Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 105

Salmo histórico. Faz-se memória dos benefícios que Deus fêz ao seu povo desde que saiu do Egito, até os juízes: da ingratidão com que êste lhe correspondeu; e como o misericordioso Senhor o corrigia e tirava das suas angústias.

Aleluia. (Jdt 13, 21.)[1]AleluiaALELUIA — Êste salmo é o primeiro dos da coleção que tem por palavra inicial allelou-yah. Louvai o Senhor; o anterior tem esta palavra na Vulgata, adição justificada pela índole do salmo. Êste é um resumo da história do povo de Deus no deserto do Sinai. Não é fácil dividir no original as estrofes. Em todo o caso poder-se-ão agrupar dêste modo as idéias expressas no salmo: (1-3) introdução e exortação a louvar a Deus; (4-6) oração; fatos históricos (7 a 47). O v. 48 é a doxologia que marca o fim do quarto livro dos salmos. Como no salmo anterior indicamos na passagem a que se refere o texto.

1Louvai ao Senhor porque êle é bom: Porque a sua misericórdia é por todos os séculos.

2Quem referirá as obras do poder do Senhor, quem fará que sejam ouvidos todos os seus louvores?

3Bem-aventurados os que observam retidão, e praticam a justiça em todo o tempo.

4Lembra-te de nós, Senhor, segundo a bondade que te aprouve mostrar ao teu povo: Visita-nos com a tua salvação:

5Para que vejamos os bens de teus escolhidos, e gozemos a alegria que destinas ao teu povo: Para que sejas glorificado na tua herança.

6Temos pecado com os nossos pais: Temos obrado injustamente, cometemos iniquidade.

7Nossos pais no Egito não consideraram as tuas maravilhas: Não se lembraram da multidão da tua misericórdia.
E te irritaram estando para entrar no mar, no mar Vermelho.

8E êle os salvou por amor do seu nome: Para fazer patente o seu poder.[2]E êle os salvouE ÊLE OS SALVOU — Sem respeito aos seus merecimentos, só pela própria bondade e glória do seu nome. — Pereira.

9E ameaçou ao mar Vermelho, e secou-se: E levou-os pelos abismos, como por um deserto. (Êx 14, 21).

10E salvou-os da mão dos que os aborreciam: E resgatou-os da mão do inimigo.

11E cobriu de água aos que os perseguiam: Não ficou dêles nem um só. (Êx 17, 21).

12E deram crédito às suas palavras: E cantaram o seu louvor.

13Porém logo instantâneamente se deram pressa em esquecer as suas obras: E não esperaram o seu conselho.

14E cobiçaram delícias no deserto: E tentaram a Deus no lugar sem água.

15E lhes concedeu o que pediam: E enviou fartura às suas almas. (Núm 11, 31.)[3]E enviou farturaE ENVIOU FARTURA, ETC. — Até que lhes causou fastio, e náusea o mesmo que haviam desejado. O hebreu diz: "e mandou fraqueza às suas almas:" tirou o Senhor a sua virtude, e negou a sua bênção àquela vianda, e assim em lugar de se nutrirem enfraqueciam, e caíam em pthisis, enfermidade que frequentemente procede de comer com excesso, e do que tem princípio aquela náusea e desgôsto, com que o Senhor os havia ameaçado. Núm 11, 20. — P. Scio.

16E irritaram a Moisés no acampamento: A Aarão o santo do Senhor.[4]E irritaram a MoisésE IRRITARAM A MOISÉS — S. Jerônimo verte aqui, zelati sunt, isto é, tiveram zelos, ou inveja, por verem que Deus elevara sôbre todos a Moisés, e a Aarão. Por isso diziam: Cur elevamini super populum Domini? Por que sois vós elevados sôbre o povo do Senhor? Núm 16, 3. — Bossuet.

17Abriu-se a terra e tragou a Datan: E sorveu a Abiron com seus sequazes. (Núm 16, 32).

18E ateou-se fogo no meio do seu congresso: A chama abrasou aos pecadores.

19E fizeram um bezerro em Horeb: E adoraram a obra que fabricaram. (Êx 32, 4).

