Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 36

Salmo didático. Os que estão debaixo da proteção de Deus, não devem invejar a felicidade dos ímpios.

1Salmo do mesmo Davi. Não queiras imitar aos malignos: Nem invejes aos que obram iniqüidade.[1]1SALMO DO MESMO DAVI — Querem alguns que Davi compusesse êste salmo no tempo da guerra de Absalão, para alentar e animar aos que seguiam o seu partido. Outros expositores têm para si que êle é dirigido particularmente aos desgraçados prisioneiros da Babilónia, porque nêle se fala freqüentemente da herança e da posse da terra feliz, o que no sentido literal diz respeito à cidade de Jerusalém. Davi se anima e se fortifica a si mesmo e aos demais contra o escândalo que causa ordinàriamente a prosperidade dos maus no espírito dos que não vivem senão de uma verdadeira fé. O salmo é alfabético ou acróstico, e cada dois versículos correspondem a cada uma das letras do alfabeto hebraico. Tertuliano chama-lhe Providentia speculum, e S. Isidoro Votio contra murmur. Tem vinte e duas estrofes.

2Porque êles como feno se secaram velozmente: E como verduras de ervas logo se murcharam.

3Espera no Senhor e faze obras boas: E habita na terra, e te sustentarás com as riquezas dela.[2]2E HABITA NA TERRA — Estas palavras repetidas tantas vêzes neste salmo, deram motivo a que Calmet julgasse que êle dizia respeito ao povo judaico, cativo em Babilónia, a quem então nada consolava tanto como a esperança de tornar para a Palestina. Porém os Santos Padres entendem êste "habitar a terra" no sentido figurado, por habitar a morada dos bem-aventurados, a qual o mesmo Profeta-Rei chama noutra parte a região dos vivos. Salmo 26, 23. — Pereira.

4Deleita-te no Senhor: E te outorgará as petições do teu coração.

5Descobre ao Senhor o teu caminho, e espera nêle; e êle fará.[3]3DESCOBRE AO SENHOR O TEU CAMINHO — O hebreu diz: Volta sôbre o Senhor o teu caminho. Isto é, acode à oração para pôr nas suas mãos todos os teus negócios, ações e pensamentos. Sl 54, 23. — P. Scio.

6E fará brilhar como lume a tua justiça: e o teu juízo como o meio-dia:[4]4E FARÁ BRILHAR COMO LUME — Fazendo-a triunfar de tôdas as calamidades, e dando claras demonstrações de que a aprova e ama. — Pereira.

7Está obediente ao Senhor, e roga-lhe. Não queirais invejar ao que tem prosperidade no seu caminho: Ao homem que faz injustiça.

8Guarda-te da ira, e deixa o furor: Não te mova a emulação para te fazeres mau.

9Porque os que fazem maldade, serão exterminados: Mas os que esperam o Senhor, êles herdarão a terra.[5]5HERDARÃO A TERRA — Isto é: Viverão na terra e gozarão os seus bens, e depois serão trasladados, àquele que com tôda a propriedade se chama terra dos viventes: Aquêle onde reina a eternidade. — Santo Agostinho.

10E ainda um pouco, e não existirá o pecador: E buscarás o lugar dêle e não o acharás.[6]6E BUSCARÁS O LUGAR DÊLE E NÃO O ACHARÁS — Não achará ao pecador naquele lugar, ou estado em que antes o havias visto. A letra vau, que representa um cajado de pastor, e que está omitida nos dois salmos acrósticos que precedem, se acha aqui não só na inicial do primeiro dêstes dois versículos, senão que estando êle composto de três hemistíquios, se lê repetida no princípio de cada um dêles, e por conseguinte três vêzes. — P. Scio.

11Mas os mansos herdarão a terra, e deleitar-se-ão em abundância de paz.

12O pecador espreitará ao justo: E rangerá com os dentes contra êle.

13Mas o Senhor zombará dêle: Porque vê que há de chegar o seu dia.[7]7O SEU DIA — O seu dia último, o seu dia do juízo, o dia da sua perdição. — Pereira.

