Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 25

Salmo deprecatório. Davi expõe a sua inocência a Deus, patenteando o seu afeto de viver na casa do Senhor, e lhe roga que o purifique da contaminação de seus inimigos.

1Salmo de Davi. Julga-me, Senhor, porque eu andei na minha inocência: e esperando no Senhor não serei enfraquecido.[1]Salmo de DaviDavi, ausente de Sião, pede ao Senhor que lhe permita poder louvá-lo em sua Santa Casa. Naturalmente foi composto durante a revolta de Absalão. 2 Rs 15, 6-25. Davi lamenta não poder louvar o Senhor no seu tabernáculo; é o pensamento principal dêste Salmo, que tem doze estrofes, correspondentes aos doze versículos. Calmet é de opinião que êste Salmo e os dois seguintes são a continuação do precedente, formando os quatro um só cântico. Seja como fôr, o que resulta dêste Salmo é o desejo duma alma, que confia na própria inocência, e que ardentemente quer tornar-se cada vez mais digna de cantar os louvores do Senhor. A Igreja repete cotidianamente parte dêste salmo, no Santo Sacrifício da Missa, quando o sacerdote lava as mãos.

2Prova-me, Senhor, e sonda-me: Abrasa os meus rins e meu coração.[2]Abrasa os meus rinsO hebreu tem: "Funde as minhas entranhas", isto é: acrisola, e purifica os meus afetos. Sl 7, 10; 15, 7.

3Porque a tua misericórdia eu a tenho diante de meus olhos: E na tua verdade me tenho comprazido.

4Não me sentei no congresso da vaidade: E não tratarei com os que obram a iniqüidade.[3]No congresso da vaidadeCom os idólatras, porque não há coisa mais vã que os ídolos: 1 Cor 8, 4, nem maior impiedade que trasladar às criaturas o culto que só se deve ao criador. "Com os que obram a iniqüidade." Outros vertem: "Com os hipócritas". — P. Scio.

5Eu aborreço a sociedade dos malignos: e não me assentarei com os ímpios.

6Mas lavarei as minhas mãos entre os inocentes: E estarei, Senhor, ao redor do teu altar:[4]Mas lavarei as minhas mãos / Estarei ao redor do teu altarMAS LAVAREI AS MINHAS MÃOS — Com efeito pela lei de Moisés os que se chegavam ao altar lavavam as mãos, e os pés. Êx 30, 19.20. — Bossuet. ESTAREI, SENHOR, AO REDOR DO TEU ALTAR — Cerimónia que se usava nas solenes ações de graças, enquanto se fazia a oferenda dos sacrifícios de louvor, ou depois de feita. — P. Scio.

7Para ouvir a voz dos teus louvores, e narrar tôdas as tuas maravilhas.

8Senhor, eu amei a formosura da tua casa, e o lugar onde habita a tua glória.

9Não percas, ó Deus, com os ímpios a minha alma, nem com os homens sanguinários a minha vida:

10Em cujas mãos estão as iniquidades: A destra dêles está cheia de subornos.

11Porque eu andei na minha inocência: Resgata-me, e tem compaixão de mim.

12O meu pé estêve na retidão: nas igrejas te bendirei, ó Senhor.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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