Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 33

Salmo didático. Davi convida os fiéis a engrandecer a misericórdia do Senhor, que livra aos seus de todo o mal. Põe patente os bens que se encerram em confiar em Deus, e em obedecer-lhe e pelo contrário, os terríveis males com que castiga aos ímpios.

1Salmo de Davi, quando mudou o seu rosto diante de Aquimelec, que o despediu, e êle se foi.[1]1QUANDO MUDOU O SEU ROSTO — Davi tendo escapado das ciladas de Saul, se refugiou, sem ser conhecido, na côrte de Aquis, rei geteu, onde havendo sido depois reconhecido, por salvar a sua vida, se fingiu demente, do que resultou lançarem-no logo fora dali. Depois retirando-se à cova de Odolão, nela compôs êste Salmo, dando graças ao Senhor por havê-lo livrado daquele perigo. 1 Rs 21, 13. Êste Salmo é acróstico e alfabético, assim como o 24. Tem 22 dísticos. | DIANTE DE AQUIMELEC — Os modernos concordam que não era Aquimelec Sumo Pontífice, ao qual Davi pediu os pães da proposição: 1 Rs 21, 3, mas Aquimelec, rei de Get, cidade principal dos filisteus, ao qual a Escritura chama Aquis. Êste nome de Aquimelec, que no hebreu e nos Setenta se lê Abimelec, era comum aos reis da Palestina, assim como o de Faraó o era aos do Egito. — Pereira.

2Bendirei o Senhor em todo o tempo: Seu louvor será sempre na minha bôca.[2]2EM TODO O TEMPO — Seja ou de prosperidade, ou de adversidade. "Deus dá as consolações, diz Santo Agostinho, e Deus as tira; porém de si mesmo não priva aquêle que o bendiz, e que o louva". — P. Scio.

3No Senhor se gloriará a minha alma: Ouçam-no os humildes, e alegrem-se.

4Engrandecei comigo ao Senhor: E exaltemos o seu nome todos à uma.

5Busquei ao Senhor, e me ouviu: E me livrou de tôdas as minhas tribulações.[3]3BUSQUEI AO SENHOR E ME OUVIU — Logo os que não são ouvidos não buscam ao Senhor. — Santo Agostinho.

6Chegai-vos a êle, e sereis iluminados: E vossos rostos não serão confundidos.

7Êste pobre levantou o grito, e o Senhor o ouviu: E êle o salvou de tôdas as suas tribulações.[4]4LEVANTOU O GRITO — Assim falava Davi de si mesmo; ou introduz aos fiéis ensinando-lhes o modo com que devem falar com Deus especialmente na oração. Depois dêste versículo devia haver outro, que principiasse pela letra vau, porém não sucede assim, mas salta ao zuin: o mesmo que notamos no Salmo 24, 6. — P. Scio.

8O anjo do Senhor andará à roda dos que o temem: E os livrará.

9Gostai, e vêde quão suave é o Senhor: Ditoso o homem, que espera nêle.[5]5GOSTAI, E VÊDE QUÃO SUAVE É O SENHOR — Muitos Padres com Santo Atanásio expõem êste versículo do gôsto, e doçura que recebem os fiéis na comida, e bebida do corpo, e do sangue de Cristo na Eucaristia. "Como pode êste dar-nos a sua carne?" pergunta Santo Agostinho; e logo acrescenta o Santo "se o ignoras gosta, e experimenta quão suave é êste Senhor". — P. Scio.

10Temei ao Senhor todos vós os seus Santos: Porque os que o temem, não caem em pobreza.

11Os ricos necessitaram e tiveram fome: Mas os que buscam ao Senhor, não serão privados de bem algum.

12Vinde, filhos, ouvi-me: Eu vos ensinarei o temor do Senhor.

13Quem é o homem que quer a vida: E que deseja ver os dias bem-aventurados?

14Guarda a tua língua do mal: E os teus lábios não falem engano.

15Desvia-te do mal, e faze o bem: Busca a paz, e vai em seu seguimento.

16Os olhos do Senhor estão sôbre os justos: E os ouvidos aos rogos dêles.

17Mas o rosto do Senhor sôbre os que fazem o mal: Para apagar da terra a sua memória.

18Os justos clamaram, e o Senhor os ouviu: E os salvou de tôdas as suas tribulações.

19Perto está o Senhor daqueles que têm o coração atribulado: E aos humildes de espírito os salvará.

20Muitas as tribulações dos justos, e de tôdas estas os livrará o Senhor.[6]6MUITAS AS TRIBULAÇÕES DOS JUSTOS — O hebreu tem: "Muitos são os males", as aflições do Justo; o que, com o que se diz no versículo seguinte, se deve entender principalmente do Justo por excelência, que é Jesus Cristo; e de cada um de nós está escrito, que por meio de muitas tribulações é necessário entrar no reino dos Céus. At 14, 21. — P. Scio.

21O Senhor guarda todos os seus ossos: E nem sequer um dêles se quebrará.

22É péssima a morte dos pecadores: E os que aborrecem o justo, perecerão.[7]7É PÉSSIMA A MORTE DOS PECADORES — O hebreu lê: "Matará ao ímpio a maldade"; de tal sorte que a sua mesma malícia será cruel verdugo que o acaba. — Sacy.

23O Senhor remirá as almas dos seus servos: E todos os que esperam nêle não perecerão.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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