Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 78

Salmo deprecatório em que se expressam os lamentos dos fiéis pelos danos feitos à Sinagoga, e ao seu templo, e alegòricamente à Igreja cristã.

1Salmo de Asaf.
Ó Deus, vieram as nações à tua herança, contaminaram o teu santo templo: Tornaram Jerusalém como cabana de guardar frutas.[1]Salmo de AsafÊste salmo deve ser da mesma época do Salmo 73 e refere-se à tomada de Jerusalém por Nabucodonosor. Tem quatro estrofes. Primeira (1-4). Quadro lamentável de Jerusalém devastada. Segunda (5-7). Pede misericórdia a Deus para com o seu povo desprezado. Terceira. Que Deus lhes perdoe os pecados. Quarta. Que tenha piedade de Israel. CABANA DE GUARDAR FRUTAS — Na Palestina há ainda hoje, e outrora com mais abundância, cabanas ou construções grosseiras de pedras, que serviam de resguardo contra os salteadores; eram desabitadas e quase tôdas em ruína.

2Deram os cadáveres dos teus servos por comida às aves do céu: As carnes dos teus santos aos animais da terra.[2]SantosSANTOS — Quer dizer, os servos fiéis.

3Derramaram o sangue dêles como água à roda de Jerusalém: E não havia quem lhes desse a sepultura.[3]Como águaCOMO ÁGUA — Quer dizer em grande abundância.

4Temos chegado a ser o opróbrio de nossos vizinhos: O escárnio e a mofa daqueles que estão em roda de nós.

5Até quando, Senhor, te hás de irar sem aplacar-te: Até quando se acenderá como fogo o teu zêlo?

6Derrama a tua ira sôbre as nações, que te não conhecem: E sôbre os reinos que não invocaram o teu nome.

7Porque êle tem devorado a Jacó: E tem assolado a sua casa.

8Não te lembres de nossas antigas maldades, anticipem-se logo as tuas misericórdias: Porque temos sido reduzidos a extrema miséria.

9Ajuda-nos, ó Deus, Salvador nosso: E pela glória do teu nome, Senhor, livra-nos: E perdoa os nossos pecados, por amor do teu nome.

10Para que não digam talvez as gentes: Onde está o Deus dêles? e se divulgue tal blasfêmia entre as nações ante os nossos olhos.
A vingança do sangue dos teus servos, que foi derramado:

11Os gemidos dos que estão em cadeias cheguem à tua presença.
Segundo a grandeza do teu braço, conserva os filhos dos que foram mortos.

12E dá a nossos vizinhos sete tantos no seio dêles: Seja opróbrio dos mesmos aquilo com que, Senhor, te improperavam.

13Mas nós que somos povo teu, e ovelhas do teu pasto, te glorificaremos para sempre:
De geração em geração publicaremos o teu louvor.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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