos em mim, e tem misericórdia de mim, dá o teu império ao teu servo: E faze salvo ao filho da tua escrava.[5]O teu impérioO TEU IMPÉRIO — O hebreu tem: "dá a fortaleza a teu servo" para que possa resistir a seus inimigos, vencê-los e sujeitá-los. Dá-lhe o reino que lhe querem tirar seus inimigos. — Pereira.

17Faze em meu favor algum sinal, para que o vejam aqueles que me têm ódio, e sejam confundidos: Pois tu, Senhor, me tens ajudado, e me tens consolado.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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