14Os pecadores desembainharam a espada: Estenderam o seu arco. Para arruinarem o pobre e o indigente: Para assassinarem os retos do coração.

15A espada dêles traspasse o seu coração: E o arco dêles seja quebrado.

16Mais vale o pouco a um justo, que as muitas riquezas aos pecadores.

17Porque os braços dos pecadores serão quebrados: Aos justos porém fortalece-os o Senhor.

18O Senhor conhece os dias dos que são imaculados: A herança dêles será eterna.

19Êles não serão confundidos no tempo mau, e serão fartos nos dias da fome:

20Porque os pecadores perecerão. Mas os inimigos do Senhor tanto que tiverem sido honrados e exaltados, faltarão, e se desvanecerão como o fumo.

21O pecador pedirá emprestado, e não pagará: O justo porém tem compaixão e dará.

22Porque os que o bendizem herdarão a terra: mas os que o maldizem perecerão.

23Os passos do homem serão dirigidos pelo Senhor: E o seu caminho será aprovado por êle.

24Quando cair, não se ferirá: Porque o Senhor lhe põe a mão por baixo.

25Mancebo fui, e já sou velho: E não vi o justo desamparado, nem a sua descendência mendigando pão.

26Todo o dia exercita a misericórdia, e dá emprestado: E a sua descendência será abençoada.

27Desvia-te do mal, e faze o bem: E terás uma morada eterna.

28Porque o Senhor ama a eqüidade, e não desamparará os seus santos: Serão eternamente conservados. Os injustos serão punidos: E a descendência dos ímpios perecerá.

29Mas os justos herdarão a terra: E morarão sôbre ela por todos os séculos.

30A bôca do justo meditará sabedoria, e a sua língua falará prudência.[8]8E A SUA LÍNGUA FALARÁ PRUDÊNCIA — O justo não fala senão depois de ter meditado as coisas dentro de si mesmo, e de havê-las consultado, e cotejado com a lei de Deus; e por isso as suas palavras saem do coração cheias de sabedoria, e de prudência. — P. Scio.

31A lei do seu Deus está no seu coração: E não se armará ardil enganoso aos seus passos.

32Espreitará o pecador ao justo: E procura como há de dar-lhe a morte.

33Mas o Senhor não o deixará nas suas mãos: Nem o condenará quando fôr dêle julgado.[9]9QUANDO FÔR DÊLE JULGADO — Dêle pecador: se bem que êste pronome falta no hebreu. — Bossuet.

34Espera no Senhor, e guarda o seu caminho: E te exaltará para que tomes em herança a terra: Quando perecerem os pecadores então verás.

35Vi ao ímpio sumamente exaltado, e elevado como os cedros do Líbano.[10]10VI AO ÍMPIO SUMAMENTE EXALTADO — Isto diz o real profeta porque viu o fim de Saul, o fim de Absalão, o fim de Naas amonita, o fim de Golias filisteu, o fim de Doeg idumeu. — Teodoreto.

36E passei, e eis-que não era: E o busquei, e não foi achado o lugar dêle.[11]11E PASSEI — É clássica a tradução dêste e do versículo anterior, feita pelo célebre Racine, na Ester, at. V. "J'ai vu l'impie adoré sur la terre. / Pareil au cedre, il cachait dans les cieux / Son front audacieux / il semblait à son gré gouverner le tonnerre / Foulait aux pieds ses ennemis vaincus / Je n'ai fait que passer, il était déjà plus",

37Guarda a inocência, e atende à eqüidade: Porque há resíduos para o homem pacífico.

38Mas os injustos perecerão igualmente: As relíquias dos ímpios serão destruídas.

39Mas a salvação dos justos vem do Senhor: E êle é o seu protetor no tempo da aflição.

40E o Senhor os ajudará, e os livrará: E os tirará da mão dos pecadores, e os salvará: Porque esperaram nêle.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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