Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 40

Salmo deprecatório e profético. Davi fugindo de Absalão, foi assistido do velho Berzelai, e de outros (2 Rs 17, 27.). Movido da caridade, e liberalidade dêstes, apregoa bem-aventurados aos que se compadecem do pobre, e necessitado. Passa depois a queixar-se das suas calamidades, e da perfídia, que os seus usavam com êle, e põe em Deus toda a sua esperança.

1Ao regente do côro, salmo do mesmo Davi.[1]1Êste salmo foi composto durante a revolta de Absalão. Todos os intérpretes entendem que êste Salmo é alusivo a Jesus Cristo. Tem quatro estrofes. Primeira (2-4). É feliz o benfazejo, Deus não o abandonará. Segunda e Terceira. (5-10). Os inimigos de Davi desejam a sua morte, e os amigos também o traem. Quarta (11-13). Davi pede a Deus que o salve.

2Bem-aventurado o que cuida sôbre o necessitado, e o pobre: O Senhor o livrará no dia mau.

3O Senhor o guarde, e lhe dê vida, e o faça bem-aventurado na terra: E não o entregue ao poder de seus inimigos.

4O Senhor lhe dê auxílio sôbre o leito da sua dor: Tôda a sua cama revolveste na sua enfermidade.[2]2TÔDA A SUA CAMA REVOLVESTE — Alguns pela palavra revolveste entendem afofaste; é uma apóstrofe a Deus, servindo-se nêle de um têrmo figurado, que se toma de quando se faz a cama a algum pobre enfêrmo, que se procura que lhe fique branda e macia, para que logre algum repouso e consolação, o que explica admiràvelmente a bondade e misericórdia do Senhor, com os que igualmente usam de misericórdia com os seus próximos. — Pereira.

5Eu disse: Senhor, compadece-te de mim: Sara a minha alma, porque pequei contra ti.

6Os meus inimigos falaram contra mim dizendo: Quando morrerá, e perecerá o seu nome?

7E se algum entrava a ver-me, falava coisas vãs: O seu coração recolheu em si iniqüidade. Êle saía fora, e falava sôbre isso mesmo.[3]3RECOLHEU EM SI INIQÜIDADE — Tudo isto convém, e se acomoda ao traidor Judas, que tratando familiarmente e como amigo com o Senhor, cheio o coração de veneno, buscava ocasiões para o vender, e para o entregar aos judeus. — P. Scio.

8Contra mim murmuravam todos os meus inimigos: Contra mim urdiam males.

9Palavra injusta decretaram contra mim: Porventura o que dorme não se poderá outra vez levantar?[4]4PALAVRA INJUSTA — Pode também expor-se neste sentido: Uma coisa injusta resolveram contra mim, e é, tirarem-me dêste mundo: mas ainda que tenham tomado uma resolução tão cruelmente, poderão por isso despojar-me do poder que tenho de me ressuscitar? O que pròpriamente se entende de Cristo. — Calmet.

10Ainda o homem da minha paz, em quem eu confiei: O que comia o meu pão, engrandeceu sôbre mim a sua traição.[5]5ENGRANDECEU SÔBRE MIM — Para que não se entendesse que Davi fala de Aquitofel, ou de outro traidor semelhante, o mesmo Jesus Cristo aplica êste versículo ao traidor Judas, como se pode ver em Jo 13, 18. No hebreu se lê: "Engrandeceu contra mim o calcanhar; ou como se lê em S. João: Levabit contra me calcaneum suum." Isto é: será o primeiro que há de levantar o pé para me dar coices. — Calmet.

11Tu pois, Senhor, tem compaixão de mim, e ressuscita-me: E eu lhes retribuirei.[6]6E EU LHES RETRIBUIREI — Todos sabem muito bem as calamidades que vieram sôbre os judeus depois da morte de Jesus Cristo. — P. Scio.

12Nisto conheci eu que tu me querias bem: Em que o meu inimigo se não alegrará sôbre mim.

13Porque tu me tomaste na tua proteção por causa da minha inocência: E tu me fortificaste diante de ti para sempre.[7]7POR CAUSA DA MINHA INOCÊNCIA — De Jesus Cristo é de quem pròpriamente se pode dizer que seu pai o recebeu como entre os seus braços por causa da sua inocência, e que o estabeleceu depois da sua ressurreição para que estivesse eternamente diante de seus olhos, e à sua direita, porque, ainda que feito homem por nós, o mesmo era filho de Deus, Deus verdadeiro, e o resplendor da sua glória, e a imagem da sua substância, ou a sua imagem substancial: quanto foi mais abatido à vista dos homens, tanto foi mais exaltado na presença do Senhor. — Santo Agostinho.

14O Senhor Deus de Israel seja bendito por todos os séculos: Assim seja, assim seja.[8]8ASSIM SEJA, ASSIM SEJA — O hebreu: Amém, Amém. Estas duas palavras se acham no fim de cada um dos cinco livros, em que já de tempos muito antigos foram divididos os salmos; e êste é o último do primeiro livro. A Igreja tomou também o costume, que se tem conservado universalmente, de fazer rezar no fim de cada salmo o Gloria Patri, que corresponde em certo modo àquele elogio que punham os hebreus no fim de cada livro dos salmos. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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