20E trocaram a sua glória pelo simulacro de um bezerro que come feno.

21Esqueceram-se de Deus que os salvou, o qual havia feito grandes prodígios no Egito,

22maravilhas na terra de Cam: Portentos no mar Vermelho.

23E disse que os destruiria: Se Moisés seu escolhido se não houvesse pôsto em meio ante êle quebrando o ídolo:
Para apartar a sua ira, que não os destruísse: (Êx 32, 10).

24E por nada reputaram a terra desejada:
Não creram na sua palavra,

25e murmuraram nas suas tendas: Não atenderam à voz do Senhor.

26E levantou a sua mão sôbre êles: Para os exterminar no deserto: (Núm 14, 32).

27E para envilecer a sua estirpe entre as nações: E espalhá-los pelas regiões.

28E consagraram-se a Beelfegor: E comeram os sacrifícios dos mortos.[5]A BeelfegorA BEELFEGOR — Êste era um infame ídolo dos moabitas e madianitas. Núm 25, 3. — Pereira.

29E o irritaram com as suas invenções: E se multiplicou nêles a mortandade.

30E apresentou-se Finéias, e o aplacou: E cessou o flagelo. (Núm 25, 7).

31E isto foi-lhe imputado por justiça por geração e geração para sempre.[6]E isto foi-lhe imputadoE ISTO FOI-LHE IMPUTADO — O Senhor deu a Finéias em prémio do zêlo que mostrou pela glória de Deus o pontificado, que fêz continuar na sua família por mais de cento e trinta anos. Veja-se o lugar citado dos Núm 13. — Pereira.

32E irritaram nas águas da contradição: E foi castigado Moisés por causa dêles: (Núm 20, 10.)[7]E foi castigado MoisésE FOI CASTIGADO MOISÉS — Privando-o o Senhor da consolação de entrar na terra prometida. — Pereira.

33Porque amarguraram o seu espírito.
E foi duvidoso nas suas palavras:

34Não exterminaram as gentes que o Senhor lhes disse.

35E se mesclaram com as gentes, e tomaram os seus costumes:

36E serviram aos seus ídolos: E lhes foi causa de tropeço.

37E imolaram aos demónios os seus filhos, e as suas filhas.

38E derramaram o sangue inocente: O sangue de seus filhos e de suas filhas, que haviam sacrificado aos ídolos de Canaã.
E se inficionou a terra com sangues,

39e se contaminou com as suas obras: E se prostituíram nas suas invenções.[8]E se prostituíramE SE PROSTITUÍRAM — Já mesclando-se com mulheres idólatras, já adorando os ídolos das nações, como os mesmos idólatras. As abominações dos israelitas, que se insinuam nos vv. 33 até 38, pertencem principalmente ao tempo em que governaram os juízes; e ainda que estas não constam pormenor naquele livro, não são por isso menos certas. — P. Scio.

40E se incendeu de furor o Senhor contra o seu povo: E abominou a sua herança.

41E os entregou em poder das gentes: E os dominaram aquêles que os aborreciam.

42E angustiaram-nos os seus inimigos, e foram humilhados debaixo do seu poder:

43Muitas vêzes o livrou.
Mas êles o irritaram com o seu intento: E foram humilhados pelas suas maldades.

44E olhou-os quando estavam em angústia: E ouviu a sua oração.

45E lembrou-se do seu pacto: E se enterneceu segundo a multidão da sua misericórdia. (Dt 30, 1).

46E empregou nêles as suas misericórdias à vista de todos aquêles que os haviam cativado.

47Salva-nos, Senhor nosso Deus: E congrega-nos de entre as nações:
Para que confessemos o teu santo nome: E nos gloriemos no teu louvor.

48Bendito o Senhor Deus de Israel pelos séculos dos séculos: E dirá todo o povo: Assim seja, assim seja.[9]Assim sejaASSIM SEJA — No hebreu se lê: Amém, aleluia. Êste último versículo não pertence ao salmo, é uma adição, que se punha no fim de cada livro, porquanto aqui acaba, segundo a divisão dos hebreus, o quarto livro dos salmos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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