Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 148

Salmo gratulatório. Deve-se louvar a Deus, porque só êle é o Criador de tôdas as coisas.

1Aleluia.
Louvai desde os céus ao Senhor: Louvai-o nas alturas.[1]AleluiaO poeta vendo livre a nacionalidade judaica, quer significar todo o seu contentamento e gratidão, pedindo a tôdas as criaturas que louvem o Senhor. S. Francisco de Assis imitou êste salmo no seu cântico do Sol, Laudato sia Dio mio Signore con tutte le creature, specialmente messer lo frate Sole, etc. B. Francisci Opuscula, 1623, p. 398. O salmista desce gradualmente do Céu à terra.

2Louvai-o, todos os seus anjos: Louvai-o, tôdas as suas virtudes.

3Louvai-o, sol e lua: Louvai-o, tôdas as estrêlas e o lume.[2]Tôdas as suas virtudes / Tôdas as estrêlas e o lumeTÔDAS AS SUAS VIRTUDES — S. Jerônimo, segundo o hebreu, verte: Exercitus ejus: suas milícias Celestiais. — Pereira. TÔDAS AS ESTRÊLAS E O LUME — O hebreu diz: "Tôdas as estrêlas de lume: Luminosas ou resplandecentes." — Pereira.

4Louvai-o, céus dos céus: E tôdas as águas que estão sôbre os céus,[3]Céus dos céusCÉUS DOS CÉUS — Isto é, Céus os mais elevados de todos; quais são os Céus, que Deus escolheu por sua especial morada, e que S. Paulo na segunda aos Coríntios, Cap. 2, chama terceiro Céu, onde andam as aves, e se formam as nuvens, e do segundo, que é o firmamento, onde estão como engastados o sol, a lua, e as estrêlas. — Calmet. QUE ESTÃO SOBRE OS CÉUS — Isto é, por cima do Firmamento, segundo o que Moisés refere, Gên 1, 7, Fêz Deus o Firmamento, e dividiu as águas, que estavam por baixo do Firmamento, dos que estavam por cima do Firmamento. — Calmet.

5louvem o nome do Senhor.
Porque êle disse, e foram feitas as coisas: Êle mandou e elas foram criadas.

6Êle as estabeleceu para sempre, e pelo século do século: Preceito pôs, e não se quebrantará.[4]E não se quebrantaráE NÃO SE QUEBRANTARÁ — A tôdas as coisas estabeleceu leis constantes, e invariáveis, as quais se têm conservado, e se conservarão perpètuamente. — Pereira.

7Louvai ao Senhor os que sois da terra, vós, dragões, e todos os abismos.[5]Vós, dragõesVÓS, DRAGÕES — No hebreu se lê: tanninim, que convém aos peixes grandes, e monstros marinhos. Como louvam os dragões a Deus? enquanto vendo os homens umas tais criaturas, tão corpulentas, tão medonhas, tão feras, louvam os homens a Deus, que tais criaturas criou. — Santo Agostinho.

8O fogo, o graniso, a neve, a geada, o espírito de tempestades, que executam a sua palavra.

9Os montes, e todos os outeiros: As árvores frutíferas, e todos os cedros.[6]E todos os cedrosE TODOS OS CEDROS — Debaixo do nome cedros se compreendem tôdas as árvores silvestres. — Pereira.

10Os animais, e todos os gados: As serpentes, e as aves que voam.

11Os reis da terra, e todos os povos: Os príncipes, e todos os juízes da terra.

12Os mancebos, e as donzelas: Os velhos com os moços louvem o nome do Senhor:

13Porque só o nome dêle foi exaltado.

14O seu louvor é sôbre o céu, e a terra: E exaltou o poder do seu povo.
Hino digam todos os seus santos; os filhos de Israel, o povo que se lhe aproxima. Aleluia.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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