Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 94

Salmo gratulatório. Davi convida, e exorta todos os homens ao louvor de Deus, e a que lhe obedeçam, agradecendo-lhe os benefícios da criação. Louvor e cântico do mesmo Davi.

1Vinde, regozijemo-nos no Senhor: Celebremos as glórias de Deus nosso Salvador.[1]Êste salmoÊste salmo tem grande importância litúrgica. A Igreja ordena aos seus sacerdotes que cotidianamente o recitem em Matinas. Há porém uma observação importante: o que é recitado todos os dias é extraído do Saltério Romano, e o texto da Vulgata é repetido no terceiro noturno das Matinas da Epifânia, tal como vem no saltério galicano. A êste respeito escreve Bossuet: Ecclesia catholica dissonantes versiones adeo indifferenter habet, ut cum psalmo XCIV Vulgata legat. — Quadraginta annis offensus fui — nos in nocturno canamus: proximus: diversissimo sensu, sed utrobique sano. Dissert de Ps. CV. Por incidente diremos que os mais antigos ofícios não começavam por êste salmo, dêstes restam-nos vestígios nos ofícios da Semana Santa. H. Lesetre. Correspondance Catholique. Année biblique, 1894-1895. Divergem os intérpretes sôbre a época em que êste salmo foi composto. Teodoreto é de opinião que datasse do tempo do estabelecimento do culto por Josias. Os modernos entendem que devia ter sido composto antes do cativeiro, e talvez por algum dos poetas desconhecidos aos quais se devem muitos trabalhos literários. Lesetre, art. cit. Tem seis estrofes: Primeira (1-2). Exortação para que louvemos a Deus. Segunda (3-4). Porque é o criador da terra. Terceira (5-6). E do mar. Quarta (7-8). E do homem. Quinta e sexta. Discurso de Deus aconselhando a obediência, recordando como puniu no deserto os israelitas rebeldes.

2Apresentemo-nos ante a sua face para o louvar: E celebremo-lo com salmos.

3Porque o Senhor é Deus grande: E rei grande sôbre todos os deuses.

4Porque na sua mão estão todos os limites da terra: E as alturas dos montes são suas.

5Porquanto seu é o mar, e êle o fêz: E as suas mãos formaram a terra árida.

6Vinde, adoremos, e prostremo-nos: E choremos diante do Senhor, que nos criou.[2]ChoremosCHOREMOS — As lágrimas só podem ser de alegria em vista dos antecedentes. No hebreu está: "Ajoelhemos diante do Senhor." Explica-se esta divergência por um êrro de cópia; em vez de berac, que significa "ajoelhar-se", os tradutores gregos leram baca, "chorar".

7Porque êle é o Senhor nosso Deus: E nós povo do seu pasto, e ovelhas da sua manada.

8Se hoje ouvires a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações:[3]Se hojeSE HOJE — A palavra hodie, hoje, se refere ao tempo da Graça e da Salvação, conforme no-la mereceu Jesus Cristo Salvador nosso, em que todos fomos feitos salvos. A respeito de cada um de nós em particular, denota o tempo da vida presente, quando nos achamos em estado de invocar, e obedecer ao Senhor. — Pereira.

9Assim como na altercação em o dia da tentação no deserto: Onde me tentaram vossos pais, me provaram, e viram as minhas obras.[4]Assim comoASSIM COMO — O hebreu diz: "Como Meribah, como em o dia de Massah no deserto," quando os hebreus murmuraram, e se levantaram contra Moisés pela falta de água. — Pereira.

10Quarenta anos estive desgostado com esta geração, e disse: Êstes sempre erram de coração.[5]Quarenta anosQUARENTA ANOS — Atendendo ao texto hebraico, é como se dissera: Quarenta anos tenho estado como se me tivessem despedaçado as entranhas, cheio de fastio, e de pesar, por causa dêste povo. A versão antiga itálica leu: proximus fui, estive a ponto de castigá-los, em lugar de offensus fui. — Pereira.

11E êles não acertaram os meus caminhos: Pelo que lhes jurei na minha ira: Não entraram no meu repouso.[6]Não entraramNÃO ENTRARAM — E não houve meio para os fazer entrar no caminho por onde eu os guiava: Portanto, cansado já de tanta obstinação e rebeldia, irritado contra êles, jurei pelo meu nome que não chegariam a entrar na terra que tinha destinada, para que nela gozassem de paz e repouso.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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